A MENINA E O DJINN é meu romance de estreia. O livro conta a história de Beca, uma menina comum, mas que tem um Djinn todo seu, uma criatura mágica capaz de realizar qualquer desejo. A trama acompanha todo o crescimento de Beca desde antes de seu nascimento até a idade adulta. A menina recorre ao seu Djinn para as mais variadas tarefas, desde fazer o dever de casa de química até materializar uma boneca gigante ou decorar a casa para uma festa do pijama. Por sua vez, ele tenta ensinar para sua doce menina esperta como o mundo funciona, com muita paciência, uma sabedoria milenar e alguma mágica. Aos poucos, o Djinn vai sentindo em seu coração um grande amor maternal, fraternal e paternal pela menina Beca, e cada vez mais, compreendendo os humanos e sentindo compaixão por essas estranhas e frágeis criaturas. Mas o destino está determinado a colocar um grande desafio nessa sólida amizade. Juntos, Beca e o Djinn terão que aprender que nem tudo na vida são flores, e para conseguir uma vida feliz e vencer os mais difíceis obstáculos, nada melhor do que ter seu melhor amigo ao seu lado. Não perca! Pedidos por mensagem na página Ideias Recicladas do Facebook.segunda-feira, 19 de novembro de 2018
A MENINA E O DJINN é meu romance de estreia. O livro conta a história de Beca, uma menina comum, mas que tem um Djinn todo seu, uma criatura mágica capaz de realizar qualquer desejo. A trama acompanha todo o crescimento de Beca desde antes de seu nascimento até a idade adulta. A menina recorre ao seu Djinn para as mais variadas tarefas, desde fazer o dever de casa de química até materializar uma boneca gigante ou decorar a casa para uma festa do pijama. Por sua vez, ele tenta ensinar para sua doce menina esperta como o mundo funciona, com muita paciência, uma sabedoria milenar e alguma mágica. Aos poucos, o Djinn vai sentindo em seu coração um grande amor maternal, fraternal e paternal pela menina Beca, e cada vez mais, compreendendo os humanos e sentindo compaixão por essas estranhas e frágeis criaturas. Mas o destino está determinado a colocar um grande desafio nessa sólida amizade. Juntos, Beca e o Djinn terão que aprender que nem tudo na vida são flores, e para conseguir uma vida feliz e vencer os mais difíceis obstáculos, nada melhor do que ter seu melhor amigo ao seu lado. Não perca! Pedidos por mensagem na página Ideias Recicladas do Facebook.quarta-feira, 15 de agosto de 2018
A FAZENDA
Era uma vez uma fazenda que ia muito
bem.
Um dia o dono da fazenda se ausentou,
e dois porcos iniciaram uma revolução.
Os porcos assumiram o comando da
fazenda e criaram novas leis:
1. Qualquer coisa que ande sobre duas
patas é inimigo;
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas é amigo;
3. Nenhum animal dormirá em cama;
4. Nenhum animal beberá álcool;
5. Nenhum animal matará outro animal;
6. Todos os animais são iguais.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas é amigo;
3. Nenhum animal dormirá em cama;
4. Nenhum animal beberá álcool;
5. Nenhum animal matará outro animal;
6. Todos os animais são iguais.
Mas um dos porcos queria seguir os
sonhos de liberdade, igualdade e justiça pelo qual fizeram a revolução, e foi
traído pelo outro porco.
Todos os animais se revoltaram contra
o porco que foi traído, mas não contra o traidor.
O porco traído foi expulso, e o porco
traidor continuou inventando mentiras e calúnias sobre o porco traído e mentindo sobre seu projeto de igualdade e justiça.
O porco que restou assumiu o comando
da fazenda, juntou-se com outros porcos aproveitadores e cachorros violentos, e
logo começou a subjugar os demais animais para aumentar a produção e ter
privilégios junto aos humanos da região.
O porco se mudou para a casa da
fazenda, dormia em camas, bebia álcool e fazia negócios com os humanos de
duas patas.
Sorrateiramente, sem consultar os
outros animais, reformou as leis:1. Qualquer coisa que ande sobre duas patas é amigo;
2. Quatro patas é bom, duas patas melhor;
3. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis;
4. Nenhum animal beberá álcool em excesso;
5. Nenhum animal matará outro animal sem motivos;
6. Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.
Os donos de outras fazendas tomaram
o porco como exemplo, porque o porco administravam a fazenda com mais
rigor.
O porco alimentavam os animais com
parcas sobras, aumentava os turnos de trabalho e rotineiramente surrupiava sua dignidade alegando defeitos em suas raças, gêneros e cor.
Os animais não se lembravam se antes
do porco assumir a fazenda eles comiam mais ou menos, se eram mais dignos, se
trabalhavam menos ou mais, se a vida era melhor ou pior.
Mas apoiado por alto-falantes, o porco
repetiu seguidas vezes uma mentira que dizia aos animais que sob o domínio do
homem eles eram mais infelizes, viviam pior e comiam menos.
Exaustos, famintos e sem dignidade,
os animais se conformaram.
Um dia, quando o porco e alguns
humanos se reuniram na casa para fazer negócios, os animais olharam pela
janela e já não se distinguia mais quem era homem e quem era porco.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
TODA QUINTA-FEIRA
Celso acordou animado. Era
quinta-feira.
Toda
quinta-feira ele acordava assim. Era como se os demais dias da semana fossem um
simples pedágio que ele precisava pagar para poder desfrutar das quintas. Recém-desperto,
sentou-se na cama por uns instantes, e com olhos embaçados calçou os chinelos. Foi até a porta de entrada e recolheu o
jornal do dia sobre o capacho. Com setenta e dois anos era difícil se acostumar às novas
tecnologias, por isso preferia o jornal em modelo tradicional. Um jornal feito
de papel e tinta, sem curtidas e comentários de terceiros que ele nem conhecia,
com letras e fotos que não mudavam de lugar, um jornal tradicional era sempre sua
opção mais segura. Ele preferia tudo dessa forma.
Seguindo
o ritual de todo dia, voltou para a cozinha e preparou o café da manhã. Qualquer
vida é sempre um conjunto de ações mais ou menos previsíveis e sequenciais.
Ajustar o filtro de papel, colocar o pó, ferver a água, despejar a água sobre o
pó, aquecer as xícaras. Para Celso a vida era sempre previsível. Ele não
conseguiria viver uma vida de imprevistos, de improvisos. Preferia manter-se
assim, na rotina do dia a dia onde se sentia seguro e confortável. Era esse conforto que lhe trazia felicidade. Passadas as intemperanças da juventude, vivia
desse modo já há 72 anos, e não via motivo para mudar.
Depois
do café sentou-se à mesa na varanda envidraçada que mantinha as alterações do
clima no lado de fora e folheou o jornal. Foi direto até a página da agenda do
dia. Lá estava a chamada. O formato era diferente, mas em essência era quase a
mesma de 50 anos atrás anunciando o show musical naquela noite. Desde que o
Marquês do Pombal havia tornado o ensino da língua portuguesa obrigatório em
1759, muitas mudanças ocorreram na forma de escrever. Mudanças de qualquer tipo
não eram o forte de Celso. Para sua tristeza, os últimos 50 anos haviam sido
repletos de mudanças: ontem já não tinha h
quando ele nasceu, e hoje não havia mais dois e em têm, super-homem conservara seu hífen, a supermulher o
perdera. Ele, o piloto, a moça e o governo perderam o circunflexo, e a linguiça
perdeu a trema.
Sorriu
internamente. Celso não era dado a sorrisos. Ele leu certa vez que sorrir era
um erro do cérebro, e não havia qualquer teoria que explicasse aquela manifestação
involuntária. Nunca mais riu. Preferia conter-se, a contenção trazia o padrão,
e o padrão era seu mantra de vida. Mas aquele pequeno texto de quatro linhas em
Times New Roman grafado no jornal o fazia sorrir por dentro. Era hoje,
quinta-feira, mais uma delas, um dia abençoado, e se Celso acreditasse em
alguma divindade (ele não podia acreditar porque divindades costumavam
improvisar demais na elaboração dos resultados), certamente a quinta-feira
seria seu dia santo.
Passou
a manhã e a tarde envolvido em seus rituais. Foi ao barbeiro logo no início da
manhã, não antes de tomar um banho de exatos oito minutos, tempo suficiente
para lavar todas as partes de seu corpo numa dinâmica bem ordenada e
estabelecida, uma espécie de balé russo de movimentos coordenados. E depois
mais quatro minutos para secar-se. Sempre iniciando pela cabeça e descendo até
os pés, pois obviamente a gravidade havia de auxiliá-lo fazendo a água escorrer
também de cima para baixo.
Vestiu
uma roupa sóbria como lhe parecia adequado para ir ao barbeiro. Hoje em dia muitos homens iam ao salão de bermudas ou chinelos, como se fazer a barba ou
cortar o cabelo fosse o mesmo que tomar sol em Copacabana ou surfar no
Arpoador. Achava aquilo um desrespeito ao profissional, por isso sempre se
vestia com esmero para uma sessão de barba e bigode. Ao chegar ao salão ninguém
estranhou. Em circunstâncias normais nenhum barbeiro entenderia porque
aquele senhor de cabelos brancos meticulosamente cortados e penteados estaria
ali. Mas era quinta, e seria estranho para o barbeiro que o atendia há 40 anos
se Celso não aparecesse exatamente às dez horas e quarenta minutos da quinta.
