sexta-feira, 8 de maio de 2015

DESPREPARADOS

Somos todos despreparados. Achamos que estamos prontos, mas é puro despreparo. Há poucos anos atrás estávamos bem preparados, mas de lá para cá, nosso preparo desapareceu.
Pense assim, há menos de dez anos você podia ter uma clara ideia sobre a sociedade, um conceito bem organizado sobre as coisas que o cercam, família, economia, política, esportes, religião. Havia uma certeza quase absoluta de suas convicções, e as dúvidas que você tinha eram respondidas no dia a dia, interagindo com seu limitado círculo social, conversando com outras pessoas, ou lendo livros físicos que tentavam explicar genericamente coisas particulares que você vivia. A linha das suas próprias convicções jamais precisava ser ultrapassada. Nessa época, nem sempre havia consenso, e por isso uma discussão sobre quem participou da semifinal de 86 não levava a uma resposta homogênea, os resultados nem sempre eram uma constante, mas a verdade era invariável. Na argumentação valiam suas lembranças versus as lembranças dos outros, na medida desproporcional de certezas e dúvidas, a verdade se construía firme e lentamente, como Einstein imaginou, em uma velocidade relativa ao seu próprio movimento.
Então chegaram a internet e as redes sociais. Como alienígenas dos filmes antigos, invadiram nosso território social sem aviso prévio. O que parecia ser uma era de igualdades se tornou o renascimento de um antigo sistema social da divisão em categorias, classes, tipos, grupos, proximidade e parentescos, e pelas mãos do turco Orkut Büyükköten nos dividimos em comunidades virtuais organizadas muito mais pelo que acreditávamos que éramos, do que pelo que realmente somos. Como sempre, nossa impaciência diante do cotidiano nos empurrou para novas fronteiras, e logo descobrimos que conviver com semelhantes era chato demais, migrando para outras redes aparentemente multireferenciais, mas igualmente segregadoras. E eis que por volta de 2007 o alien mais perigoso de todos invadiu totalmente nosso sistema social organizado difundindo o facebook de Zuckerberg e Severin. Originalmente uma ideia tola e preconceituosa, foi habilmente transformada e expandida entre pós-adolescentes da costa leste americana para se tornar global. Alavancado pela evolução das conexões em razão geométrica, nosso desespero ancestral de pertencer ao grupo e a explosão de telefones inteligentes em 2008 (não seriam as pessoas que deveriam ser inteligentes?), o facebook reorganizou as relações sociais em menos de dez anos, e criou o novo conceito da verdade não absoluta, das verdades criadas pelos interesses grupais. Aí está nosso despreparo.
Uma mentira sempre foi uma mentira. Mas contada para vinte pessoas não passava de galhofa. Uma mentira contada para centenas que recontam para centenas geralmente se transforma num crime, normalmente contra a humanidade (vide o nazismo, Iraque, Vietnã). O facebook consegue isso, consegue fazer uma mentira se transformar numa verdade, e de verdade, passar a alcunhar fatos verdadeiros como mentirosos. Nas redes sociais as postagens são partes de uma construção, fragmentos cujas lacunas são completadas pelo outro, normalmente numa dicotomia eufórico/otimista ou reacionário/ignorante, quase sempre diferente da realidade. Uma foto de uma garrafa de vinho num sábado à noite com os dizeres “sábado intimista” e seus amigos construirão a ideia de um sábado a dois, música romântica, muito sexo. A verdade? Uma solidão avassaladora, inércia de contato social e uma tremenda vontade de parecer diferente. O mundo das redes sociais é assim, tudo são verdades, mas pouca coisa é real.
Nosso filtro de realidade foi moldado por milhões de anos para coisas físicas, presenciais ou tangíveis. De repente estamos diante de um novo modo de relações que exige crítica, análise e reflexão. Somos seres imediatos, reativos e espasmódicos, não fomos ensinados pela natureza a sermos reflexivos. Daí reproduzimos sem critério, retwitamos, compartilhamos, curtimos, opinamos, em qualquer profundidade. Como disse Thomas L. Friedman, a internet é tão importante nas relações sociais nos dias de hoje que os modems deveriam vir com um aviso: Este equipamento não emite juízo de valor, você precisa pensar por si próprio. Definitivamente, não estamos preparados.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

PABLO

"Procuro uma mulher que me inspire."

Contam que foi assim que Pablo Neruda iniciou o anúncio que publicou no jornal, na semana seguinte ao desembarcar em Cartagena das Índias, disposto a cumprir um ano sabático, após a separação daquela que ele acreditava ser seu verdadeiro amor, Matilde. No dia seguinte, havia uma fila de jovens estacionadas em frente à casa simples do poeta, ansiosas pela vaga de musa.

Apesar de ser uma pequena brincadeira (Neruda jamais pensou em contratar alguma mulher que pudesse ser sua verdadeira musa), Pablo ficou em uma péssima situação, em uma cidade pequena e distante de novidades. Não houve outra solução senão entrevistar as meninas, uma a uma. Entre elas estava Isabel Castañeda.

Isabel era uma morena portentosa, com seus 22 anos, muito distante dos 56 do poeta. Nunca esteve disposta a comparecer na entrevista, mas conhecer Neruda pessoalmente tornara-se objetivamente uma obsessão coletiva em Cartagena, e sua mãe praticamente a expulsou de casa para que arriscasse a chance de se imortalizar como a inspiradora de tantos e tão formidáveis poemas.

