terça-feira, 6 de abril de 2010

Miojo

"A paz está garantida quando não se está com fome"
Momofuku Ando - criador do Miojo

Não sei o que acontece comigo, mas toda vez que vou fazer Miojo tenho que ler as instruções. Acho que tem a ver com alguma esperança sórdida dentro de mim de que a maneira de fazer macarrão instantâneo tenha mudado, e a fórmula seja mais simples ainda. Uma espécie de ultimate way to cook pasta, algo assim como uma idéia impressionante que revolucionaria o mundo da alimentação. Mas não. Meu Miojo desde os quinze anos de idade continua sendo cozinhado por 3 minutos em 450 ml de água fervendo.


Hoje, diante do desafio de mais um Miojo, fui para o Google para saber o que queria dizer Lamen (como disse Nelson Motta, imagine o que Flaubert escreveria se pudesse acessar o Google). Lamen é um macarrão japonês, e o Miojo nasceu em Taiwan, apesar de haverem registros de macarrões instantâneos desde o século XVI na China. Momofuku Ando, criador do lendário macarrão, teve a idéia após a guerra ao presenciar uma fila de pessoas famintas em frente a uma vitrine de fios de macarrão.

De fato, o que temos é que Miojo deveria ser tombado como patrimônio nacional. Por intermédio dele milhões de estudantes em repúblicas e longe da casa dos pais puderam se alimentar depois da aula, e não foram raros os casos onde um saquinho desses salvou um feriado inesperado de 7 de setembro com tudo fechado e nada para comer em casa. Unanimidade entre estudantes, solteirões, recém casados e descasados, inabilidosos cozinheiros e maconheiros, o bom e velho Nissin é praticamente uma instituição da larica provocada pelo uso de uma erva que a rapaziada fuma pelas praias do Brasil afora. 

Miojo não tem classe social, cor, raça, credo ou religião, serve sempre e para todos. Incrementado com creme de leite ou molho de latinha, ketchup, com requeijão ou ovo frito, coberto daquele corante com gosto de galinha caipira, bacon, carne (e recentemente picanha), nunca perde a essência. Basta ter um fogão, uma panelinha, água e um fósforo, e voilá! está pronta a refeição. Conheço pessoas que se tornaram psicologicamente dependentes de Miojo, e quando ele trocou de nome para Nissin tiveram que procurar ajuda especializada. Era como uma referência que desaparecia, seria como comer com um estranho toda noite depois da balada.

Se você leu todo este post, sabe do que estou falando. Se não sabe, benvindo* à Terra, estranho.

Miojo é Nissin!

*O vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra duas grafias para a saudação: "bem-vindo" e "benvindo".

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Parabéns pra você!

Em 1907 Picasso pintou Les demoiselles d'Avignon, o que seria um de seus mais famosos trabalhos em óleo sobre tela. Recém saído da Fase Azul e ainda no que os especialistas (como a Lili) chamam de protocubismo, o quadro hoje está exposto no MoMA em Nova Iorque. Fora isso, além do nascimento do arquiteto Osvaldo Bratke (pai do Carlos) que nos deixou em 1997, também nasceu Katherine Hepburn com seus inesquecíveis Uma rua chamada pecado (Um bonde chamado desejo, no original) e Adivinhe quem vem para jantar, com Sidney Poitier. Infelizmente outra maravilha feminina chamada Audrey Hepburn não era sua filha, mas seria um feito memorável se fosse verdade. Tirando isto, 1907 foi um ano chato.
Em 1907 o cinema era uma criança nascida em 1895 e proliferada em feiras e circos. Os automóveis da Ford eram do tipo calhambeque, aqueles de revista do Pato Donald, e Henry Ford somente popularizaria a linha de produção para seu famoso Ford T no ano seguinte. O presidente do Brasil (confesso que nessa tive que apelar para o Google) era Afonso Pena. Ou seja, 1907 foi um ano sem graça.
Quantos gênios seria necessário que nascessem em cada ano para que a gente pudesse dizer que foi um ano especial? Ontem não tive tempo de escrever sobre o dia de hoje (terça-feira, 15 de dezembro de 2009) e como ele é especial para nós arquitetos brasileiros, aniversário de Oscar Niemeyer, nascido em 15 de dezembro de 1907, cento e dois anos! Quando a gente coloca o nome dele no Google, lá vou eu de novo, tem mais de um milhão de citações. Quando coloco meu nome, Marcelo Seferin Pontes, são 96 citações...Acho que isso deve ter algum motivo. Quando dou palestras de arquitetura, costumo dizer que os arquitetos nunca se aposentam, em geral trabalham a vida inteira e morrem trabalhando, neste caso, trabalham a vida inteira e continuam vivendo e trabalhando e produzindo e deslumbrando. Casualmente no dia de hoje tive a oportunidade de conhecer sua mais recente construção no Brasil, a Cidade Administrativa do Governo do Estado de Minas Gerais, em Belo Horizonte, ainda em obras e com previsão de inauguração da primeira etapa para 15 de janeiro. Impressionante.
O bloco do Palácio do Governo da Cidade Administrativa tem o maior vão livre do mundo. Se você não é arquiteto ou se é e não sabe o que é vão livre, é o espaço coberto sem pilares. O prédio é uma caixa de vidro toda suspensa por tirantes. A obra, calculada por Sussekind, é de arrepiar. Estava com o Bruno, um amigo arquiteto, e ficamos pensando no desafio de Brasília, centenas de vezes maior do que este. Como avaliar as milhares de sensações que Oscar teve durante a construção de suas centenas de prédios? Como avaliar a vida de um homem que nasceu antes do comunismo se tornar um regime de governo, quando existiam no Brasil cerca de 5 times de futebol, que viu duas guerras mundiais. É difícil entender como alguém consegue varar um século e ainda entender o mundo. Pense assim: quando Oscar nasceu não havia nem idéia do refrigerador doméstico, o rádio estava engatinhando, cruzar o oceano era uma aventura, Santos Dumont havia feito um único vôo em Paris no ano anterior, a arquitetura copiava os estilos do Renascimento e da Idade Média. Hoje nós temos televisões que gravam programas e com as quais você pode interagir para escolher os programas, computadores estão ligados por todo o mundo, cruzar o oceano é cotidiano, e a arquitetura de Oscar varreu o mundo, transformando-o num dos mais importantes arquitetos da história mundial.