Ao
sair parou na padaria e tomou um café expresso acompanhado por um pão de
queijo. A padaria havia passado por diversas reformas, tinha novos balcões que
chegaram com os novos donos há uns dez anos atrás, um novo letreiro de letras
douradas, mas o que importava neste caso era o referencial geográfico, não os
detalhes. Celso sentava sempre na mesma mesa voltado para a avenida e nem sequer via
os carros passarem. Seu olhar buscava lembranças da juventude distante, e
assim, entre o aroma do café e o sabor do pão de queijo, ia puxando da memória até se lembrar da primeira vez em que a vira.
Tinha
vinte anos quando os amigos o convidaram para ir até um bar onde havia música
ao vivo e diziam se apresentar uma excelente cantora. Nesta época Celso ainda
não havia descoberto que o improviso era perigoso, e aceitou. Era um bar
pequeno, pouca luz. Casais distribuídos pelas mesas com quatro lugares e
cadeiras de madeira, um pequeno palco onde somente três músicos muito pequenos caberiam
e ainda conseguiriam tocar. Garçons circulavam tranquilamente, e uma atmosfera
agradável tomava o lugar encoberto por uma leve névoa esfumaçada no tempo em
que se podia fumar nos bares. Pediram cervejas e conversaram sobre os
assuntos do dia. A música também iniciou, primeiro os músicos ensaiaram alguns
solos e então ela entrou.
A
primeira vez que Celso a viu achou que não suportaria o turbilhão que sentiu em
seu peito. Foi como se tudo o que ele ouvira falar sobre o amor houvesse se materializado de um instante
para o outro. O amor não era cruel, não era efêmero,
não era sofrido. O amor era doce, esperançoso e inebriante. O amor era aquela
mulher.
Ela
usava um longo vestido bordô colado ao corpo com um decote que permitia ver os
seios na medida perfeita, deixando que a imaginação completasse o desenho, e a
imaginação de Celso completou-o com exatidão. A cintura afunilada e os quadris
proporcionais, sandálias tão altas em saltos tão finos que ela mais parecia
flutuar do que andar. Levantou-se de uma mesa que ficava ao fundo do bar e
desfilou pelo salão até o pequeno palco. Os músicos pareceram diminuir quando
sua grandeza se fez presente diante do microfone. Palmas e assovios foram
ouvidos, mas Celso não conseguiu mover sequer um músculo, que dirá assoviar ou
bater uma palma.
E
ela cantou.
Celso
entendeu o dilema de Ulisses amarrado ao mastro ouvindo o canto das sereias,
ainda que inebriado, sentiu-se insatisfeito. Queria mais, queria estar perto
dela, e tal qual Ulisses, tentou se soltar das amarras, mas não conseguiu. A voz
era linda, rouca, melodiosa e afinada. Movia-se com sutileza e sensualidade no
minúsculo espaço do palco enquanto acompanhava os compassos com a simplicidade
de quem conversa, fazendo com que no salão do bar não se ouvisse nada que não
fosse o bater ritmado dos instrumentos e aquela voz de divindade preenchendo o
espaço vazio. Assim foi por uma hora inteira. Ao final Celso aplaudiu, saindo
do transe em que se colocara. Levantou-se juntamente com todos e efusivamente
manifestou seu apreço por aquela moça de vestido bordô colado ao corpo, com
cintura fina, de seios e quadris fartos, equilibrada sobre o maior salto que
ele já vira em uma sandália cheia de brilhos. Estava apaixonado.
Ao
final do show pediu ao garçom informações sobre a mulher. O garçom respondeu
com a displicência de quem já fora interrogado inúmeras vezes da mesma maneira,
mas garantiu que todas as quintas ela fazia shows naquele bar. Deste dia em
diante, por cinquenta anos, Celso jamais mudou sua rotina de quinta-feira.
Esta
era mais uma. Passou a tarde envolvido em atividades triviais, escrevendo uma
nota aqui outra ali, afinando alguma coisa, organizando suas pautas. Quando se
aproximou o horário do show, já à noite, preferiu ir de ônibus. Ela sempre ia
de carro, ele sabia, mas ele preferia tomar o ônibus. Vestiu seu terno cinza
escuro, a camisa branca de um branco inimaginável, abotoou o colarinho e optou
por uma gravata azul escura. Tentou o nó duas vezes, mas insistiu em fazer
sozinho, até que na terceira ficou perfeito. Conferiu os trocados na carteira e
saiu.
O
ônibus passava sempre no mesmo horário às quintas-feiras. Às vezes havia um
atraso de alguns minutos, e uma única vez por mais de meia hora, o que obrigou
Celso a ir de táxi. Mas fora uma única vez. Antigamente o motorista era sempre
o mesmo e conhecia Celso, tanto que certo dia chegou até a esperá-lo parado no
ponto, pois Celso sofrera um acidente e estava com uma perna engessada, demorou
mais do que o normal manquitolando agarrado às muletas. Mas ultimamente os
motoristas trocavam como notas numa música, e Celso nunca sabia quem seria seu
condutor na próxima quinta.
Sentou-se
no lugar mais próximo possível da saída, como era sua regra, e desceu no ponto
onde precisaria caminhar apenas cento e cinquenta metros até o bar. Ao passar
pela rua viu o carro dela estacionado no pátio e permitiu-se um sorriso
interior, um sorriso carregado de lembranças.
Dentro
do bar as coisas haviam mudado. Depois de tantos anos ela havia se
apresentado em muitos locais diferentes, e agora nos últimos cinco ou seis anos
cantava naquele estabelecimento todas as quintas. Era um público mais ou menos
cativo. Pessoas que conheciam sua performance e a seguiam onde fosse, ou
pessoas indicadas por outras pessoas que um dia a ouviram cantar. Mas parte do
público também era de amigos, colegas e conhecidos, e sempre havia Celso. Ele entrava sem falar com ninguém e sentava em sua mesa previamente
reservada com uma vista direta do palco, mas nunca na frente. O
garçom nem precisava perguntar para saber o que ele pediria para beber, um
uísque duplo em copo alto com gelo à parte. Algumas pessoas acenavam levemente
para ele, que respondia silencioso e em movimentos quase imperceptíveis da
cabeça.
E em
determinado momento as luzes diminuíram e Mariana levantou de sua mesa ao fundo, como
sempre fizera, e caminhou até o palco sob aplausos, gritos e assovios. Celso
constatou que ela havia mudado. Não tinha mais a cintura mínima, e os seios
perderam o vigor daquela primeira vez em que ele a viu. Continuava linda. O
vestido era azul escuro, como a gravata de Celso, e os saltos eram mais baixos,
mas ainda altos. Ela não perdera a grandeza, a beleza nem a elegância. O tempo
cobrara de Mariana o preço da existência, e ela pagava com altivez. Deslizou
até o palco. Celso sentiu o coração disparar. Sempre era como se fosse a
primeira vez. Seus olhos quase se encheram d´água quando trocaram um breve
olhar, ela já sobre o palco. Cinquenta anos. Todas as quintas-feiras e ele
sempre esteve lá, onde quer que ela estivesse.
Em
todos esses anos sempre pensou em subir ao palco e beijá-la. Arrebatá-la em
seus braços e mostrar a todos que eles haviam sido feitos um para o outro, que ela
lhe pertencia. Muitas vezes quis dar-lhe um enorme buquê de flores após uma
apresentação, sair de mãos dadas pela porta do bar, beijar sua boca como se
fosse o primeiro beijo. Abrir publicamente um champanhe e fazer amor no
camarim. Mas não hoje. Tudo não passava de desejos.
Celso
sabia que passaria a próxima hora embevecido pela beleza cativante daquela
mulher de voz rouca e harmoniosa. Sabia que não teria coragem de expor seus
sentimentos eternos diante de tanta gente. Sabia que não queria seu imenso amor
publicamente declarado. Contentava-se em estar ali, e em saber que ela estava
destinada a ser dele. E ao final do show, sairiam por portas diferentes, sem
mãos dadas, sem beijos efervescentes, sem rosas champanhe ou sexo no camarim.
Quando
o show terminou ela agradeceu e se recolheu por uma porta por detrás do pequeno
palco. Celso não saiu imediatamente. Olhou para o relógio. Sairia somente doze
minutos depois que ela desaparecesse pela porta do camarim. Ele sabia que este
era o tempo necessário para que ela trocasse os sapatos, colocasse o casaco,
bebesse um copo d´água e saísse para pegar o carro no estacionamento onde
acenderia um cigarro e fumaria com tragadas longas aproveitando o frescor da
noite. Fora assim que ela fizera na noite em que ele a viu pela primeira vez.