O encontro foi no meio da tarde. Pablo recebia as moças delicadamente tomando uma xícara de chá, e uns anos depois escreveria “Muitas chávenas de chá” lembrando-se daquele mar de formosuras que desfilaram perante seus olhos naqueles dois dias. Isabela se impressionou com Pablo. Esperava um homem decadente, velho e instrospectivo como julgava que poetas dessa idade deveriam ser, mas encontrou um jovial e divertido menino, cujas marcas no rosto deixavam clara a passagem do tempo. Neruda não se interessou por ela, e por nenhuma outra. 

Na semana seguinte, com uma grande vontade de comer berinjelas (segundo ele mesmo em sua autobiografia) Neruda foi à feira. Parou numa barraca onde atendia dona Josefa, cujo nome o pai lhe dera pois tinha o sonho de ter um filho que fosse carpinteiro. Pablo não sabia escolher berinjelas e lhe pediu ajuda, ocupada descascando figos, dona Josefa pediu à filha que o atendesse. A filha era Isabela. Na luz difusa da feira, entre aromas e cores, Pablo se apaixonou. Daí iniciou-se um dos maiores romances fora da literatura de todos os tempos. Anos depois, casado há muito com Isabela, Neruda escreveria um de seus mais famosos poemas, “Cheiro de figos e berinjelas” celebrando o amor descoberto numa barraca de feira.

Tudo que você leu até aqui é mentira.

Neruda jamais foi para Cartagena das Índias (é o romance “Amor nos tempos do cólera” de Gabriel García Márquez que se passa lá), na verdade seu ano sabático foi em Santa Sofia que inspirou o filme “O carteiro e o Poeta”. Nunca esteve casado com Isabela, que nunca teve uma mãe chamada Josefa. Jamais escreveu os dois poemas citados ou uma autobiografia. Pensei nessa história de amor quando dirigia para o trabalho, e resolvi escrevê-la para demonstrar, por "a mais b", como é fácil mentir sobre qualquer coisa na rede. Até uns anos atrás, nossas mentiras eram restritas a um pequeno círculo. este texto é uma espécie de pedido de atenção para tantas falsidades que encontramos na internet. Estamos a um Google da verdade, basta procurá-la. Não acredite em tudo que vem pronto e embalado para ser degustado, conexões de alta velocidade requerem juízo de valor. Pablo há de me perdoar, mas não resisti, como ele mesmo diria, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. 

*******************

PS.: Pablo era chileno, jamais tirou um ano sabático. O filme” O carteiro e o poeta” que supostamente retrata seu romance com sua terceira e última mulher, Matilde, ocorreu em Isla Negra, e não na Itália como retrata o filme. Pablo Neruda foi um dos maiores poetas do século XX, e levou sua militância política ao ponto de desistir de uma candidatura à presidência do Chile em nome de Allende. Por fim, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” é uma frase atribuída a Che Guevara. No fundo, nada disso pode ser verdade

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Marcelo Pontes, por Marcelo Pontes

Eu gosto de feijoada.
Feijoada com samba, gosto mais ainda.
Pode ser pagode também, feijoada com pagode.
Se beber o suficiente, nem me importo se a banda tocar brega ou sertanejo.
Deixo meu carro no bar, volto de táxi.
Gosto de futebol. Não, adoro!
Gosto de sair de casa, e de estar em casa quando o Internacional joga.
Não me importo com gastronomia, comer é uma obrigação.
Tanto faz para mim se a carne é de gado criado no Japão com música clássica.
Se a marmorização é +6, +7, +8 ou mais quanto quer que seja.
Coloco os cotovelos sobre a mesa quando como, é sem querer.
Empurro a comida para cima do garfo com a faca.
Prefiro caipirinha a espumante.
Durmo de calça de pijama de flanela e camiseta.
Caminho rápido.
Leio vários livros ao mesmo tempo.
Gosto de me vestir bem, mas erro frequentemente.
Adoro arquitetura, museu, artes plásticas, cinema, literatura, escrever.
Filme com escritor, adoro.
Não tenho paciência para teatro.
Odeio The Kardashians. Adoro Mad Men.
Voto no PT há 30 anos.
Não sou apaixonado por carro como todo brasileiro.
Prefiro Piquet ao Senna. Acho o Senna chato. Prefiro até o Émerson.
Não vou em Casa Cor.
Quando viajo a turismo caminho o dia inteiro, almoço sanduíches, compro pequenas lembranças, se chover, troco de cidade.
Sou otimista.
Acho que vai dar certo, que vai acontecer, que vai melhorar, que está melhorando, que não foi de propósito, que vai passar.
Gosto de mulheres pequenas de mãos e pés pequenos.
Prefiro mulheres altas, de mãos e pés grandes.
Adoro filosofia, psicologia comportamental, evolucionismo, Jung, Gabriel García Márquez, Andre de Botton, Vitor Hugo.
Não consigo seguir blogs, twitters e instagram de gente famosa.
Eu gosto de feijoada.
Feijoada com samba, gosto mais ainda.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Você já sabe que em qualquer lugar
Eu tô pensando em você
Por mais distante que eu pareça estar
Eu tô pensando em você
Há tanta coisa fora do lugar
Que eu tento arrumar por você
Só pra poder te mostrar que ao seu lado é meu lugar
E que não há mais ninguém

Zero:Onze
Postado diretamente de Boa Vista - Roraima

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Comentário a respito de Eric