Acho que parte de minha imensa consideração por Oscar venha dessa inacreditável capacidade de se adaptar sem perder sua genética criativa, cada traço é uma expressão completa de sua assinatura arquitetônica, um DNA reconhecível, mas diferente. Uma numerosa família com semelhanças, mas diferente. É como se cada prédio fosse uma surpresa de alguma coisa conhecida, um velho amigo que retorna modificado, ou um antigo amor redescoberto em uma festa. A arquitetura de Oscar me faz ficar calmo, abate minhas frustrações e tranquiliza minha inquieta alma de arquiteto que mora em um coração atribulado pela ameaça da mediocridade do dia a dia, da preguiça cultural e das pessoas sem talento ou desejo. Além de parabéns pra você, queria também dizer obrigado. Oscar é dez, ou melhor, é 102!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Resolução de Ano Novo

Eu nunca tomei resoluções de Ano Novo. Sempre me senti meio mal com isso, porque tinha a sensação que deveria mudar alguma coisa, afinal, o mundo estava mudando também. Será? Você já parou para se perguntar por que setembro (sete...) é o mês nove? Foram os romanos que alteraram o nosso calendário original, baseado em ciclos lunares. Um cara chamado Imperador Pompílio resolveu dividir o ano em 12, mesmo com o ano de 365 dias! O ano começava em março (deus Marte), abril (aprilis, de abrir as colheitas), maio (da deusa Maia, mãe de Hermes, o cara que corria para caramba), junho (da deusa Juno, com um temperamento terrível, casada com Júpiter, ciumenta como uma deusa deve ser). Depois começava a simplificação, quintillis, sextillis, setembro, outubro, novembro e dezembro. No final vinham janeiro e fevereiro. Como Pompílio errou nos cálculos, a cada dois anos precisavam colocar um mês extra de 22 ou 23 dias. Vamos combinar! Que negócio mais complicado! Imagine o cálculo de férias e décimo terceiro, recolhimento de impostos e ano escolar?

- Pai, esse ano tem quantos meses?

- Não sei filho, me perdi faz uns quatro.

Julio César resolveu a parada e no ano 46 a.C. criou o novo calendário. Esse ano ficou conhecido como "o ano da confusão" porque tinha um erro de 432 dias. Como o erro acumulado era enorme, os meses se sobrepuseram e o Ano Novo passou para Janeiro. Daí que setembro em diante saíram do lugar. Ei! Ninguém pensou em mudar os nomes? Passar setembro para novembro? Pensou. O Senado alterou o nome do mês quintillis (que agora não era o quinto, mas o sétimo) para Julius, em homenagem a Julio César, 31 dias. Quando Augusto César teve que fazer nova reforma no calendário em 8 a.C. aproveitou para colocar seu nome no mês sextillis e o chamou de Augustus (Agosto). Mas como tinha 30 dias, puxou um diazinho de fevereiro para ficar igual ao de Júlio César, fevereiro ficou com 28. E você meu amigo, que achava que empregar parente era uma sacanagem...o cara roubou um dia do calendário. Esse era profissional.

No Renascimento o Papa Gregório alterou tudo outra vez. Reduziu o ano para 365 dias e criou o ano bissexto, pois a cada quatro anos perdemos um dia (o ano tem 365 dias, 5 h 49 minutos e 12 segundos). Esse é o calendário que usamos hoje. Mesmo que 4 vezes o tempo perdido seja menos do que 24 horas...vai entender.