Doze
minutos depois de ela desaparecer do palco ele saiu, e como era de se esperar,
lá estava ela fumando encostada no carro. Sobre o vestido azul escuro trajava
um leve casaco de frio, trocara as sandálias de salto por sapatilhas
confortáveis. Celso caminhou hesitante em sua direção, e quando estava a apenas
alguns metros ela sorriu:
“E
então?”, ela perguntou. “Perfeita, como sempre”, ele respondeu também com um
largo sorriso. Beijou-a na boca de uma maneira trivial, mas lenta e apaixonada,
ela lhe entregou as chaves do carro, tomaram assento ela no acompanhante e ele
na direção. “Vamos comer alguma coisa?” Celso perguntou enquanto manobrava para
sair do pátio. “Não, deixei um sopa pronta antes de sairmos”, ela respondeu.
No
dia em que Celso viu Mariana pela primeira vez saiu doze minutos depois dela
desaparecer no camarim e a encontrou do lado de fora do bar fumando.
Conversaram por alguns minutos e saíram para jantar. Em três meses estavam
morando juntos. Em dois anos se casaram. No quarto ano nasceu Camila, e no
Sexto, Daniel. Ela seguira a carreira de produtora musical, nunca abrindo mão
de cantar pelo menos uma vez por semana no bar da família, antes de seu pai e hoje
comandado pelo caçula Mariano, que nasceu no sétimo ano de casamento. Celso seguira
sua vocação de maestro e regia a filarmônica local. Era ele quem fazia os
arranjos para Mariana cantar toda semana. Depois de cinquenta e dois anos de
dedicação, respeito e amor, não era possível saber quem amava mais ao outro, se
Celso ou Mariana. Certo era para eles que tudo começara numa quinta-feira num
bar onde Celso fora levado pelo improviso de alguns amigos, e certo era também que
para todo o sempre toda quinta-feira seria um dia especial dedicado ao amor.
Em
se tratando de amar, Celso era totalmente avesso às mudanças.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
Aviso: Este texto é um conto de aproximadamente 10 páginas, mas vai por mim, vale a pena ler...
A GREVE DOS GARÇONS
Os eventos
que você vai conhecer agora ocorreram em 2018.
Eram dezenove e vinte
e seis quando Aílson entrou no bar. Seus amigos já estavam lá desde as dezoito,
então ele estava atrasado mais ou menos três rodadas de chope. Mesmo sendo uma
terça-feira, ele e os colegas de trabalho achavam que o dia havia sido muito
intenso, e que mereciam uma bebida antes de voltar para casa. Aílson levantou o braço e com o indicador e o
polegar em forma de pinça, levemente afastados, fez sinal para o Pereira, o
antigo garçom de nariz proeminente, referenciando um código conhecido entre
garçons e clientes que significava dois dedos de colarinho!
Instantes depois,
Pereira veio deslizando entre as mesas, equilibrando a bandeja carregada com
seis copos de chope de colarinhos perfeitos. Fez um gingado com a cintura para
desviar de uma bolsa dependurada na cadeira, com um giro rápido dos quadris
posicionou-se paralelamente à mesa e ao lado esquerdo do cliente. Sacou da
bandeja um copo com a mão direita e pousou-o com maestria sobre a bolacha na
frente de Aílson. Com a mesma destreza retirou uma comanda do bolso, e como um
antigo escriba egípcio, marcou um sinal sobre a comanda que indicava que aquele
sujeito, a partir de agora devia onze reais ao bar. Da mesma maneira graciosa e
acrobática que apareceu, girou sobre os calcanhares e deslizou para as próximas
mesas, sempre com um sorriso no rosto.
Aílson se entreteve
com a conversa dos amigos e tomou seu chope tranquilamente, acelerando um pouco
o passo do meio para o final do copo para tentar alcançar a rapaziada. E quando
terminou o último gole, imediatamente ao largar a tulipa sobre a mesa levantou
o braço, fazendo um breve movimento com a cabeça em busca do Pereira. Mas ele
não estava lá. Do outro lado do bar uma loira também procurava um garçom. E por
alguns instantes Aílson continuou procurando qualquer outro garçom, fosse o
Amaral, o Carlinhos ou mesmo o Miguel, este muito lento e sem aptidões para a
profissão. Mas não havia nenhum deles por ali. Uma suposição percorreu sua
mente, dessas que passam pela cabeça da gente em bares, imaginou que talvez
eles estivessem lá na cozinha em um briefing preparando-se para o movimento da
noite, e lembrando-se ele mesmo do briefing da tarde de hoje na sua seção do
trabalho teve ainda mais vontade de beber.
Impaciente, Aílson
levantou-se. Girou ao redor do próprio corpo, os amigos perguntaram o que era,
imaginando que a gostosa de vermelho tinha passado outra vez para ir ao
banheiro. Mas não era isso. Então ele voltou a sentar e reclamou que não havia
porcaria de garçom nenhum no bar. Ninguém deu muita importância para a
declaração, até que o Costa resolveu tomar mais um.
Foi a vez de o Costa
levantar o braço e girar a cabeça pelo salão percebendo o que Aílson percebera
há alguns instantes atrás, que não havia porcaria de garçom nenhum. Ele queixou-se. Alberto
também reclamou. Aílson se sentiu fortalecido e decidiu representar o grupo indo
até o balcão para reclamar. No caminho entre as mesas percebeu muitas mãos
levantadas, alguns acenos para ele, que vestido com uma camisa branca e calças
pretas ficara parecido com o Pereira.
Ao chegar ao balcão do
bar perguntou para o barman onde estavam os garçons. O barman estava ocupado
lavando copos e conversando no whatsapp e respondeu que era sempre assim,
quando a gente mais precisava deles, eles desapareciam. Aílson não se
incomodou. Pediu quatro chopes e entregou a comanda ao barman que o serviu e
marcou ele mesmo os quatro pauzinhos no papel. Somados ao primeiro, significava
que agora o cliente devia cinquenta e cinco reais ao bar.
Aílson retornou à mesa
e distribuiu os chopes. Já que não havia garçom, revezaram-se algumas vezes até
o balcão, e ao final da noite pagaram as comandas diretamente no caixa, sem
qualquer cerimônia. Ele voltou para casa de Uber, ainda pensativo no que havia
acontecido no bar naquela noite e o que havia acontecido com os garçons. Como
qualquer bêbado, teve muitas ideias incríveis e fez uma ótima teoria da
conspiração, pena estar sozinho, pois estava na medida certa da bebedeira para
fazer uma daquelas combinações de viagem que jamais vão acontecer, como
conhecer o Himalaia, ir à próxima Copa do Mundo, ou mergulhar numa ilha
incrível que alguém postou no Pinterest.
No dia seguinte o
mundo seguiu seu curso. Já eram onze e quinze da manhã e ninguém na repartição
tinha tomado um café. Qualquer um que trabalha no governo ou num banco sabe que
o gerente geral, o coordenador, os assessores e os analistas podem morrer, mas
se o tio do café não aparece, o caos está formado. O Secretário de Administração
mandou chamar a coordenadora geral de serviços para perguntar onde diabos
estavam os garçons que ele ainda não havia tomado nenhum café naquele dia. Ela
também não sabia. Mandou um subordinado até a copa, onde as copeiras,
vigilantes e o pessoal da limpeza reuniam-se ao redor de uma tela de televisão.
O subordinado perguntou o que estava acontecendo, e os terceirizados informaram
que não se falava em outra coisa na TV que não fosse a greve dos garçons. Um
frio percorreu a espinha do subordinado. Ele sabia que o mensageiro sempre
morria quando levava más notícias.
E foi assim que
começou. Todos foram apanhados de surpresa com a greve dos garçons, inclusive o
governo. Naquele mesmo dia a imprensa começou a falar na greve e em suas
consequências, no desabastecimento, no aumento da gorjeta, nos garçons piratas,
na falta de chope e na queda da produção de aves para o frango a
passarinho. Na falta de informações, ouviu especialistas que preenchiam as
lacunas falando qualquer bobagem, julgar o que ouve nos telejornais não era
exatamente o forte da população.
No terceiro dia da
greve os supermercados começaram a perceber um movimento atípico. Uma grande
afluência de consumidores da classe média começou uma migração às compras.
Carrinhos lotados e grandes filas nos caixas.
Os primeiros produtos que despareceram das prateleiras foram água
engarrafada sem gás, papel higiênico, sabão para máquina lava-louça e salmão
congelado. A mídia adorou a novidade. Preencheu suas colunas com fotos de
prateleiras vazias sob títulos catastróficos como “Greve dos garçons pode vir a
causar desabastecimento”, ou “Queda no PIB pode se dever à greve dos garçons” e
“Fritas podem estar com os dias contados”. Tudo no tempo verbal que na língua
portuguesa chamamos de Futuro do Presente Composto, ou de uma maneira mais
coloquial, palpitando sobre o que pode acontecer sem ideia nenhuma do que realmente
pode acontecer. Mas o importante era gerar notícia. Isso aumentou o medo da
população com a possível falta de alimentos e incrementou a venda nos
supermercados. Em menos de uma semana de greve o preço de uma bandeja de inox
já havia subido setecentos por cento. No Mercado Livre, uma gravata borboleta
antes anunciada por três e quarenta e nove agora já valia duzentos e cinquenta reais.