Quando leio um artigo em um blog qualquer relatando uma entrevista com Eric Hobsbawm, feita há dois anos, fico em silêncio por uns minutos pensando em como continuo incompetente para entender o mundo. Penso em quantas coisas estão além do meu entendimento, me sinto um analfabeto em economia, sociologia, política internacional e movimentos sociais. O cara era mesmo uma sumidade. Falava de coisas complicadas, de um modo complicado, mas que tornava tudo simples. O ABC da geopolítica e o uso da tradição histórica para entender o futuro estava no seu DNA, parece que não fazia esforço algum para explicar para pessoas simples como eu como os países estavam se redesenhando, como o mundo se redesenhou após a recessão dos anos 30 reorganizado em torno das direitas, como as esquerdas emergiram, quais seriam nossos próximos passos.

Na faculdade li livros que ele escreveu para tentar entender como as populações se desenvolvem, não é só uma questão econômica, é também social, das periferias e do movimento da especulação imobiliária. Por isso líamos Hobsbawm na arquitetura. Toda vez que alguém no mundo que decide precisava de uma opinião sobre como as coisas estavam evoluindo ou para onde iam, precisava comprovar uma ideia, ou queria mudar um paradigma político, chamava o nome do bom e velho Hobsbawm. Ao final, fiquei ali parado assim pensando... Mas cometi a infeliz ideia de seguir lendo e ir para os comentários de burronaltas, e foi aí que me deparei com o absurdo fenômeno que estamos vivendo.
Algumas pessoas leram o artigo e julgaram que Hobsbawm estivesse (vivo) defendendo ideologicamente o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores. Mesmo que no artigo ele fale em política internacional, na união de Brasil e Argentina no cone Sul para fortalecer a América Latina, na perda da hegemonia do FMI pelo pagamento da dívida por países emergentes, na fase dura das relações diplomáticas nas mãos de Thatcher e Reagan, mesmo assim. Algum despreparado ignorante social só conseguiu entender e se fixar na frase sobre o ex presidente Lula.

Quero só relembrar quem é esse personagem. Hobsbawm foi um dos maiores pensadores da economia e movimentos políticos do século XX, descreveu a história do século XX como ninguém, em associações entre movimentos sociais e políticos, econômicos e de desenvolvimento de uma forma inovadora e esclarecedora. Sempre foi obcecado com a ideia de que entender a história poderia nos levar a planejar e predizer o futuro, analisando o passado, previu situações que se concretizaram no correr da história, sendo a mais famosa a crise de etnias e religiões na região de Israel, escreveu mais de 30 livros. Presidentes do mundo todo iam até Londres para conversarem com ele sobre como a crise ou os movimentos políticos afetariam ou afetarão seus países. E quando leio os comentários da matéria...um cara diz que ele é esclerosado, o outro (que não sabe que limpeza se escreve com z) diz que ele tem Alzheimer (e claro, erra na ortografia), e um terceiro diz que ele foi pago pelo Lula.
Meu Deus!
Que inferno é esse de internet que tenho que aguentar com tanta gente despreparada, ignorante e desrespeitosa? Pobre Eric. Ser assim xingado por um punhado de incompetentes pretenciosos que não tem nem ideia de quem ele foi. Mas esse é o reflexo do povo do país em que vivemos. O povo que tem opinião formada sobre tudo, mas só lê o cabeçalho; que se "politiza" pelo facebook; acha engraçado vaiar a presidenta de seu próprio país diante do mundo num jogo de futebol; que faz manifestações e depois esquece o motivo, que abandona a militância porque perdeu a graça; que vota sem se informar e depois reclama do governo; que esquece em quem votou; que acha que sonegar não é crime (afinal o dinheiro não é usado em nada mesmo, como se calçamento, luz, grama cortada, meio-fio e tudo o mais brotasse da terra). Povo que vota voto de protesto e elege oTiririca, que compra uma revista semanal que mente, e um jornal que elege como o melhor deputado federal do ano de 2012 um ex-BBB e ... Tiririca, o segundo melhor! Sou obrigado a aceitar que precisamos melhorar muito a educação. Vocês tem razão.

Mas também sei dar opinião, leio muito para dar opinião, e se qualquer um pode, também posso. A minha opinião é que a educação tem que começar em casa, em pais presentes; mais diálogo, menos novela; mais análise, menos copia e cola; mais leitura, menos compartilhar. Menos cada um com seus problemas, mais respeito pelo outro; menos mulher pelada, mais livros; menos âncora de telejornal dando opinião, mais direito de resposta. Essa mania hedionda dos brasileiros (muitos, a maioria, infelizmente) de serem irreverentes e não respeitarem as regras, de furar fila para dobrar no semáforo, de fazer dedo de silicone para bater ponto e não precisar dar plantão em hospital, de comprar maconha e reclamar de traficantes, de baixar música sem pagar direitos autorais, de fumar escondido onde é proibido fumar. Isso cansa.