Agora, pense comigo. Einstein disse que o tempo não existe, é somente a maneira que tentamos explicar a vida (ou coisa parecida). A cada quatro anos recuperamos um pedaço do tempo, mas não comemoramos o Ano Novo 5 horas mais cedo no primeiro ano seguinte ao bissexto! Como disse Veríssimo (ou foi o Quintana?) contamos em anos porque é menos chato do que contar em dias. Além disso ainda teve um Calendário Positivista, do Auguste Comte (os meses tinham nomes de grandes homens da história, e cada dia tinha um homenageado. Ainda bem que não pegou: Eu nasci em Sócrates, no dia de Plutarco...), e ainda temos o Ano Judeu, o Ano Chinês, os Anos Muçulmanos. Daí que concluí que não preciso mesmo ter resoluções de Ano Novo. Vou ter resoluções pela minha própria lei, nos dias que quiser, se quiser, e contar os dias do jeito que eu achar divertido. Essa semana comecei a fazer academia. Meu Ano Novo já começou. E o seu?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Crepúsculo II

Se você caiu neste blog procurando algo sobre Crepúsuclo, a saga, vá para http://www.intrinseca.com.br/crepusculo/serie/serie.php . Senão, fique por aqui e leia.
Vou voltar para o Kafka. Quando ele era vivo, vendeu pouquíssimos livros. Chegou ao cúmulo de ter uma edição completa de seus contos vendida como papel para reciclagem. Por sorte, o cara que comprou resolveu guardar três livros, e um deles veio parar no Brasil e está exposto no Rio. Não são poucos os exemplos deste tipo. Depois do evento da livraria (leia o post Crepúsculo, abaixo deste) fiquei pensando em todos esses escritores que escreveram obras que se tornaram lendárias, e se eles teriam a mesma oportunidade nos dias de hoje. Não que eu não concorde que Stephenie Meyer tem talento. Tem. Assim como Sidney Sheldon, Ken Follet, Marion Zimmer Bradley, J.J.Benítez, Nora Roberts e muito antes Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Ian Fleming. O problema é que esses escritores basearam suas carreiras em uma única história contada de diferentes maneiras. Não é bem o caso da saga Crepúsculo (qualquer semelhança com Romeu e Julieta...), mas não dá para dizer que não é o caso dos demais. Sidney Sheldon tem uma mulher sofrida que enriquece e se vinga de um homem, vingando todas as mulheres do mundo em todos os homens. Ou o contrário. Agatha Christie tem um suspeito preferido que não é o culpado. E por aí vai. Em um mercado editorial de alta copetitividade, J.K.Roling que criou Harry Potter teve seus originais devolvidos sem edição 15 vezes. Fico pensando em quantas devoluções Truman Capote teria com A Sangue Frio, ou Bonequinha de Luxo (aliás, escreva Bonequinha de Luxo no Google e você vai encontrar 122 mil resultados, a maioria falando sobre o filme, como se o livro nem existisse). Pense em Goethe e Fausto, quem ia querer comprar um livro de um cara que achou um cachorro negro na rua e levou para casa? bem...este talvez funcionasse, se tivesse um labrador preto na capa, correndo na chuva com as orelhas para trás. E Tólstoi? "Todas as pessoas felizes se parecem. As infelizes, cada uma é infeliz à sua maneira". Se bem que as histórias em si já existam, cansa ler tudo de novo em outra ordem, mesmo que Madame Bovary, de Flaubert, pudesse ter sido escrito por Sidney Sheldon (perdoem-me, eu não sei o que digo), ou A mulher de trinta anos pudesse ter sido escrito por Marta Medeiros (perdoem-me muito mais), ainda asism é demais. Quando eu tinha uma locadora de video com meu irmão, as crianças adoravam alugar sempre o mesmo filme. Os adultos achavam isto estranho, mas se você parar para pensar, vai ver que as séries literárias são exatamente assim. No fundo temos medo do desconhecido. Medo de tentar e errar em uma sociedade da informação baseada na chance única e no acerto a qualquer custo, que não consegue entender que errar é uma das maneiras de descobrir como fazer certo. Assim fica mais fácil sofrer com a mocinha de Ken Follet, ou com um self-made man de Sheldon, é como ter certeza de que no fim tudo dá certo. Difícil é encarar Holly Golightly tendo uma overdose, Gregory Sansa virando inseto, Gatsby morrer de tristeza sem nada mais para conquistar ou Fausto tentar recomprar sua alma por amor à sua amada. Faz a gente pensar. Pobre Heminghway, pobre Kafka, pobre Balzac, nos dias de hoje teriam que escrever "O que aprendi com a câmara de gás", "Metamorfose - seu caminho para o sucesso", "Sou mulher! - Porque ter trinta anos não é crime". Salve a literatura universal!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Crepúsculo

Se você caiu neste blog procurando algo sobre Crepúsuclo, a saga, vá para http://www.intrinseca.com.br/crepusculo/serie/serie.php . Senão, fique por aqui e leia.

No final de semana fui numa dessas megalivrarias comprar um livro. Isso mesmo, podia ter ido na livraria comprar um computador, um mouse, uma TV de LCD, um som, um GPS, jogos para PC ou mesmo um livro. Fui pelo livro. Não tenho nada contra super-hiper-ultra livrarias, desde que elas não percam a noção do que são em essência. Perguntei para a menina que me atendia sorridente se ela podia procurar no sistema um livro sobre a vida do Kafka, não lembrava o nome, nem o autor, nem a editora, mas sabia que tinha Kafka em uma das palavras do nome. Ela me olhou apreensiva e hesitante tentou teclar no computador.

CA...

- Não, interrompi. É Kafka com K.

Mais uma tentativa. KAC...

Achei que não estávamos indo bem. Algumas pessoas em Brasília costumam não entender meu sotaque, por isso até parei de falar três e dez e agora digo trêis e déis. Tentei ser mais claro, carregando no sotaque fabricado.

- Kafka, como o escritor, com dois Kas.