Os analistas nos canais de notícias e na internet continuaram incentivando o
caos, mas ninguém parou para analisar qual seria a provável relação entre
garçons e falta de alimentos nos supermercados.
Alguns bares e
restaurantes permaneceram atendendo, mesmo diante da enorme crise que tomava
conta do país. No início, as filas para almoçar começavam por volta das seis da
manhã. As pessoas deixaram de ir trabalhar para esperar a hora do almoço nas
filas. Algumas pediram férias para poder ficar na fila e cumprir seu horário. Mães levavam crianças de colo e
exigiam o direito preferencial, e desvendou-se um curioso mercado de uso de
idosos como marcadores de local na fila. Ainda que muitos insistissem, alguns
dos estabelecimentos fixavam cartazes dizendo que somente serviam marmitas para
levar se a marmita tivesse o selo do Inmetro.
Isso ocasionou um
enorme problema para o Inmetro, pois não havia uma norma para marmitas. Uma
emenda parlamentar foi votada às pressas no Congresso e instituída uma comissão
para executar a norma em tempo recorde. Cada partido indicou dois
parlamentares, e o orçamento da União foi alterado para comportar este novo
custo. À noite, um dos idealizadores da comissão apareceu num jornal nacional de
grande abrangência territorial exibindo um sorriso triunfante no rosto
afirmando que a ideia era sua. A norma ficou pronta em menos de setenta e duas
horas, e custou cerca de nove milhões aos cofres públicos, mas isso não era
relevante, segundo informava o governo em seu bom e velho gerúndio, o
importante era que a questão das marmitas estaria sendo resolvida.
Ninguém teve paciência
de ler as duzentas e trinta e três páginas da Norma das Marmitas, na verdade,
ninguém conseguiu passar das vinte e cinco primeiras páginas onde somente eram
“definidos os conceitos utilizados nesta Norma”.
Não estando a questão
das marmitas bem resolvida, a população apelou para a criatividade, e
criatividade neste país significava pirataria. Em alguns dias as marmitas
alternativas já circulavam ostentando um selo do Inmetro em holograma, mas que
na verdade eram fabricadas no acesso três do Morro do Alemão no Rio de Janeiro.
A Polícia Federal iniciou uma investigação para apurar os envolvidos, mas nunca
conseguiu vencer uma hipótese de que teria sido um ex-presidente comunista quem
havia desenhado o selo para as marmitas. A tese foi criada por uma revista de
grande circulação nacional sem prova nenhuma, e suportada por procuradores e um
juiz federal do sul do Brasil, mas depois de algum tempo, quando foi provado e
comprovado que nada disso era verdade, ninguém mais lembrava como o assunto
começou e a revista se calou.
Quando a crise parecia
não ter fim, os comissários e comissárias de bordo, avaliando a similaridade
entre o seu trabalho e o de garçons, optaram por declarar apoio irrestrito à
greve e decretar também eles sua greve por tempo indeterminado. Assim, ao final
da primeira quinzena a sociedade já enfrentava um de seus maiores desafios
desde a superação da goleada de sete a um sofrida da Alemanha.
Com os aeroportos
fechados o governo entrou em colapso. Como era junho, os parlamentares não
poderiam ir até suas bases participar das festas juninas e nem seus netos
podiam ir para a Disney. Sessões de emergência foram convocadas, e uma dispensa
de licitação foi aprovada por quase unanimidade do parlamento autorizando a
contratação de jatinhos particulares diante da iminente crise institucional do
país justamente em pleno mês de junho e véspera da Copa do Mundo. Falta de
comida nos supermercados, ninguém tomando caipirinha numa mesa de bar, zero
pastéis de carne e queijo, nenhum kibe, tudo isso era suportável, mas deixar de
participar das festas juninas era muito sacrifício para os nobres
representantes do povo.
Na terceira semana
diminuiu a oferta de estabelecimentos que podiam atender sem garçons. Mesmo as
lanchonetes tipo pé-sujo, que nunca tiveram garçons, agora aumentavam o preço do ovo em conserva em trezentos por cento por culpa da crise. Naqueles locais
que ainda atendiam, formavam-se filas quilométricas que duravam dias e dias.
Mas com o aumento da tensão e o insuflamento do pânico pela mídia especializada
(sim, agora havia uma mídia especializada em greves de garçons) os ânimos foram
se acirrando, e a Força Nacional teve de ser convocada para conter a onda de
violência que se alastrava nos bufês de quilo. Pessoas agredidas com vinagrete
nos olhos, colher de pau na orelha e queimaduras de costeletas ao molho
barbecue chegavam constantemente aos hospitais da rede pública. Muitos
estabelecimentos fixaram cartazes onde se lia “O estabelecimento reserva-se o direito de cobrar a comida desperdiçada em brigas
pessoais”.
Para ajudar a conter a
onda de violência uma nova norma foi baixada pela vigilância sanitária
proibindo nos bufês cenouras inteiras, comida quente e o uso de facas em bares
e restaurantes. A população, em especial a classe média, correu para os
supermercados e atacadões para comprar as últimas facas antes da proibição, e
mesmo que a proibição fosse somente em bares e restaurantes, uma colher que
antes custava dois reais passou a ser vendida no mercado informal por até
duzentos reais.
Nas ruas a violência
aumentava. Muitas lojas começaram a ser saqueadas e o exército foi convocado a
patrulhar as ruas centrais de algumas capitais. Os analistas de internet e os
especialistas de coisa nenhuma das redes sociais se calaram diante do fato,
porque ninguém, nem mesmo o escritor mais criativo, era capaz de conseguir
inventar qualquer ligação entre um chope que demora para ser servido e o roubo
de uma smartv de 65 polegadas na véspera da Copa do Mundo.
Quem não se deu por
vencida foi a classe média. Afinal, ela havia se acostumado com seus privilégios
e não queria abrir mão disso de jeito nenhum. Não seria meia dúzia de garçons que
só tinham ensino médio que iriam acabar com todas as conquistas que ela tivera
com o próprio esforço, sem ajuda de ninguém e sem depender de esmola nenhuma do
governo. Garçons piratas começaram a inflacionar o mercado de festinhas de aniversário de
crianças e jantares do Rotary. Um garçom mediano podia ser contratado a mil
reais por quatro horas. Enquanto um garçom com luvas brancas e vestimenta
completa valia cerca de três mil, o mesmo
garçom se tivesse cabelo grisalho podia cobrar até cinco mil. Em pouco
tempo sites especializados em eventos publicavam dicas de como contratar o
melhor garçom no mercado alternativo, ou como saber se sua festa bombou
considerando o desempenho dos garçons. No Facebook, socialites se exibiam em
selfies abraçadas em garçons, as vezes mais de um, quanto mais garçons na foto,
maior a popularidade. Na análise política sempre qualificada da classe média
ascendente, todo o problema estava nesse mimimi de direitos trabalhistas, nessa
bolsa esmola que fazia as pessoas pobres deixarem de trabalhar e naquele
ex-presidente comunista que, graças a Deus, e em nome da família, estava preso.
Melhor mesmo só se os militares interviessem para acabar de uma vez por todas
com esta pouca vergonha. Bom mesmo foi sessenta e oito.
Na mídia a discussão
se ampliava. Agora outros especialistas em coisa nenhuma começavam a debater a
formação do preço da gorjeta. As correntes principais consideravam se o governo
devia intervir ou não no preço da gorjeta, e se valia a pena privatizar os
bares e restaurantes. E quando alguém parou para pensar e argumentou que bares
e restaurantes já eram privatizados, levou uma grande vaia cibernética seguida
de uma série de comentários que sugeriam sua ida para Cuba.
O debate ressoou nas
redes sociais, e em algum momento houve uma forte polarização entre quem era a
favor da gorjeta e quem era contra. Os grupos tornaram-se antagônicos, e
grandes bolhas de ideias se formaram. Os diferentes não conviviam mais uns com os
outros tornando impossível o diálogo, e a sensação de qualquer um dos lados era
de que o outro lado não existia ou representava uma minoria mentalmente
incapaz. As fazendas de postagens eletrônicas da Rússia e Coreia viram o Brasil
como um grande cliente e os trolls se multiplicaram. Pequenos movimentos
reacionários aproveitaram o cenário de confusão e ignorância coletiva para se
autopromoverem. O Movimento Garçons Livres – MGL, surgiu do nada trazendo um
menino mal desmamado como representante oficial do povo, autodesignado por ele
mesmo (sic). Organizaram-se passeatas contra o governo e um balão gigante de
borracha imitando um chope foi inflado em plena Avenida Paulista em São Paulo.
E então o governo
decidiu que bastava! Preparou uma grande negociação e fez uma oferta
irresistível aos garçons. Os garçons aceitaram a proposta e a mídia comemorou.
Fim da greve! Só que não. No seu afã de resolver o problema o governo conversou
com pessoas que não representavam os garçons em greve. Uma nova crise
institucional se instalou. As filas em restaurantes eram cada vez maiores. Alguns
prefeitos decretaram estado de calamidade pública, um instrumento
constitucional que permite não pagar o salário a professores, médicos e ao
pessoal da saúde, além de considerar justo o calote das prefeituras nas dívidas
federais.