E então, depois que leio um depoimento brilhante de um dos caras mais inteligentes do mundo, um ícone do século XX, algum imbecil qualquer usa a seção de comentários e diz que o filósofo, economista, antropólogo, historiador (que já morreu!) está caduco. Por favor, pára o mundo que eu quero descer!
Hobsbawm, esteja onde estiver, em nome do povo brasileiro, peço desculpas.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

São 15h55min.
Crianças não costumam nascer a tarde, mas afinal, era eu.
Desconsiderando as voltas da Terra, e pensando de modo simplista, acabo de fazer 50 anos de idade. Não posso dizer que não usei bem esse tempo, mas também devo considerar que poderia ter usado melhor. Não sei tocar piano, não tive um filho, Não plantei uma arvore, não fiz a volta ao mundo. Mas fiz outras coisas bem legais, e "provei tantas frutas, que te deixariam tonto". Botei o pé no mundo, desapareci por uns dias, toquei numa banda improvisada, conheci todas as capitais do Brasil. Li muitos livros, muitos mesmo. Senti saudade. Descobri que amigos vão e voltam, mas que inimigos ficam para sempre, e então, com todas as perspectivas a meu favor, descobri que ainda não sei perdoar. Fiz campanha política, escrevi meu próprio blog. tive mais de 50 mil acessos num post sobre o Big Brother, descobri que muita gente me lê, aumentei a responsabilidade… Morei em várias cidades, comi comidas estranhas, mas nada nojento. Perdi tudo, recuperei tudo outra vez, perdi tudo de novo, recuperei tudo outra vez. Desisti de comprar um apartamento, fiquei muito doente, me curei. Vi as pessoas que eu amo caírem e se levantarem; vi as pessoas que eu amo conquistarem seus sonhos; vi as pessoas que eu amo dizerem coisas lindas pra mim, quando eu nem sequer esperava. Dirigi em autoestradas nos EUA, fiz feijão com arroz em Nova Iorque, chorei ao ver alguém que não conhecia cantando. Nunca aprendi a tocar piano. Mas aprendi a tocar os teclados de letras, bem ao meu jeito, na ordem certa, compassada, expressando o que eu sinto. Em 50 anos, escolhi os musicais como minha forma preferida de arte, junto com meu grande amor à arquitetura, sem deixar para trás a literatura e as artes plásticas. Tudo bem, em 50 anos não decidi ainda qual das artes mais me encanta, mas sei que não é a poesia. Conheci menos lugares do que pretendia, mas conheci lugares que nem sonhava. Na minha cidade natal conheci todos os becos, adotei outra cidade como cidade natal, e pelas ruas estreitas do velho mundo "vi tanta moça bonita, tanta rua esquisita, tanta nuança de parede, nas ruas por onde andei, e vi uma rua encantada, que nem em sonhos sonhei". Desembarquei em Manaus em um dia quente de verão vestindo camisa estampada e de mangas compridas com colarinho fechado ao estilo dos anos 90, fui recebido por um estranho que se tornaria meu amigo por toda a vida, atravessei a selva, andei de barco, aluguei um táxi para viajar pelo Acre e Rondônia…atravessei os dois estados por uma estrada estranha cercada de floresta, de táxi! Quase caí de um telhado em Roraima, almocei a bordo de um restaurante que flutuava no maior rio do mundo, dormi em uma acampamento de mineiradores no Amapá, passei a noite acordado. Conheci uma cantora sertaneja quando perdi minhas malas na Bahia, viajamos dois dias de ônibus para descobrir que o caminho era outro. Mergulhei clandestinamente sem licença, caí de um barco, votei 20 anos no mesmo candidato e quando ele se elegeu chorei de alegria sob fogos de artifício enrolado em minha bandeira vermelha. Me senti grande. Atravessei Portugal de carro, visitei o túmulo de Santiago, falei em várias línguas, me perdi no caminho de uma cidade chamada Jaquirana. A verdade? Me perdi inúmeras vezes no Rio Grande do Sul, em Minas e Goiás, fiquei mais de uma hora perdido de carro em BH, nunca me localizei muito bem. Enjoei nas estradas de terra, correndo ralli no Paraná. Mesmo sendo passageiro, empurrei um táxi estragado em Fortaleza. Reformei um prédio histórico em Belém, depois outro, muito maior. Acompanhei o meu time do coração do outro lado do mundo, conheci o deserto da Arábia, li as Mil e Uma Noites, cheguei em Atlanta após o furacão, andei de camelo e vi o pôr-do-sol no deserto. Me senti pequeno. Escrevi para uma revista, escrevi para um jornal, escrevi três livros, perdi um inteiro, não publiquei. Aprendi a dormir tarde e acordar cedo, a ver um filme mais de uma vez,a perceber quando meu corpo precisa descansar, e quando preciso comer mais verduras. Aprendi a ouvir antes de falar quando os ambientes eram hostis ou competitivos, aprendi a respeitar quem sabe mais do que eu, aprendi a querer ser igual a quem sabe mais do que eu. Sofri por amor, me curei; sofri de novo, me curei; sofri de novo, me curei; sofri de novo, me curei, numa exponencial infinita que agora sei que jamais acabará, porque também descobri que o amor não acaba e que tem muitas formas. Entendi que qualquer forma de amar vale a pena. Entendi que brigar as vezes é a única opção, mas nunca a melhor. No fim das contas, fazendo um balanço, descobri que fazer 50 anos de idade não é o fim do mundo, nem o começo, nem a metade, é só mais um número, preferia que ele fosse menor, mas como disse Paulo Autran, para viver mais a gente tem que envelhecer, então, que venha o resto, mas devagar, por favor.

domingo, 21 de abril de 2013

SUPÉRFLUOS


Para mim, as coisas no mundo estão divididas em grandes categorias: as necessárias, as supérfluas, e as coisas que são tão desnecessárias que nem sequer são supérfluas. Nem vou precisar começar com alguma coisa absolutamente surrealista como papel higiênico perfumado, porque seria até uma covardia avaliar a necessidade de perfume pensando na função do papel. Também vou ignorar os clássicos capacetes para paraquedista, como se fizesse alguma diferença proteger a cabeça no caso do paraquedas falhar, e vou passar longe do aviso padrão da aviação ... "Em caso de pouso na água, seu assento é flutuante...". Sempre tenho a sensação de que a seqüência dessa frase seria ..." O que não vai adiantar absolutamente nada porque vamos todos ser despedaçados no impacto a 400 km por hora". Anúncios de aviao são pérolas raras que vou deixar para outro post.