Achei que assim, numa livraria daquele tamanho, vendendo livros, seria mais fácil ela entender. Kafka, o escritor.Sabe?
KAFIC...

- Não, não! eu ficando impaciente. Com K e depois K de novo, escritor da Metamorfose, O Processo, sabe?

A menina, coitadinha, nervosa diante do teclado, com medo de errar mais uma vez e até com medo de mim, contratada para as festas de final de ano, sem a menor idéia de quem era o tal de K-sei-lá ou do que escrever, me olhando de lado, arrisca outra vez. KKAFI... Eu desisiti.

- Olha, deixa que eu digito prá você... de saco cheio e louco para ler o livro, mas sem nenhuma esperança. Enter.
- Não tem.
- Hum...eu, ironicamente...Mas Crepúsculo tem né?
Ela abriu o sorrisão...
- Tem!Todos!
Crepúsculo, da saga Crepúsculo (Twilight) de Stephenie Meyer ela conhecia bem e tinha. Uma pilha na entrada da loja, com bonequinhos de plástico do Edward e da Bella. Me ofereceu os outros também, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer e com uma alegria contagiante de quem ia vender todos para aquele cara que tinha um sotaque estranho e procurava um livro que ninguém conhecia.
- Obrigado, não vou querer, não.
- Mas são ótimos.
- Sei...ouvi falar.

*** Esta postagem continua em Crepúsculo II, aí em cima. Antes disso, não pense que eu não gosto da série, não tenho nada contra, não me xingue. Nem quero ser intelectual ou intelectualóide, é só uma constatação. Ah, e eu também leio livros de grande popularidade, uma vez só, é verdade, mas leio. ***

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Álvaro Siza em Porto Alegre - Fundação Iberê Camargo




Álvaro Siza é considerado o mais importante arquiteto português da atualidade, com uma obra cuja principal característica são os volumes limpos e ângulos acentuados. Quando eu era Conselheiro da Câmara de Arquitetura do CreaRS, fui um dos caras que defendeu a emissão de licença para o Álvaro Siza projetar a sede da Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre. Passados muitos anos, visitei a obra. Eu estava certo.
O prédio da Fundação é realmente uma obra de arquitetura de qualidade. Por fora, é praticamente um monobloco de concreto branco, com linhas super-retas e pontes que projetam sombras sobre a própria estrutura, em um desenho que se altera permanentemente nas paredes, movido pelo sol. Engastado em uma ribanceira, aproveita o recorte da via para se encaixar e desaparecer. Internamente, um espaço grandioso e amplo, com um percurso de circulação vertical propositalmente projetado para explorar as visuais nos momentos em que não se tem contato com as obras.


Ao estilo do Guggenheim de NY, o prédio de Porto Alegre está estruturado por rampas. Mas diferente da crítica que FLW recebeu, no de Siza as rampas são somente percurso para circulação. Aí que começa o espaço fluído e interessante. O arquiteto nos convida a entrar no Museu e seguir até o último andar em um elevador para depois descer apreciando cada ala de exposição e a edificação. De largada, o grande vão central impressiona. Como é possível ser tão grande por dentro e tão pequeno visto de fora? Não é possível. O truque está na qualidade da volumetria e na proporcionalidade que o arquiteto persegue, o que faz o prédio parecer pequeno na relação com a cidade, enquanto - na verdade - é muito grande.
A mistura de madeira clara e branco é insuperável, e a própria caixa interna do elevador nos prepara para a surpresa da mudança de material logo na descida do último andar. A partir daí são surpresas e surpresas.


No percurso das rampas há um estreitamento e depois uma abertura de visuais, bem como aprendemos nos livros de Kevin Lynch. Surpresas. Inconstâncias. Qualidade. De quando em quando, no descer da rampa, uma única abertura para o exterior emoldura as melhores visuais da cidade se alongando sobre o Rio Guaíba. No teto das circulações surgem clarabóias circulares, através delas vislumbramos os detalhes construtivos mais interessantes, especialmente pensados por Siza. Há um contraponto impressionante entre o natural (representado pelas janelas voltadas para o Rio) e o construído (as clarabóias voltadas para a edificação).

Os espaços de exposição também são excelentes, praticamente iluminados por iluminação natural de forma difusa (e se estou enganado e não é luz natural, então a iluminação é ainda mais perfeita). Para arrematar, uma espécie de moldura nos deixa ver de dentro do museu um pedaço da ribanceira lá fora, muito verde e viva, contrastando fortemente com o branco luminoso do interior, numa composição que me lembrou muito o pátio do Moma em Nova Iorque (Phillip Johnson), quando se está na fila da cafeteria.











No geral, a obra mantém a assinatura de Siza, o grande volume de cor clara, imponente e encaixado, coisa que o mestre sabe fazer como ninguém, veja-se o exemplo de Santiago de Compostela (Centro Galego de Arte Contemporânea), ou a exploração da horizontalidade como na Expo98 em Lisboa, duas de suas obras mais emblemáticas.
No final, vale lembrar do interesse pelo detalhe de cada visualização, cada ponto por onde vai passar o usuário, o interesse essencial na construção equilibrada, na linha reta contracenando com a linha curva, na surpresa. Que pena que a arquitetura, na esteira da falta de fundamento, vai perdendo aos poucos aquilo que de melhor sempre tivemos, a inventividade consistente, a beleza plástica e o encantamento. Tive oportunidade de visitar a Fundação com três pessoas leigas e me encantei em perceber que elas reagiram à obra exatamente como Siza deve ter imaginado, com interjeições nos momentos certos, parando para fotografar os grandes quadros naturais recortados no concreto, se impressionando pelo vão enorme e reconhecendo, outra vez no lado de fora, a perfeição do prédio encaixado no morro. Arquitetura é assim, simples assim, feita para ver, usar, sentir, vivenciar. Porto Alegre agora é do mundo. Siza é nosso!