Com o fracasso das negociações
do governo os pré-candidatos à presidência começaram a se manifestar em apoio à
greve. Um senador mimado filho de uma tradicional família brasileira também
pensou em se manifestar, mas suas ideias viraram pó. Surgiram grupos de whatsapp
em apoio e em repúdio à greve, e num domingo de manhã, entre famílias,
ciclistas e crianças que passeavam em Ipanema, uma moça apareceu totalmente
nua, com o corpo pintado com as cores da bandeira do país, sambando em
sandálias de salto alto e pedindo a volta da moralidade.
O governo voltou à
carga. Decidiu conversar com os manifestantes outra vez e agora resolveu ir até
o reduto da manifestação. Mas na hora de entrar para a reunião só havia dez
lugares e haviam muitos líderes do movimento, então o governo decidiu que só
entrariam sete. Na reunião, além de todo o estafe do presidente estavam também
as pessoas selecionadas pelos assessores: cinco sindicalistas representantes
dos grevistas, um vendedor de algodão doce que tinha vendido quase nada, e dona
Célia, que estava por ali de passagem e segurava um cartaz pedindo a
intervenção militar conforme lhe pediu um rapaz muito simpático que queria uma foto de impacto para o jornal.
Ao final da reunião o
governo divulgou os três pontos da discussão: aumento de 50% no valor da
gorjeta (que ele prometia que em hipótese alguma seria repassado aos
consumidores) e aumento de 10% no preço do algodão doce. O terceiro ponto da
discussão era proibir o vizinho da dona Célia de tocar funk ostentação até
altas horas da noite, assunto que chamava muito a atenção dela ultimamente.
Como era de se
esperar, a negociação não triunfou, e passados cinquenta e cinco dias de greve
o presidente finalmente ficou sabendo que havia uma paralisação. Foi no mesmo
dia em que descobriu que tinha o maior índice de rejeição da história da
política. Os assessores sugeriram que o exército fosse chamado para acabar com
a greve. Aborrecido, o presidente determinou que a greve fosse encerrada pelo
exército imediatamente, mas levou mais dois dias para ele entender que a greve
não era do exército, mas que o exército seria chamado para acabar com a greve.
O assunto foi parar no supremo tribunal federal, que pelo currículo de seus
integrantes estava mais para diminuto tribunal federal. Mas os sujeitos
vestidos de Batman não conseguiram chegar a um consenso. Uma hora estavam de um
lado, outra hora estavam do outro. E o supremo foi apelidado de musgo, porque
sempre ficava em cima do muro.
Passados três meses do
início da greve dos garçons o país estava metido em uma guerra civil sem
precedentes. Mas um dia, numa declaração emocionada no youtube, o Pereira, aquele
garçom de origem humilde, pediu o retorno de todos os colegas ao trabalho. Ele
estava com saudade de deslizar graciosamente entre as mesas com sua bandeja de
chopes, de ser chamado de parceiro, amigo, companheiro, sangue bom, camarada,
capitão. Queria estar de novo entre as risadas altas, as discussões de futebol,
os bêbados chatos e as gostosas de vermelho. Não aguentava mais ficar em casa
olhando o Facebook e assistindo um jornal nacional numa rede de televisão de
grande abrangência territorial. A internet foi solidária com o Pereira, e milhares
de vídeos de apoio chegavam a cada minuto. A expressão "Somos todos
Pereira" viralizou na internet, e uma rede de rádio fez um programa
especial de reportagem sobre esse sujeito originado do povo. Carros apareceram
na rua com pintura nos vidros dizendo "Pereira Vive". Nos camelôs de
todo o país camisas com a foto de Pereira eram vendidas por vinte reais.
Pereira foi cotado como possível candidato à presidência para unir o país e foi
capa de uma revista. Todos estavam emocionados. A gorjeta agora era de 50% e obviamente quem pagava a conta era o povo, mas o povo estava feliz outra vez! E
assim, com a massa dominada, tal qual começou sem motivo, a greve, sem motivo, terminou.
Os eventos narrados
aqui ocorreram em 2018.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
DESPREPARADOS
Somos todos despreparados. Achamos que estamos prontos, mas é puro despreparo. Há poucos anos atrás estávamos bem preparados, mas de lá para cá, nosso preparo desapareceu.
Pense assim, há menos de dez anos você podia ter uma clara ideia sobre a sociedade, um conceito bem organizado sobre as coisas que o cercam, família, economia, política, esportes, religião. Havia uma certeza quase absoluta de suas convicções, e as dúvidas que você tinha eram respondidas no dia a dia, interagindo com seu limitado círculo social, conversando com outras pessoas, ou lendo livros físicos que tentavam explicar genericamente coisas particulares que você vivia. A linha das suas próprias convicções jamais precisava ser ultrapassada. Nessa época, nem sempre havia consenso, e por isso uma discussão sobre quem participou da semifinal de 86 não levava a uma resposta homogênea, os resultados nem sempre eram uma constante, mas a verdade era invariável. Na argumentação valiam suas lembranças versus as lembranças dos outros, na medida desproporcional de certezas e dúvidas, a verdade se construía firme e lentamente, como Einstein imaginou, em uma velocidade relativa ao seu próprio movimento.
Então chegaram a internet e as redes sociais. Como alienígenas dos filmes antigos, invadiram nosso território social sem aviso prévio. O que parecia ser uma era de igualdades se tornou o renascimento de um antigo sistema social da divisão em categorias, classes, tipos, grupos, proximidade e parentescos, e pelas mãos do turco Orkut Büyükköten nos dividimos em comunidades virtuais organizadas muito mais pelo que acreditávamos que éramos, do que pelo que realmente somos. Como sempre, nossa impaciência diante do cotidiano nos empurrou para novas fronteiras, e logo descobrimos que conviver com semelhantes era chato demais, migrando para outras redes aparentemente multireferenciais, mas igualmente segregadoras. E eis que por volta de 2007 o alien mais perigoso de todos invadiu totalmente nosso sistema social organizado difundindo o facebook de Zuckerberg e Severin. Originalmente uma ideia tola e preconceituosa, foi habilmente transformada e expandida entre pós-adolescentes da costa leste americana para se tornar global. Alavancado pela evolução das conexões em razão geométrica, nosso desespero ancestral de pertencer ao grupo e a explosão de telefones inteligentes em 2008 (não seriam as pessoas que deveriam ser inteligentes?), o facebook reorganizou as relações sociais em menos de dez anos, e criou o novo conceito da verdade não absoluta, das verdades criadas pelos interesses grupais. Aí está nosso despreparo.
Uma mentira sempre foi uma mentira. Mas contada para vinte pessoas não passava de galhofa. Uma mentira contada para centenas que recontam para centenas geralmente se transforma num crime, normalmente contra a humanidade (vide o nazismo, Iraque, Vietnã). O facebook consegue isso, consegue fazer uma mentira se transformar numa verdade, e de verdade, passar a alcunhar fatos verdadeiros como mentirosos. Nas redes sociais as postagens são partes de uma construção, fragmentos cujas lacunas são completadas pelo outro, normalmente numa dicotomia eufórico/otimista ou reacionário/ignorante, quase sempre diferente da realidade. Uma foto de uma garrafa de vinho num sábado à noite com os dizeres “sábado intimista” e seus amigos construirão a ideia de um sábado a dois, música romântica, muito sexo. A verdade? Uma solidão avassaladora, inércia de contato social e uma tremenda vontade de parecer diferente. O mundo das redes sociais é assim, tudo são verdades, mas pouca coisa é real.
Nosso filtro de realidade foi moldado por milhões de anos para coisas físicas, presenciais ou tangíveis. De repente estamos diante de um novo modo de relações que exige crítica, análise e reflexão. Somos seres imediatos, reativos e espasmódicos, não fomos ensinados pela natureza a sermos reflexivos. Daí reproduzimos sem critério, retwitamos, compartilhamos, curtimos, opinamos, em qualquer profundidade. Como disse Thomas L. Friedman, a internet é tão importante nas relações sociais nos dias de hoje que os modems deveriam vir com um aviso: Este equipamento não emite juízo de valor, você precisa pensar por si próprio. Definitivamente, não estamos preparados.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
PABLO
"Procuro uma mulher que me inspire."
Contam que foi assim que Pablo Neruda iniciou o anúncio que publicou no jornal, na semana seguinte ao desembarcar em Cartagena das Índias, disposto a cumprir um ano sabático, após a separação daquela que ele acreditava ser seu verdadeiro amor, Matilde. No dia seguinte, havia uma fila de jovens estacionadas em frente à casa simples do poeta, ansiosas pela vaga de musa.
Apesar de ser uma pequena brincadeira (Neruda jamais pensou em contratar alguma mulher que pudesse ser sua verdadeira musa), Pablo ficou em uma péssima situação, em uma cidade pequena e distante de novidades. Não houve outra solução senão entrevistar as meninas, uma a uma. Entre elas estava Isabel Castañeda.
Isabel era uma morena portentosa, com seus 22 anos, muito distante dos 56 do poeta. Nunca esteve disposta a comparecer na entrevista, mas conhecer Neruda pessoalmente tornara-se objetivamente uma obsessão coletiva em Cartagena, e sua mãe praticamente a expulsou de casa para que arriscasse a chance de se imortalizar como a inspiradora de tantos e tão formidáveis poemas.