Talvez você não tenha reparado, mas nas mangas de todos os ternos existem quatro botões. Não são três, nao são cinco, são quatro. Aqueles botões não podem ser abotoados e nem mesmo desabotoados. Eles são botões sem-teto, homeless, nao tem uma casa e nem prendem nada. Absolutamente desnecessários. A moda é uma enciclopédia de supérfluos.

Repare no controle remoto do seu DVD ou BlueRay, você vai ver que ele tem números, mas agora responda rapidamente: qual a última vez em que você lembra de ter usado essas teclas numéricas? Se a resposta foi "teclas? que teclas?", fique tranquilo, você é humano. Desodorante é um supérfluo desnecessário, mas obrigatório no convívio social, praticamente todos os cosméticos são uma invenção para ganhar dinheiro em cima das vaidades humanas, o que não significa que deixando de usá-los você será mais feliz. Enfeites para casa são o ápice do supérfluo, ainda que a arte decore a vida, mas de longe perdem para o tal papel higiênico perfumado. Pior, no mercado você encontra rolos de papel higiênico com desenhos em baixo relevo. Os de padrão floral são os mais racionais, se é que há algo de racional nisso, e os mais bizarros incluem singelos coelhinhos pulando felizes enquanto você se limpa com eles.

O ar condicionado do seu carro, especialmente se você mora no Rio Grande do Sul de temperaturas extremas, é um supérfluo indispensável. Você pode viver sem ele, mas vai viver congelado ou suado. Por outro lado, um telefone celular é supérfluo, mas necessário. Experimente sair de casa sem o seu e sinta a sensação de vazio que toma conta de sua alma. Mas, acredite, se você nao tiver um telefone celular, vai continuar respirando normalmente, mantenha a calma e lembre do tempo em que sua vida social estava atrelada a um aparelho plugado na tomada da parede. Sem celular você pode até perder um ou outro convite para festa, mas ainda assim vai sobreviver.

domingo, 31 de março de 2013

AH...O AMOR














Deviam ensinar sobre o Amor na escola. O Amor deveria ser um assunto tratado com a mesma seriedade de química ou física, matemática, biologia ou português. E nas faculdades também deveria ser obrigatório; Amor I, Amor II e outros Amores, até o final do curso. Ser feliz sem amor é quase tão difícil quanto ser infeliz amando. O Amor é uma força poderosa, tanto quanto qualquer lei da física, capaz de movimentar nossa vida e alterar nosso destino, assim como uma força aplicada sobre um corpo em movimento pode alterar sua trajetória, o amor aplicado em nossas vidas pode mudar o curso de nosso destino. Nós, os humanos, somos feitos pelo amor e fomos feitos para amar.

Amar dói, cansa, incomoda, desgasta. Amar cura, reabilita, conforta, relaxa.

O amor só se reconhece dentro dele mesmo, compartilhado, construído entre duas pessoas, não há amor no infortúnio, na descrença, na desgraça. Por outro lado, é amando que recuperamos todos nossos benefícios humanos, capacidade única que nos distancia das demais criaturas animais que habitam o planeta. É essencialmente uma habilidade humana, um desígnio criado por nós para aplacar a solidão que só o conhecimento propicia. Todos queremos a sorte de um amor tranquilo, ser o pão e a comida do outro que amamos, como diria Cazuza, um veneno antimonotonia na vida cotidiana e suas sutis armadilhas de desencanto.

Amar é um assunto fácil, mas não é simples. Requer tentativa e erro, não tem fórmulas, não é linear, não é mensurável, e quando nos entregamos ao amor equivocado, envolve centenas de outros sentimentos, alinhavados pelo aprendizado de se reerguer. O amor errado crucifica e desencanta, mas somente um novo amor recupera o amor destroçado, como uma auto-genese, o amor se refaz em outro, e se refazendo, nos reconstrói. Quando menos se espera, o amor nos redescobre, e nos reconforta, e nos reencanta, e somos nós mesmos outra vez, melhores, mais fortes, mais hábeis para a arte inexplicável do repartir-se. Quando nos entregamos ao amor verdadeiro, com a pessoa verdadeiramente amada, então o amor se transborda. Ultrapassa o limite do entendimento e se converte numa dádiva que nos traz de volta o medo de morrer. Não existe pessoa mais feliz no mundo do que aquela que teme o fim da vida porque ama.

O amor liberta, dá asas, permite entender a vida pelos olhos do outro, ser feliz com o outro, viver plenamente. Amar é um verbo intransitivo que requer complemento. Amar é bom, é demais, amar demais, é melhor.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

VEM ME BUSCAR !



Me desculpem, mas é carnaval!