PS. Desculpem-me se não falei da obra de Iberê, mas sou leigo demais no assunto. Só o que sei são das séries de carretéis e bicicletas, aprendido como resultado de parte do trabalho de graduação da Aline, que sempre tem paciência em tolerar minha permanente ignorância em artes plásticas contemporâneas.

sábado, 24 de outubro de 2009

O buraco negro lá em casa

Isaac Newton formulou a Lei da Gravidade. Basicamente disse que uma coisa muito grande atrai outras coisas menores. Mas foi Einstein quem me explicou que o Universo é como um colchão macio. Se você colocar bolas pesadas em cima dele e depois largar bolinhas menores, as menores vão rolar na direção das maiores. As coisas que vemos são resultado da luz que reflete nelas e volta para nossos olhos. Um Buraco Negro é uma coisa que existe no Universo e é tão grande que atrai todas as outras coisas que existem ao seu redor, inclusive a luz, e por isso não conseguimos ver eles (mais ou menos...porque o Hubble é meio como o Google e 'tudo vê'). Lá em casa tem um Buraco Negro.
Não que isso seja um privilégio meu, toda casa que se preze tem o seu. É aquele lugar que atrai todas as coisas que não tem utilidade nenhuma, mas que sempre guardamos. Quando eu comecei a trabalhar recebíamos documentos das operações de câmbio fechadas com importadores e exportadores. De vez em quando chegava um papel que ninguém sabia o que era e colocávamos ele numa gaveta que apelidamos de 'bota fora mas não rasga'. Foi meu primeiro Buraco Negro profissional. Muitos outros vieram em seguida, mas o lá de casa continua sendo o mais bem elaborado de todos.

Nesse fenômeno da vida doméstica cotidiana é possível encontrar de tudo. Ali tem uma caneta que não escreve, incenso, cartões de visita, baralho, fio dental, contas pagas no débito automático, cartões de embarque, um extrator de grampos, uma caixa de balas de goma que comprei na ONU. Tem negativos de fotografia, duas cartelas de Neosaldina, um crachá de congresso, oitenta centavos de Euro, um cubo de acrílico com Jesus dentro (?), um rolo de filme para máquina fotográfica, agenda telefônica de bolso, mais contas pagas. Um pacote de lenços de papel inutilizados pelo cheiro do incenso, duas pilhas, fita crepe, uma máscara contra gripe, carregador de celular para carro, quatro chaves de fenda muito pequenas. Tem também sobras de algum evento como lembrancinha do primeiro aniversário de não-sei-quem, um adaptador de tomada, um pedaço de fita de presente, CD gravado e a carteira de vacinação do meu cachorro Frank. Moedas, lápis, caixinha vazia. Lindo, um pequeno universo em formação. Se Tom Hanks tivesse ficado preso na ilha do Náufrago com meu Buraco Negro, ia viver muito melhor.
Agora comecei meu projeto pessoal individual de Buraco Negro em uma pequena gavetinha de minha escrivaninha na sala. Por enquanto está apenas começando, mas antevejo que em breve terá vida própria, meu pequeno buraquinho se tornando um terrível sugador de coisas sem utilidade. Mal posso esperar. O Universo também é aqui!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Bruce Gomlevsky é Renato Russo

"Bom, eu sou o Renato, eu escrevo as letras, eu canto. Nasci no dia 27 de março de 1960...que que eu posso falar de mim...gosto de comida tailandesa, gosto de arroz, feijão, bife, batata frita como todo mundo. Gosto de tangerina, morango, maracujá. Sou batizado pela igreja Ca´tólica Apostólica romana, não pratico, mas tento. Acredito muito na espiritualidade das pessoas. Não gosto de dentista, música de elevador, fila de espera nem de gente falsa ou sem criatividade. Gosto muito de cinema. Adoro cinema! Atualmente ando preocupado com uns boatos de que a terceira guerra mundial pode começar ...Tem gente que acha que eu sou inteligente. Tem gente que acha que eu escrevo bem. Tem gente que acha que eu sou um rebelde. Tem gente que acha que eu sou uma farsa. Não se pode agradar a todos."
Assim começa a peça Renato Russo. Daí para a frente Bruce Gomlevsky (ator da peça) começa a cantar Perfeição, do Legião Urbana (lembra? Vamos celebrar a estupidez humana...). A primeira sensação é um misto de espanto com tristeza, parece que aquele cara ali em cima é mesmo o Renato Russo! e a gente começa a se dar conta de que não pode ser porque o cara está morto, uma coisa que nem sempre se percebe quando um cara de grande expressão morre, pois o trabalho e o nome dele estão sempre presentes na mídia. Mas com o andar da peça a gente percebe as diferenças de timbre e movimentos e entende que Bruce está mesmo interpretando um personagem. E se essa era a intenção, comigo deu muito certo.