O encontro foi no meio da tarde. Pablo recebia as moças delicadamente tomando uma xícara de chá, e uns anos depois escreveria “Muitas chávenas de chá” lembrando-se daquele mar de formosuras que desfilaram perante seus olhos naqueles dois dias. Isabela se impressionou com Pablo. Esperava um homem decadente, velho e instrospectivo como julgava que poetas dessa idade deveriam ser, mas encontrou um jovial e divertido menino, cujas marcas no rosto deixavam clara a passagem do tempo. Neruda não se interessou por ela, e por nenhuma outra.
Na semana seguinte, com uma grande vontade de comer berinjelas (segundo ele mesmo em sua autobiografia) Neruda foi à feira. Parou numa barraca onde atendia dona Josefa, cujo nome o pai lhe dera pois tinha o sonho de ter um filho que fosse carpinteiro. Pablo não sabia escolher berinjelas e lhe pediu ajuda, ocupada descascando figos, dona Josefa pediu à filha que o atendesse. A filha era Isabela. Na luz difusa da feira, entre aromas e cores, Pablo se apaixonou. Daí iniciou-se um dos maiores romances fora da literatura de todos os tempos. Anos depois, casado há muito com Isabela, Neruda escreveria um de seus mais famosos poemas, “Cheiro de figos e berinjelas” celebrando o amor descoberto numa barraca de feira.
Tudo que você leu até aqui é mentira.
Neruda jamais foi para Cartagena das Índias (é o romance “Amor nos tempos do cólera” de Gabriel García Márquez que se passa lá), na verdade seu ano sabático foi em Santa Sofia que inspirou o filme “O carteiro e o Poeta”. Nunca esteve casado com Isabela, que nunca teve uma mãe chamada Josefa. Jamais escreveu os dois poemas citados ou uma autobiografia. Pensei nessa história de amor quando dirigia para o trabalho, e resolvi escrevê-la para demonstrar, por "a mais b", como é fácil mentir sobre qualquer coisa na rede. Até uns anos atrás, nossas mentiras eram restritas a um pequeno círculo. este texto é uma espécie de pedido de atenção para tantas falsidades que encontramos na internet. Estamos a um Google da verdade, basta procurá-la. Não acredite em tudo que vem pronto e embalado para ser degustado, conexões de alta velocidade requerem juízo de valor. Pablo há de me perdoar, mas não resisti, como ele mesmo diria, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.
*******************
PS.: Pablo era chileno, jamais tirou um ano sabático. O filme” O carteiro e o poeta” que supostamente retrata seu romance com sua terceira e última mulher, Matilde, ocorreu em Isla Negra, e não na Itália como retrata o filme. Pablo Neruda foi um dos maiores poetas do século XX, e levou sua militância política ao ponto de desistir de uma candidatura à presidência do Chile em nome de Allende. Por fim, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” é uma frase atribuída a Che Guevara. No fundo, nada disso pode ser verdade
Contam que foi assim que Pablo Neruda iniciou o anúncio que publicou no jornal, na semana seguinte ao desembarcar em Cartagena das Índias, disposto a cumprir um ano sabático, após a separação daquela que ele acreditava ser seu verdadeiro amor, Matilde. No dia seguinte, havia uma fila de jovens estacionadas em frente à casa simples do poeta, ansiosas pela vaga de musa.
Apesar de ser uma pequena brincadeira (Neruda jamais pensou em contratar alguma mulher que pudesse ser sua verdadeira musa), Pablo ficou em uma péssima situação, em uma cidade pequena e distante de novidades. Não houve outra solução senão entrevistar as meninas, uma a uma. Entre elas estava Isabel Castañeda.
Isabel era uma morena portentosa, com seus 22 anos, muito distante dos 56 do poeta. Nunca esteve disposta a comparecer na entrevista, mas conhecer Neruda pessoalmente tornara-se objetivamente uma obsessão coletiva em Cartagena, e sua mãe praticamente a expulsou de casa para que arriscasse a chance de se imortalizar como a inspiradora de tantos e tão formidáveis poemas.
O encontro foi no meio da tarde. Pablo recebia as moças delicadamente tomando uma xícara de chá, e uns anos depois escreveria “Muitas chávenas de chá” lembrando-se daquele mar de formosuras que desfilaram perante seus olhos naqueles dois dias. Isabela se impressionou com Pablo. Esperava um homem decadente, velho e instrospectivo como julgava que poetas dessa idade deveriam ser, mas encontrou um jovial e divertido menino, cujas marcas no rosto deixavam clara a passagem do tempo. Neruda não se interessou por ela, e por nenhuma outra.
Na semana seguinte, com uma grande vontade de comer berinjelas (segundo ele mesmo em sua autobiografia) Neruda foi à feira. Parou numa barraca onde atendia dona Josefa, cujo nome o pai lhe dera pois tinha o sonho de ter um filho que fosse carpinteiro. Pablo não sabia escolher berinjelas e lhe pediu ajuda, ocupada descascando figos, dona Josefa pediu à filha que o atendesse. A filha era Isabela. Na luz difusa da feira, entre aromas e cores, Pablo se apaixonou. Daí iniciou-se um dos maiores romances fora da literatura de todos os tempos. Anos depois, casado há muito com Isabela, Neruda escreveria um de seus mais famosos poemas, “Cheiro de figos e berinjelas” celebrando o amor descoberto numa barraca de feira.
Tudo que você leu até aqui é mentira.
Neruda jamais foi para Cartagena das Índias (é o romance “Amor nos tempos do cólera” de Gabriel García Márquez que se passa lá), na verdade seu ano sabático foi em Santa Sofia que inspirou o filme “O carteiro e o Poeta”. Nunca esteve casado com Isabela, que nunca teve uma mãe chamada Josefa. Jamais escreveu os dois poemas citados ou uma autobiografia. Pensei nessa história de amor quando dirigia para o trabalho, e resolvi escrevê-la para demonstrar, por "a mais b", como é fácil mentir sobre qualquer coisa na rede. Até uns anos atrás, nossas mentiras eram restritas a um pequeno círculo. este texto é uma espécie de pedido de atenção para tantas falsidades que encontramos na internet. Estamos a um Google da verdade, basta procurá-la. Não acredite em tudo que vem pronto e embalado para ser degustado, conexões de alta velocidade requerem juízo de valor. Pablo há de me perdoar, mas não resisti, como ele mesmo diria, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.
*******************
PS.: Pablo era chileno, jamais tirou um ano sabático. O filme” O carteiro e o poeta” que supostamente retrata seu romance com sua terceira e última mulher, Matilde, ocorreu em Isla Negra, e não na Itália como retrata o filme. Pablo Neruda foi um dos maiores poetas do século XX, e levou sua militância política ao ponto de desistir de uma candidatura à presidência do Chile em nome de Allende. Por fim, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” é uma frase atribuída a Che Guevara. No fundo, nada disso pode ser verdade
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Marcelo Pontes, por Marcelo Pontes
Eu gosto de feijoada.
Feijoada com samba, gosto mais ainda.
Pode ser pagode também, feijoada com pagode.
Se beber o suficiente, nem me importo se a banda tocar brega ou sertanejo.
Deixo meu carro no bar, volto de táxi.
Gosto de futebol. Não, adoro!
Gosto de sair de casa, e de estar em casa quando o Internacional joga.
Não me importo com gastronomia, comer é uma obrigação.
Tanto faz para mim se a carne é de gado criado no Japão com música clássica.
Se a marmorização é +6, +7, +8 ou mais quanto quer que seja.
Coloco os cotovelos sobre a mesa quando como, é sem querer.
Empurro a comida para cima do garfo com a faca.
Prefiro caipirinha a espumante.
Durmo de calça de pijama de flanela e camiseta.
Caminho rápido.
Leio vários livros ao mesmo tempo.
Gosto de me vestir bem, mas erro frequentemente.
Adoro arquitetura, museu, artes plásticas, cinema, literatura, escrever.
Filme com escritor, adoro.
Não tenho paciência para teatro.
Odeio The Kardashians. Adoro Mad Men.
Voto no PT há 30 anos.
Não sou apaixonado por carro como todo brasileiro.
Prefiro Piquet ao Senna. Acho o Senna chato. Prefiro até o Émerson.
Não vou em Casa Cor.
Quando viajo a turismo caminho o dia inteiro, almoço sanduíches, compro pequenas lembranças, se chover, troco de cidade.
Sou otimista.
Acho que vai dar certo, que vai acontecer, que vai melhorar, que está melhorando, que não foi de propósito, que vai passar.
Gosto de mulheres pequenas de mãos e pés pequenos.
Prefiro mulheres altas, de mãos e pés grandes.
Adoro filosofia, psicologia comportamental, evolucionismo, Jung, Gabriel García Márquez, Andre de Botton, Vitor Hugo.
Não consigo seguir blogs, twitters e instagram de gente famosa.
Eu gosto de feijoada.
Feijoada com samba, gosto mais ainda.