O carnaval tem essa capacidade indescritível de me fazer feliz, uma afinidade ao ritmo que meus amigos diriam ser resultado de uma descendência africana que na verdade não tenho na família, declaração inegável por meus olhos verdes e pele clara, uma clássica miscigenacao brasileira entre portugueses, alemães e italianos. Basta um bater de tambor para me abandonarem os motivos de lamentação e perder o controle de minhas pernas deixando que me levem. Diga-se de passagem, não são boas pernas para o som dos tambores, mas sigo pelos conselhos do Dalai Lama, "dance como se ninguém estivesse olhando", mais vale um péssimo sambista feliz do que um excelente dançarino cabisbaixo.

Sei que em parte os tambores mexem com minha alma em honra à minha filiação orgulhosa do matador de dragões, santo católico, orixá da umbanda, guerreiro, meu Pai Ogum. Meus tambores internos batem por ele. Pois quando você ler este texto, estarei no Rio de Janeiro, que nem preciso dizer, continua lindo. Entendo que estamos vivendo um momento difícil, onde a compreensão passa longe da razão, e a emoção não dá espaço para a vida recomeçar. Existem sentimentos que o tempo aplaca, mas não apaga. Para o resto, há a música, e para o que for amor não correspondido, existe o carnaval.

A festa do coração partido vai tomar as ruas do Rio, vai espalhar espuma e confete pelas calçadas. Vai encantar gringos de todas as nações, vai ecoar pelos morros pacificados, e o som dos inúmeros blocos vai se perder no mar. Vamos acordar cansados, mas decididos. Vamos comer pouco, beber muito, e nem vamos precisar dirigir. Nossos pés cansados vão desvendar o asfalto na Cidade Maravilhosa. O Cristo vai fechar os olhos, desviar o olhar para o oceano, depois, na quarta-feira, como bom pai, nos olhar de frente e perdoar nossos pecados adolescentes cometidos em uma festa mundana.

Agora somos o que quisermos, uma mistura de Vadinho e Camisa Listrada, árabes, bruxas, bailarinas. Drag queens, colombinas, hippies extraterrestres, ritmistas desencontrados. Mágicos, noivas, virgens. Somos uma legião espalhafatosa numa batalha de quatro dias, nunca somos derrotados, sempre há um de nós ainda em pé, como na música "somos um bando, um bando, um bando e muitos outros", e mesmo que você nao faça parte de nossa trupe, ainda assim lhe perdoamos.

Chegou a hora, vem carnaval, vem nos buscar!



domingo, 20 de janeiro de 2013

O BBB E O MURO ELETRÔNICO DAS LAMENTAÇÕES

Depois que o BBB recomeçou, tenho recebido diversas mensagens diárias em meu Facebook de gente falando mal do programa, foram essas mensagens que me fizeram pensar nesse assunto. Fiquei por um tempo imaginando o motivo que leva alguém a criar uma campanha desse tipo, porque, certamente, existem muitas outras coisas que essa mesma pessoa não tolera no seu dia a dia e contra as quais não milita. Se você pensar friamente, quinze minutos de BBB por dia durante 90 dias são pouco mais de 22 horas de programa, ou seja, cinco edições do Domingão do Faustão, ou dois domingos de Gugu Liberato e Silvio Santos, ou dez dias de um programa sensacionalista comandado pelo Ratinho ou Datena, convenhamos, não tão melhores assim que o BBB.

Depois, pensei nas coisas pelas quais milito e estaria disposto a ir às últimas consequências, são poucas: democracia, tolerância e igualdade. Por outro lado, há muitas coisas com as quais não me identifico, mas contra as quais não faço nada. E essa lista, essa sim, é maior. Não tolero música sertaneja, e agora mesmo estou ouvindo uma rádio que não toca esse tipo de música, está tocando Bob Dylan, não preciso dizer mais nada. Só escrevi contra os sertanejos uma vez copiando alguém, "Tomara que o Sertanejo Universitário se forme logo e arrange emprego fora do Brasil". Não gosto de ver televisão, prefiro um livro, nem precisa ser bom, uma hora qualquer de livro é melhor do que qualquer uma hora de programação na TV aberta. Livros são como pessoas, sempre há algo que se pode aproveitar. Não gosto de gente que fura a fila, conversa durante o filme no cinema ou atende o celular falando alto em ambientes públicos, mas não faria uma campanha contra essas pessoas no Facebook.

Também não gosto de fundamentalistas, pessoas que querem me convencer que seu Deus é melhor que o Deus do outro, ou me convencer que o meu Deus é pior do que o Deus do outro, ou mesmo que Deus não existe. Me deixem em paz com meus amigos imaginários! Não gosto de fotos de cachorro abandonado no meu Facebook, nem de "quantas curtidas merece esse campeão" mostrando velhos moribundos, pacientes terminais, crianças estraçalhadas, próteses e coisas assim. Acredito que até no sofrimento devemos respeitar a dignidade humana, e, como diz meu pai, deixar que cada um lamba suas próprias feridas. Mas isso é o que eu penso, você pode pensar diferente. A liberdade individual, apesar de intangível, deve ser preservada, todos sabemos que não é nas semelhanças que evoluímos, mas pelas diferenças que nos tornamos melhores.