Gostei muito da peça. Um monólogo ilustrado com músicas que retratam cada momento de sua vida. Mescla cenas superfortes e emocionantes com trechos de entrevistas cômicos ou ultraintelectuais. Tudo com base em uma profunda pesquisa faz a gente acompanhar a trajetória de Renato. Para completar, a banda Arte Profana (5 músicos que antes eram uma banda cover)preenche os melhores momentos tocando perfeitamente as músicas do Legião. A banda fica parcialmente escondida por um telão semitransparente onde imagens vão sendo projetadas durante as músicas e monólogos. Uma montagem muito legal sobre um cara que tinha uma banda que me embalou nas noites de Taj Mahal em Porto Alegre nos anos 80 e 90.

Bruce Gomlevsky é ator e já trabalhou em filmes e programas de TV brasileiros. Na vida real é um cara louro e de olhos azuis, bem diferente de Renato, mas sobre o palco, com as roupas, óculos, o cabelo pintado de preto e os gestos (veja na foto ele natural e caracterizado), acaba nos fazendo acreditar que o outro está ali. Se você tiver a oportunidade não perca, é muito bom, e olha que eu sou um cara muito chique, acostumado com a Broadway. Aqui, Bruce é Renato!

Para ver mais, visite http://www.youtube.com/watch?v=idZJ52-GP6I o audio não está tudo isso, mas vale.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Gripe suína, meningite e o buffet onde eu almoço

Vamos combinar que é mesmo nojento. Digam o que quiserem, mas comer em buffet é nojento. Estou numa daquelas fases em que tudo me dá nojo e fico tentando pensar em outra coisa quando estou na fila da comida, mas não consigo. Quando o Fantástico tinha aquele quadro do Doutor Bactéria, eu saía da sala para eu não assitir. Se visse, passava uma semana comendo quase nada e lavando as mãos histericamente o tempo todo e olhando a parte de baixo dos pratos do restaurante, copos contra a luz (aliás, jamais faça isto se você não quiser ter más impressões).

Santo Álcool Gel 70%!
Com a gripe suína foi o que me deixou um pouco mais tranquilo. No primeiro resfriado que tive durante a gripe suína, achei que estava contaminado. Mas á noite, no jornal, falaram de um surto de meningite em Brasília, e comecei a sentir o pescoço endurecer, deixando a gripe de lado. Foi até bom para mim. Com o tempo me acostumei com a idéia da gripe e como até a OMS desistiu de contar os casos, desisti de me preocupar. Eu sou assim, li que a origem da palavra hipocondríaco está relacionada com uma pessoa que tem cuidado com ela mesma, o que é um sinônimo de sabedoria. Mas confesso que buffet é uma cisma antiga.

Hoje na fila do lugar onde eu almoço quase todos os dias, uma menina espremendo espinhas no braço do namorado. Tenha a Santa Paciência! Já li que isto é uma aflição feminina por não ter pênis e precisar arrancar partes dos homens para compensar, mas não vou aprofundar este tema para não desestabilizar antigas amizades. Mas tirar espinha na fila do buffet? Outra começou a passar a mão no cabelo comprido que ela lava com xampu sei-lá-o-quê, e os cabelos quebradiços dissolvidos deviam estar se espalhando pelas saladas. Um cara três pessoas na minha frente tinha caspa. Deus que me perdõe. Mas faz duzentos anos que existe Denorex e o cara tem caspa... e vai almoçar no mesmo lugar que eu. A partir daí vi de tudo, era como se estivesse em um trem fantasma de buffet, uma montanha russa de nojeiras imperceptíveis na falta de atenção do dia a dia. Até um cara coçando o saco por dentro do bolso da calça de tergal eu vi. Primeiro: coçar o saco por dentro da calça todo mundo vê, e só quem coça acha que está enganando todo mundo. Segundo: depois ele ia pegar a colher do arroz com aquela mesma mão. Além disto tudo, ainda tem as pessoas falando por cima da comida, e aquelas que se debruçam para se servir do prato lá de trás. Sem contar o que acontece na cozinha, longe dos olhos, longe do coração. Acho que eu precisava compartilhar esta postagem como uma terapia de grupo. Amanhã tem mais, deliciosas refeições em comunidade. Que venham as bactérias!

sábado, 3 de outubro de 2009

Vou bem, obrigado.