Pode ser pagode também, feijoada com pagode.
Se beber o suficiente, nem me importo se a banda tocar brega ou sertanejo.
Deixo meu carro no bar, volto de táxi.
Gosto de futebol. Não, adoro!
Gosto de sair de casa, e de estar em casa quando o Internacional joga.
Não me importo com gastronomia, comer é uma obrigação.
Tanto faz para mim se a carne é de gado criado no Japão com música clássica.
Se a marmorização é +6, +7, +8 ou mais quanto quer que seja.
Coloco os cotovelos sobre a mesa quando como, é sem querer.
Empurro a comida para cima do garfo com a faca.
Prefiro caipirinha a espumante.
Durmo de calça de pijama de flanela e camiseta.
Caminho rápido.
Leio vários livros ao mesmo tempo.
Gosto de me vestir bem, mas erro frequentemente.
Adoro arquitetura, museu, artes plásticas, cinema, literatura, escrever.
Filme com escritor, adoro.
Não tenho paciência para teatro.
Odeio The Kardashians. Adoro Mad Men.
Voto no PT há 30 anos.
Não sou apaixonado por carro como todo brasileiro.
Prefiro Piquet ao Senna. Acho o Senna chato. Prefiro até o Émerson.
Não vou em Casa Cor.
Quando viajo a turismo caminho o dia inteiro, almoço sanduíches, compro pequenas lembranças, se chover, troco de cidade.
Sou otimista.
Acho que vai dar certo, que vai acontecer, que vai melhorar, que está melhorando, que não foi de propósito, que vai passar.
Gosto de mulheres pequenas de mãos e pés pequenos.
Prefiro mulheres altas, de mãos e pés grandes.
Adoro filosofia, psicologia comportamental, evolucionismo, Jung, Gabriel García Márquez, Andre de Botton, Vitor Hugo.
Não consigo seguir blogs, twitters e instagram de gente famosa.
Eu gosto de feijoada.
Feijoada com samba, gosto mais ainda.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Você já sabe que em qualquer lugar
Eu tô pensando em você
Por mais distante que eu pareça estar
Eu tô pensando em você
Há tanta coisa fora do lugar
Que eu tento arrumar por você
Só pra poder te mostrar que ao seu lado é meu lugar
E que não há mais ninguém
Zero:Onze
Postado diretamente de Boa Vista - Roraima
Eu tô pensando em você
Por mais distante que eu pareça estar
Eu tô pensando em você
Há tanta coisa fora do lugar
Que eu tento arrumar por você
Só pra poder te mostrar que ao seu lado é meu lugar
E que não há mais ninguém
Zero:Onze
Postado diretamente de Boa Vista - Roraima
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Comentário a respito de Eric
Quando leio um artigo em um blog qualquer relatando uma entrevista com Eric Hobsbawm, feita há dois anos, fico em silêncio por uns minutos pensando em como continuo incompetente para entender o mundo. Penso em quantas coisas estão além do meu entendimento, me sinto um analfabeto em economia, sociologia, política internacional e movimentos sociais. O cara era mesmo uma sumidade. Falava de coisas complicadas, de um modo complicado, mas que tornava tudo simples. O ABC da geopolítica e o uso da tradição histórica para entender o futuro estava no seu DNA, parece que não fazia esforço algum para explicar para pessoas simples como eu como os países estavam se redesenhando, como o mundo se redesenhou após a recessão dos anos 30 reorganizado em torno das direitas, como as esquerdas emergiram, quais seriam nossos próximos passos. Na faculdade li livros que ele escreveu para tentar entender como as populações se desenvolvem, não é só uma questão econômica, é também social, das periferias e do movimento da especulação imobiliária. Por isso líamos Hobsbawm na arquitetura. Toda vez que alguém no mundo que decide precisava de uma opinião sobre como as coisas estavam evoluindo ou para onde iam, precisava comprovar uma ideia, ou queria mudar um paradigma político, chamava o nome do bom e velho Hobsbawm. Ao final, fiquei ali parado assim pensando... Mas cometi a infeliz ideia de seguir lendo e ir para os comentários de burronaltas, e foi aí que me deparei com o absurdo fenômeno que estamos vivendo.
Algumas pessoas leram o artigo e julgaram que Hobsbawm estivesse (vivo) defendendo ideologicamente o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores. Mesmo que no artigo ele fale em política internacional, na união de Brasil e Argentina no cone Sul para fortalecer a América Latina, na perda da hegemonia do FMI pelo pagamento da dívida por países emergentes, na fase dura das relações diplomáticas nas mãos de Thatcher e Reagan, mesmo assim. Algum despreparado ignorante social só conseguiu entender e se fixar na frase sobre o ex presidente Lula.
Quero só relembrar quem é esse personagem. Hobsbawm foi um dos maiores pensadores da economia e movimentos políticos do século XX, descreveu a história do século XX como ninguém, em associações entre movimentos sociais e políticos, econômicos e de desenvolvimento de uma forma inovadora e esclarecedora. Sempre foi obcecado com a ideia de que entender a história poderia nos levar a planejar e predizer o futuro, analisando o passado, previu situações que se concretizaram no correr da história, sendo a mais famosa a crise de etnias e religiões na região de Israel, escreveu mais de 30 livros. Presidentes do mundo todo iam até Londres para conversarem com ele sobre como a crise ou os movimentos políticos afetariam ou afetarão seus países. E quando leio os comentários da matéria...um cara diz que ele é esclerosado, o outro (que não sabe que limpeza se escreve com z) diz que ele tem Alzheimer (e claro, erra na ortografia), e um terceiro diz que ele foi pago pelo Lula.
Meu Deus!
Que inferno é esse de internet que tenho que aguentar com tanta gente despreparada, ignorante e desrespeitosa? Pobre Eric. Ser assim xingado por um punhado de incompetentes pretenciosos que não tem nem ideia de quem ele foi. Mas esse é o reflexo do povo do país em que vivemos. O povo que tem opinião formada sobre tudo, mas só lê o cabeçalho; que se "politiza" pelo facebook; acha engraçado vaiar a presidenta de seu próprio país diante do mundo num jogo de futebol; que faz manifestações e depois esquece o motivo, que abandona a militância porque perdeu a graça; que vota sem se informar e depois reclama do governo; que esquece em quem votou; que acha que sonegar não é crime (afinal o dinheiro não é usado em nada mesmo, como se calçamento, luz, grama cortada, meio-fio e tudo o mais brotasse da terra). Povo que vota voto de protesto e elege oTiririca, que compra uma revista semanal que mente, e um jornal que elege como o melhor deputado federal do ano de 2012 um ex-BBB e ... Tiririca, o segundo melhor! Sou obrigado a aceitar que precisamos melhorar muito a educação. Vocês tem razão.
Mas também sei dar opinião, leio muito para dar opinião, e se qualquer um pode, também posso. A minha opinião é que a educação tem que começar em casa, em pais presentes; mais diálogo, menos novela; mais análise, menos copia e cola; mais leitura, menos compartilhar. Menos cada um com seus problemas, mais respeito pelo outro; menos mulher pelada, mais livros; menos âncora de telejornal dando opinião, mais direito de resposta. Essa mania hedionda dos brasileiros (muitos, a maioria, infelizmente) de serem irreverentes e não respeitarem as regras, de furar fila para dobrar no semáforo, de fazer dedo de silicone para bater ponto e não precisar dar plantão em hospital, de comprar maconha e reclamar de traficantes, de baixar música sem pagar direitos autorais, de fumar escondido onde é proibido fumar. Isso cansa.
E então, depois que leio um depoimento brilhante de um dos caras mais inteligentes do mundo, um ícone do século XX, algum imbecil qualquer usa a seção de comentários e diz que o filósofo, economista, antropólogo, historiador (que já morreu!) está caduco. Por favor, pára o mundo que eu quero descer!
Hobsbawm, esteja onde estiver, em nome do povo brasileiro, peço desculpas.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
São 15h55min.
Crianças não costumam nascer a tarde, mas afinal, era eu.