O Facebook se transformou num Muro Eletrônico das Lamentações, nas suas fendas virtuais as pessoas depositam, como papéis dobrados eletronicamente, todas as suas crenças, sofrimentos, compartilham seus medos, riem solidariamente, exercitam a intolerância, expõem suas verdades. Inclusive eu. A nova relação entre pessoas inclui agora um espaço cibernético onde tudo é permitido. Uma bricolagem da cultura pop misturada com convicções fervorosas, que atesta que nunca em toda a história da humanidade nos manifestamos tanto publicamente sobre as diversas matérias que compõem a vida humana. E o BBB não está fora dessa, um micro-universo das relações interpessoais reproduzido em tempo real, uma fórmula mágica que vem colhendo resultados há treze anos, um bando de pós-adolescentes trancafiados em uma casa, hormônios efervescentes, tramas, sussurros, amores, desilusão, brigas, liderança, comportamento de grupo. Nada diferente de uma repartição pública ou uma empresa privada, o zoológico humano, afinal.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O MUNDO ACABA AGORA E EU ESTAREI DANÇANDO


"O mundo acaba agora e eu estarei dançando"
Pitty



As vezes perco as contas de quantas vezes fui ao Rock In Rio, e por mais estranho que isto possa parecer, as vezes tenho essa mesma sensação em relação ao final do mundo.

Participei, por exemplo, do notório final do mundo no ano 2000. Esse era para ser grandioso, mas ficou enfraquecido depois de alguém fazer a regressão e ver como funcionava a contagem dos anos descobrindo que faltava um século entre o 1a.C. e o 1 d.C. (o que seria o Século Zero). A tensão só aumentou com o novo cálculo porque tivemos um novo fim do mundo em 2001. Mas o mundo não acabou, nem num, nem noutro. Por outro lado o mundo como conhecíamos mudou completamente, já que o Bug do Milênio fez com que os EUA investisse pesado na computação na Ásia, o que desenvolveu as telecomunicações e a informática naquela região, historicamente preparada intelectualmente para desafios matemáticos, mudando a forma de fazer negócios no mundo. Foi este movimento que colocou em prática o modelo de Mundo Plano, a tal globalização de que falamos até hoje.

Também participei de outros finais de mundo menos nobres, mas também divertidos como o 9/9/99 o 8/8/88 e assim por diante, sendo que deixamos passar desapercebida a belíssima possibilidade de fim de mundo no 12/12/12 as 12 hora e 12 minutos, 12 segundos e 12 centésimos, uma sequencia numérica que, se não me falhar a matemática - pois não sou asiático -, só voltará a ocorrer em 01/01/2101.

Agora que comecei a rememorar, lembrei do admirável fim do mundo da passagem do cometa Halley pela Terra (1985-86). Esse sim, cercado de duvidas, lendas e desinformação em um mundo menos conectado e com algum domínio do espaço. Esse fim do mundo em particular foi especialmente acompanhado por muitos trechos das profecias de Nostradamus que, como todas as profecias de Nostradamus, sempre me pareceram que tanto poderiam ser aplicadas ao final dos tempos quanto à lista de compras de supermercado de dona Dirce, ou sobre o diagnóstico da doença do cavalo do seu Pedro, ou uma letra de musica de Zé Ramalho, um poema de Poe escrito em sânscrito.

O que temos de fato é que nem mesmo o calendário que utilizamos para marcar os finais de mundo é real. O tempo, como todos conhecemos, é uma divisão mais ou menos precisa de ciclos naturais como achava Newton, e pode ser nem isso se considerarmos as formulações de Einstein. Nosso calendário é furado, não sabemos se temos 4 ou 4,5 bilhões de anos, e convenhamos que 500 milhões de anos de diferença não é pouca coisa. Os romanos alteraram o calendário duas vezes incluindo meses e reorganizando um ano completo, e nem mesmo o Ano Novo ocorre exatamente na hora estipulada nos anos que não sejam bissextos porque não consideramos o tempo correto de rotação do planeta (para você que não faz ideia, são 365 dias e 6 horas). Com tantas duvidas, fico ansioso pelo próximo fim do mundo, ainda não sei onde ou com quem vou estar, mas uma coisa é certa, quando o mundo acabar eu estarei dançando.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Frustação e o muro da realidade

“Os acessos de fúria são causados por uma convicção quase cômica de que determinada frustração não consta no contrato da vida. Gritamos quando não conseguimos algo que desejávamos porque em nosso mundo perfeito e particular algo indesejado por nós simplesmente não pode ocorrer."











A frustração é um choque entre nossos desejos e a realidade imutável. É como um muro rígido que aparece em nosso caminho e que julgamos, sob a ótica do momento, intransponível. Essa reação cômica (se analisada friamente) começa na infância, quando percebemos que as fontes de nossa satisfação estão além do nosso controle, e que o mundo não se ajusta aos nossos desejos de forma confiável. São inúmeros momentos na infância em que somos confrontados com nossa impotência diante dos fatos, e como estamos ainda nos adaptando ao modo de viver de todo o resto da humanidade, fica difícil entender onde está a lógica, ou onde foi que o mundo nos traiu.

De acordo com o filósofo Sêneca, a sabedoria plena é atingida quando “aprendemos a não agravar a inflexibilidade do mundo com nossas reações, nossos ataques de raiva, autopiedade, ansiedade, amargura, hipocrisia e paranóia”. Não parece fácil. Nossos instintos foram desenhados para agredir ao ser agredido, e uma ação contrária aos nossos desejos desencadeia um torrente de frustração, transformada nos ataques de raiva, autopiedade, ansiedade, amargura, hipocrisia e paranóia de Sêneca.