Quando eu era criança lá em Porto Alegre, a gente chamava bergamota de vergamota. Quem falava bergamota era gente metida. Também chamava Fusca de Fuca, e depois de um certo tempo, falar Fuca virou coisa de mendigo e favelado. Não podia comer melancia com uva, melancia com coca-cola e nem pêssego com leite. Considerando que melancia e uva tinham a colheita na mesma época, a gente tinha que escolher. Cada vez que meu pai chegava na casa de praia com uma bacia de uvas colhidas na parreira do meu avô era um Deus nos acuda...aquele cuidado extra para não morrer, com o perigo de misturar uma fatia de melancia gelada (colocada para boiar no tanque desde de manhã ) e um cacho de uva. Sem falar em manga, que na época só quem tinha experimentado era quem ia para o nordeste, de avião. Avião, aliás, era uma barbaridade. Uma passagem custava muito caro, e eu mesmo só fui andar de avião com 24 anos. No avião serviam uma refeição de verdade, e tinha gente que adorava voar a trabalho para comer no avião. Hoje eles atiram na gente quatro biscoitos recheados, um copo de guaraná e duas balas Sete Belo. Quando a gente tinha que fazer um trabalho escolar (que se chamava de "fazer o tema") precisava de uma enciclopédia. Barsa, Mirador, Conhecer ou Delta-Larrousse custavam carísssimo e eram sonho de consumo. Quem não tinha enciclopédia em casa precisava ir na biblioteca do colégio (que hoje chamam de "escola") e consultar lá. Copiava os textos em folhas de papel almaço pautadas...pense bem. Se a criatura errava uma palavra tinha que riscar por cima e escrever de novo (o que era abominado pelos professores), ou tentar apagar com uma borracha Mercur metade vermelha e metade azul, depois de cuidadosamente molhar com a língua um pedaço da parte azul (para apagar caneta). Quando o papel não furava por conta do atrito, tudo certo. Depois ainda tinha que tirar xerox (que hoje chamam "fotocópia") de uma foto da enciclopédia, recortar, colorir (que hoje chamam "pintar")com lápis de cor ou hidrocor (que hoje chamam "canetinha") e colar com cola Tenaz, nem tinha cola em bastão ainda. Aprendíamos que o Brasil era um país do Terceiro Mundo, "deitado eternamente em berço esplêndido". Hoje o Brasil é a maior economia da América Latina, uma das 10 maiores do mundo, suas dívidas com o FMI podem ser pagas pelas suas reservas, tem uma das mais respeitadas forças de paz do mundo, é sustentável em termos de petróleo e tem as maiores reservas naturais de floresta e água do planeta. Nos últimos 8 anos resgatou mais de 30 milhões de pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza e alavancou 21 milhões de pessoas pobres para ingressar na classe média, intermediou conflitous na América do Sul, Central e no Oriente Médio. Além de tudo, os jogos olímpicos de 2016, uma espécie de pacto social para a reconstrução do futuro do Rio de Janeiro. Meu Presidente vai bem, obrigado. O Brasil é aqui!

Foto: esportes.terra.com.br/galerias/0,,OI109157-EI1137-FI1332988,00.html

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Já é Natal! (15 de setembro de 2009)

Ontem vi na televisão o primeiro comercial de Natal. Sério. Nem bem terminamos o 7 de setembro, já entrou uma propaganda de Natal. Ei! Esperem, ainda tem o Dia das Crianças! Que nada, os caras não querem nem saber, é um tal de Papai Noel Apressado. Coitado do Papai Noel, nem bem teve tempo de terminar os brinquedos e entrou nessa roubada de aparecer em um comercial em setembro. Nos anos anteriores, passava um pouquinho do 12 de outubro e as lojas começavam a artilharia de Natal, mas este ano, com crise internacional e aquecimento global, o negócio é mandar bala desde já e começar a correria do fim do ano quatro meses antes. Quanto antes melhor. Mais tempo para me convencerem de que se eu não der presentes que eu não posso pagar para pessoas que não querem ganhar presentes de mim, eu não sou um cara legal. Depois ninguém sabe porque parece que o tempo passa mais rápido hoje em dia.
Nessa nova forma de viver, quase não percebemos o momento atual. Em Excalibur, o Mago Merlin falou para o Rei Artur que o futuro era como um doce, e só se pode saber o gosto dele depois de provar, só que aí, pode ser tarde demais. Artur não quis nem saber, pegou o bafo-do-dragão de Merlin e seduziu a Morgana, depois pagou caro, porque o filho deles se voltou contra ele e quase destruiu o mundo. Se Merlin vivesse nos dias de hoje ia dizer que o futuro é um doce meio comido. Sabe como é? Aquele mil folhas que a gente come metade porque é doce demais e parece que os dentes vão cair, corta um pedaço e mete o resto na geladeira para outra hora? Bem assim.

Não conseguimos mais viver no dia de hoje. Nossos compromissos são marcados com antecedência cada vez maior, então a vida passa de expectativa para expectativa, sempre pensando no próximo momento, no próximo aniversário, nas próximas férias, no próximo feriado, na roupa de amanhã, no que fazer com o próximo salário. E quando o próximo chega, já virou história. O presente acabou.

Viajo toda semana de Brasília para Belo Horizonte e volto. Mais ou menos uma hora de voo. Se eu fosse uma criança de uns seis anos ia pensar que o aeroporto de BH é dentro de Brasília, um cilindro mágico onde eu entro e quando saio o mundo mudou. O resto desaparece. Na esteira da velocidade e do deslocamento, tudo o que existe ao redor vira nada. Não há cidades, não há pessoas, não há atração. Só duas capitais que se encontram por intermédio e um cilindro com asas. Quando entro no aeroporto, espero o embarque, quando embarco, a decolagem. Quando voo, a aterrisagem, e assim por diante. Sempre olhando para a frente e adiante, como no dia a dia com nossos compromissos, e os momentos vão passando por nós numa velocidade assustadora. O mundo não quer mais o agora, quer o amanhã, e amanhã, vai querer o depois. Agora mesmo, que comecei a encerrar este post, já estou pensando na próxima postagem. O futuro foi aqui!
foto: alfredoonline.blogger.com.br - Alessandra Ambrósio

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O comprimido na minha quadra

Eu conheço uma pessoa que adora pessoas fantasiadas.
Não uma fantasia comum, mas dessas fantasias em que a pessoa fica enorme e tenta simular uma criatura de desenho animado, um bicho ou um cachorro quente, uma garrafa ou uma televisão. Toda vez que estou com ela e ela vê alguém fantasiado ela tem que ir até a pessoa para dar a mão, ou tenho que dar a volta para ela voltar e ver de novo. E lá vamos nós, tudo para uma abanadinha para o fantasiado.