Desconsiderando as voltas da Terra, e pensando de modo simplista, acabo de fazer 50 anos de idade. Não posso dizer que não usei bem esse tempo, mas também devo considerar que poderia ter usado melhor. Não sei tocar piano, não tive um filho, Não plantei uma arvore, não fiz a volta ao mundo. Mas fiz outras coisas bem legais, e "provei tantas frutas, que te deixariam tonto". Botei o pé no mundo, desapareci por uns dias, toquei numa banda improvisada, conheci todas as capitais do Brasil. Li muitos livros, muitos mesmo. Senti saudade. Descobri que amigos vão e voltam, mas que inimigos ficam para sempre, e então, com todas as perspectivas a meu favor, descobri que ainda não sei perdoar. Fiz campanha política, escrevi meu próprio blog. tive mais de 50 mil acessos num post sobre o Big Brother, descobri que muita gente me lê, aumentei a responsabilidade… Morei em várias cidades, comi comidas estranhas, mas nada nojento. Perdi tudo, recuperei tudo outra vez, perdi tudo de novo, recuperei tudo outra vez. Desisti de comprar um apartamento, fiquei muito doente, me curei. Vi as pessoas que eu amo caírem e se levantarem; vi as pessoas que eu amo conquistarem seus sonhos; vi as pessoas que eu amo dizerem coisas lindas pra mim, quando eu nem sequer esperava. Dirigi em autoestradas nos EUA, fiz feijão com arroz em Nova Iorque, chorei ao ver alguém que não conhecia cantando. Nunca aprendi a tocar piano. Mas aprendi a tocar os teclados de letras, bem ao meu jeito, na ordem certa, compassada, expressando o que eu sinto. Em 50 anos, escolhi os musicais como minha forma preferida de arte, junto com meu grande amor à arquitetura, sem deixar para trás a literatura e as artes plásticas. Tudo bem, em 50 anos não decidi ainda qual das artes mais me encanta, mas sei que não é a poesia. Conheci menos lugares do que pretendia, mas conheci lugares que nem sonhava. Na minha cidade natal conheci todos os becos, adotei outra cidade como cidade natal, e pelas ruas estreitas do velho mundo "vi tanta moça bonita, tanta rua esquisita, tanta nuança de parede, nas ruas por onde andei, e vi uma rua encantada, que nem em sonhos sonhei". Desembarquei em Manaus em um dia quente de verão vestindo camisa estampada e de mangas compridas com colarinho fechado ao estilo dos anos 90, fui recebido por um estranho que se tornaria meu amigo por toda a vida, atravessei a selva, andei de barco, aluguei um táxi para viajar pelo Acre e Rondônia…atravessei os dois estados por uma estrada estranha cercada de floresta, de táxi! Quase caí de um telhado em Roraima, almocei a bordo de um restaurante que flutuava no maior rio do mundo, dormi em uma acampamento de mineiradores no Amapá, passei a noite acordado. Conheci uma cantora sertaneja quando perdi minhas malas na Bahia, viajamos dois dias de ônibus para descobrir que o caminho era outro. Mergulhei clandestinamente sem licença, caí de um barco, votei 20 anos no mesmo candidato e quando ele se elegeu chorei de alegria sob fogos de artifício enrolado em minha bandeira vermelha. Me senti grande. Atravessei Portugal de carro, visitei o túmulo de Santiago, falei em várias línguas, me perdi no caminho de uma cidade chamada Jaquirana. A verdade? Me perdi inúmeras vezes no Rio Grande do Sul, em Minas e Goiás, fiquei mais de uma hora perdido de carro em BH, nunca me localizei muito bem. Enjoei nas estradas de terra, correndo ralli no Paraná. Mesmo sendo passageiro, empurrei um táxi estragado em Fortaleza. Reformei um prédio histórico em Belém, depois outro, muito maior. Acompanhei o meu time do coração do outro lado do mundo, conheci o deserto da Arábia, li as Mil e Uma Noites, cheguei em Atlanta após o furacão, andei de camelo e vi o pôr-do-sol no deserto. Me senti pequeno. Escrevi para uma revista, escrevi para um jornal, escrevi três livros, perdi um inteiro, não publiquei. Aprendi a dormir tarde e acordar cedo, a ver um filme mais de uma vez,a perceber quando meu corpo precisa descansar, e quando preciso comer mais verduras. Aprendi a ouvir antes de falar quando os ambientes eram hostis ou competitivos, aprendi a respeitar quem sabe mais do que eu, aprendi a querer ser igual a quem sabe mais do que eu. Sofri por amor, me curei; sofri de novo, me curei; sofri de novo, me curei; sofri de novo, me curei, numa exponencial infinita que agora sei que jamais acabará, porque também descobri que o amor não acaba e que tem muitas formas. Entendi que qualquer forma de amar vale a pena. Entendi que brigar as vezes é a única opção, mas nunca a melhor. No fim das contas, fazendo um balanço, descobri que fazer 50 anos de idade não é o fim do mundo, nem o começo, nem a metade, é só mais um número, preferia que ele fosse menor, mas como disse Paulo Autran, para viver mais a gente tem que envelhecer, então, que venha o resto, mas devagar, por favor.
Crianças não costumam nascer a tarde, mas afinal, era eu.
Desconsiderando as voltas da Terra, e pensando de modo simplista, acabo de fazer 50 anos de idade. Não posso dizer que não usei bem esse tempo, mas também devo considerar que poderia ter usado melhor. Não sei tocar piano, não tive um filho, Não plantei uma arvore, não fiz a volta ao mundo. Mas fiz outras coisas bem legais, e "provei tantas frutas, que te deixariam tonto". Botei o pé no mundo, desapareci por uns dias, toquei numa banda improvisada, conheci todas as capitais do Brasil. Li muitos livros, muitos mesmo. Senti saudade. Descobri que amigos vão e voltam, mas que inimigos ficam para sempre, e então, com todas as perspectivas a meu favor, descobri que ainda não sei perdoar. Fiz campanha política, escrevi meu próprio blog. tive mais de 50 mil acessos num post sobre o Big Brother, descobri que muita gente me lê, aumentei a responsabilidade… Morei em várias cidades, comi comidas estranhas, mas nada nojento. Perdi tudo, recuperei tudo outra vez, perdi tudo de novo, recuperei tudo outra vez. Desisti de comprar um apartamento, fiquei muito doente, me curei. Vi as pessoas que eu amo caírem e se levantarem; vi as pessoas que eu amo conquistarem seus sonhos; vi as pessoas que eu amo dizerem coisas lindas pra mim, quando eu nem sequer esperava. Dirigi em autoestradas nos EUA, fiz feijão com arroz em Nova Iorque, chorei ao ver alguém que não conhecia cantando. Nunca aprendi a tocar piano. Mas aprendi a tocar os teclados de letras, bem ao meu jeito, na ordem certa, compassada, expressando o que eu sinto. Em 50 anos, escolhi os musicais como minha forma preferida de arte, junto com meu grande amor à arquitetura, sem deixar para trás a literatura e as artes plásticas. Tudo bem, em 50 anos não decidi ainda qual das artes mais me encanta, mas sei que não é a poesia. Conheci menos lugares do que pretendia, mas conheci lugares que nem sonhava. Na minha cidade natal conheci todos os becos, adotei outra cidade como cidade natal, e pelas ruas estreitas do velho mundo "vi tanta moça bonita, tanta rua esquisita, tanta nuança de parede, nas ruas por onde andei, e vi uma rua encantada, que nem em sonhos sonhei". Desembarquei em Manaus em um dia quente de verão vestindo camisa estampada e de mangas compridas com colarinho fechado ao estilo dos anos 90, fui recebido por um estranho que se tornaria meu amigo por toda a vida, atravessei a selva, andei de barco, aluguei um táxi para viajar pelo Acre e Rondônia…atravessei os dois estados por uma estrada estranha cercada de floresta, de táxi! Quase caí de um telhado em Roraima, almocei a bordo de um restaurante que flutuava no maior rio do mundo, dormi em uma acampamento de mineiradores no Amapá, passei a noite acordado. Conheci uma cantora sertaneja quando perdi minhas malas na Bahia, viajamos dois dias de ônibus para descobrir que o caminho era outro. Mergulhei clandestinamente sem licença, caí de um barco, votei 20 anos no mesmo candidato e quando ele se elegeu chorei de alegria sob fogos de artifício enrolado em minha bandeira vermelha. Me senti grande. Atravessei Portugal de carro, visitei o túmulo de Santiago, falei em várias línguas, me perdi no caminho de uma cidade chamada Jaquirana. A verdade? Me perdi inúmeras vezes no Rio Grande do Sul, em Minas e Goiás, fiquei mais de uma hora perdido de carro em BH, nunca me localizei muito bem. Enjoei nas estradas de terra, correndo ralli no Paraná. Mesmo sendo passageiro, empurrei um táxi estragado em Fortaleza. Reformei um prédio histórico em Belém, depois outro, muito maior. Acompanhei o meu time do coração do outro lado do mundo, conheci o deserto da Arábia, li as Mil e Uma Noites, cheguei em Atlanta após o furacão, andei de camelo e vi o pôr-do-sol no deserto. Me senti pequeno. Escrevi para uma revista, escrevi para um jornal, escrevi três livros, perdi um inteiro, não publiquei. Aprendi a dormir tarde e acordar cedo, a ver um filme mais de uma vez,a perceber quando meu corpo precisa descansar, e quando preciso comer mais verduras. Aprendi a ouvir antes de falar quando os ambientes eram hostis ou competitivos, aprendi a respeitar quem sabe mais do que eu, aprendi a querer ser igual a quem sabe mais do que eu. Sofri por amor, me curei; sofri de novo, me curei; sofri de novo, me curei; sofri de novo, me curei, numa exponencial infinita que agora sei que jamais acabará, porque também descobri que o amor não acaba e que tem muitas formas. Entendi que qualquer forma de amar vale a pena. Entendi que brigar as vezes é a única opção, mas nunca a melhor. No fim das contas, fazendo um balanço, descobri que fazer 50 anos de idade não é o fim do mundo, nem o começo, nem a metade, é só mais um número, preferia que ele fosse menor, mas como disse Paulo Autran, para viver mais a gente tem que envelhecer, então, que venha o resto, mas devagar, por favor.
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