A função do autoconhecimento é nos preparar para que nossos desejos batam com a maior suavidade possível contra o muro inflexível da realidade, ou que ao chocarem-se contra este muro, saibam contorná-lo até o resultado esperado, sem traumas. Isso requer treino, mas acima de tudo vontade. A mudança ocorre primeiro e unicamente em nós, depois o mundo real vai lentamente e cada vez com maior freqüência, se adaptar (ou ser adaptado) aos nossos desígnios.

Quando não conseguimos encontrar alguma coisa, batemos portas, destruímos plantas, jogamos objetos na parede e esbravejamos. Mas o muro da realidade continua ali. Com um pouco de calma e algumas vezes uma boa dose de paciência e autoeducação constante, somos capazes de encontrar nossas chaves, desamarrar um nó, afrouxar um parafuso, abrir uma porta, estacionar um carro, conquistar um coração.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Seleção natural e a vaga de estacionamento

A seleção natural acabou. Com o advento da medicina, o processo de seleção natural da espécie humana teve um abrupto final. Não escolhemos mais nossos parceiros entre os sobreviventes, os mais fortes, mas entre todo e qualquer um da raça humana. Não só os fortes sobrevivem, mas todos. Durante milhares de anos, nossas escolhas foram condicionadas ao universo restrito dos vencedores na luta cotidiana da sobrevivência. Dotados de observação acima do normal para qualquer espécie, desenvolvemos um cérebro capaz de criar cognições em diferentes cenários. talvez este seja um dos principais problemas que nos afetam como espécie: por uma questão de sobrevivência, nosso cérebro se desenvolveu em um período onde era necessário resposta imediata contra qualquer ameaça. Mas o mundo mudou.

Hoje temos tempo para pensar e dar respostas adequadas e adaptadas em um novo contexto muito menos agressivo. Ninguém morre devido a uma reação errônea, exceto em uma circunstancia anormal de violência, que, convenhamos, não deve s usada como parâmetro de comportamento em nenhuma avaliação racional. Num mundo hostil e agressivo, uma descarga de adrenalina quando confrontados com um risco iminente não era só necessária, mas vital. A agressividade oriunda dessa resposta química de um cérebro adolescente representou para nossos ancestrais a possibilidade de manter sobre a Terra seus descendentes. Mas hoje em dia, quando somos confrontados em uma reunião de trabalho ou no transito, nosso cérebro primitivo ainda entrega as mesmas respostas químicas que entregava ha milhares de anos atrás. Nosso coração dispara, o campo visual diminui, aumenta a oxigenação, e uma reação agressiva aflora, num contexto totalmente diferente das savanas africanas onde viveram os humanos primordiais.

É obvio que ninguém precisa de uma descarga de adrenalina porque seu colega de trabalho apontou alguns problemas no projeto que você está apresentando. Mas ela vem mesmo assim. Apesar de nossa evolução em termos de relações sociais e relações com a natureza, ainda temos a química do desespero e da insegurança a pulsar em nossas veias. A má noticia é que, com a estagnação da seleção natural, nosso cérebro deve permanecer irracional. Sei que você esta pensando que isso não é verdade, mas já reparou no desespero que toma conta das ruas quando uma tempestade de verão se aproxima? Todos sabemos que trata-se de um evento natural de condensação de água em estado gasoso, que tornara a ser liquida e, pelo peso, vai cair. Água não tem cheiro, não mancha, não tem gosto (acho que aprendi isso na escola), mas mesmo assim nosso cérebro primata nos coloca em desespero. Você já deve ter passado pela experiência de fazer compras em um supermercado quando estava com fome. Nesse momento somos totalmente animais, deixamos a racionalidade de lado e colocamos no carrinho tudo que seja possível, mesmo com uma pequena aura racional insistindo que isso esta acontecendo por causa da fome momentânea. Não adianta, seu cérebro de pós macaco quer comer, é a hora de caçar, quanto mais, melhor. Sem falar no mau humor que nos acomete quando estamos com fome, e, acredite, sou especialista nisso. A mensagem que seu cérebro envia ao corpo subnutrido é "vai lá, derruba, mata e come...ataca!". Em nosso período de formação como espécie, durante o processo evolutivo interrompido, era impossível ser racional e ter fome ao mesmo tempo. Maslow provou que a segurança vem após a sobrevivência em sua famosa pirâmide. Coisas de seu cérebro de macaco.

Se em um futuro completamente distante seremos capazes de domar as descargas de adrenalina e as reações infantis de nosso cérebro estagnado, isso será a melhor possibilidade de sobrevivência da raça humana. No entanto, a perder nossa agressividade e competitividade naturais do cérebro primata, provavelmente perderemos as demais alegrias que esse defeito natural nos causa. A sensação da vitória, a conquista, o prazer. É possível que um processo de seleção baseado em condições econômicas e não mais em condições naturais esteja em andamento, mas como todo ser participante de um processo histórico, temos muita dificuldade em enxergar isto. Talvez em um futuro qualquer, daqui a milhões de anos, nosso cérebro tenha finalmente encontrado o caminho da tolerância, do amor fraternal, do entendimento racional, do debate socrático. Ate lá, quando alguém roubar sua vaga no estacionamento do supermercado, desça da sua arvore e quebre a cara dele. Afinal, seu cérebro gosta das coisas como se fazia antigamente.