Outro dia saí de casa e caminhando na quadra dei de cara com um comprimido. Não um comprimido no chão, mas um cara vestido de comprimido. E lá vou eu, buscar pão as nove da manhã de sábado, e lá vem ele, o comprimido. Foi uma situação constrangedora. Primeiro porque não existe um motivo lógico para alguém se fantasiar de comprimido; segundo, porque estávamos só nós dois, em direções opostas, na mesma calçada de três metros de largura.Se caminhar em direção a outra pessoa em uma rua onde você não tem para onde olhar, as vezes é constrangedor, imagine caminhar em direção ao comprimido.

Andar fantasiado pressupõe algumas qualidades, você deve estar disposto a ouvir piadinhas, a ser simpático com todos, então, o mínimo que eu poderia esperar do comprimido era um pouco de profissionalismo, que fosse simpático e me cumprimentasse. Ele era vermelho, da cintura para cima, com calça leg azul e pés enormes almofadados. E eu. Se você não sabe, sou um cara muito envergonhado. No começo fingi que não estava vendo, mas não tem como não ver uma almofada redonda em forma de comprimido com um metro e meio de diâmetro a vinte metros de você. Depois, assumi um ar cool, de cara descolado que já viu tudo na vida, e comecei a ignorar a fantasia. Também não deu certo, porque me senti um lunático que não diferencia o que é real do que é uma alucinação. E então tive um breve surto que durou alguns segundos, diante da possibilidade de estar realmente ficando maluco ou mesmo de ainda estar dormindo e tudo ser um sonho estúpido. Quando cruzei pelo comprimido já estava disposto a acenar um sorrisinho básico do tipo "ok, você está ridículo, mas afinal, isto é somente um trabalho", quando o comprimido abaixou a cabeça e começou a ler um panfleto. Não era possível. O comprimido estava me ignorando!

Continuei caminhando, nos cruzamos, e dei uma olhada para trás. Ele não lia mais. Parei na calçada, nada. Eu não existi para ele. Talvez no universo dos comprimidos eu fosse uma coisa estranha fantasiada de pessoa, andando de manhã cedo pelo meio da rua.

Voltei para casa peguei o carro para ir a algum lugar. Claro, acabei dirigindo ao redor da quadra porque queria ver o comprimido de novo, mas nada. Do jeito que o mundo é estranho, ele deve ter sido engolido por alguém fantasiado de ogro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Teoria Universal da Perversidade dos Materiais

Em algum lugar fica alguém que decide como as coisas vão acontecer. Chame de Deus, destino, acaso ou o que quiser, mas essa coisa tem mesmo esse poder todo. Não fosse assim, quando eu comprei o edrédon porque fazia um frio desgraçado em BH, o frio teria durado pelo menos mais de três dias, o que não aconteceu. Quando eu comprei um guarda-chuva, parou de chover. Mudei para um apartamento no décimo andar, sem ninguém em cima para perturbar, e tem uma zona do outro lado da avenida perpendicular à minha rua e o barulho vem todo parar na minha sala (no bairro mais nobre de BH), a gente compra passagem para o último vôo e atrasa, compra para o primeiro e não tem teto. Alguém, alguma coisa, em algum lugar decidiu que nessa hora, nesse dia ou nesse ano, você iria se dar mal. Isso já aconteceu com todo mundo, chame de azar, falta de sorte, coincidência, mas eu tenho certeza que é proposital. A máquina de lavar que funciona quando chega o técnico, a TV que volta ao ar quando chega o cara do cabo, sua caneta que não escreve quando você precisa anotar o telefone, a bateria do celular bipando, a fila no trânsito que não anda, o papel higiênico que desapareceu, a roupa perfeita para o evento que está suja, o gás que acaba, o tomate que falta para o molho, a farinha do churrasco com bichinhos dentro ou o ovo para o omelete. Isso não pode ser coincidência, faz parte de um grande plano universal para tornar a vida das pessoas mais selvagem, um plano chamado Teoria Universal da Perversidade dos Materiais. É ele quem faz desaparecer sua chave dentro da bolsa, a caneta de cima da mesa, sua carteira quando você sai de casa atrasado, o congestionamento porque um cara esqueceu de colocar gasolina, o elevador estragado, o grampo do grampeador que acaba, o papel do xerox que entope, o computador que trava, os táxis que desaparecerem, a chuva que para, a chuva que começa. Tenho certeza de que existe um exército organizado e impetuoso por detrás disso tudo, elaborando, articulando, projetando, planejando para tornar pequenos eventos cotidianos em infernos permanentes. Mas de tudo, nos resta aceitar, procurar as chaves, sair em busca do gás, desistir do omelete, encaixotar o edrédon. O universo é aqui.