quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ressonância Mórfica

OK. Eu também não entendo.
Parado na sinaleira (dentro do táxi, porque não tenho carro em BH), um argentino com o rosto pintado de branco e uma roupa preta desbotada joga fogo pela boca. Não seria estranho se fosse pelo fato de ele ser argentino, mas é estranho pelo fato de ser em BH. Em um outro sinal, meninos tentam lavar o párabrisa do táxi com aquela mistura de água e sabão. Em Nova Iorque, vi um mendigo que fazia malabarismo com calotas de carro...ou será que foi no Rio?
"Eu podia estar roubando, matando. Mas estou pedindo". Ouvi isso no metrô no Rio, ou será que foi na Rodoviária em Macapá? Não lembro mais. A globalização tomou conta dos miseráveis espalhados pelo país e pelo mundo. O que me impressiona mesmo é que estas pessoas muito pobres têm pouca mobilidade geográfica. Um menino de rua em Porto Alegre vai viver lá para sempre, exceto os argentinos e bolivianos, que adoram vir para o Brasil cuspir fogo ou tocar flauta, o restante são pessoas que não se movem. Daí a pergunta, se não se conhecem, como que reproduzem exatamente as mesmas técnicas de cidade para cidade ao redor do mundo? A resposta, Ressonância Mórfica.
Mórfica vem de forma, formato. Ressonância, de ressonância mesmo. Existe uma corrente científica que acredita que formas vivas semelhantes tendem a reproduzir comportamentos semelhantes em qualquer lugar que estejam, simplesmente porque são semelhantes. A base da teoria está no desenvolvimento da raça humana, em diversos continentes ao mesmo tempo, com pouquíssimas variações, quando nossos antepassados não se conheciam. A teoria também seria a explicação para o fato de adolescentes serem insuportáveis em Bangladesch e Pirituba, Muzambinho ou Paris. Além disto, seria o motivo pelo qual as crianças de hoje são mais sabidas do que nós fomos quando éramos crianças, quanto mais um daquela forma aprende, mais fácil fica para as outras formas semelhantes aprenderem, as formas puxam o desenvolvimento coletivo numa espécie de memória coletiva. Isso explicaria também porque animais selvagens (separados em continentes diferentes) têm os mesmos hábitos de vida. Não dá para dizer que a teoria da Ressonância Mórfica não seja interessante, estudos feitos na Inglaterra mostram que as pessoas que tentam responder as palavras cruzadas de jornal no dia seguinte (sem terem visto a resposta) resolvem os enigmas até 20% mais rápido do que quem fez no dia anterior. Isto porque a memória coletiva do puzzle já estava ressonando pelo planeta.
Não sei se isso funciona assim, mas parece divertido, e explica porque os meninos de rua, mendigos e pedintes agem da mesma forma no mundo todo. è uma pena que a teoria não explique o que fazer para acabar com a pobreza no mundo todo. A ressonância é assim.



foto: olharesnoser.blogspot.com

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O mundo é Lá

Arquivo. Imprimir. Imprimir. Pronto, lá vai o texto para a impressora. Ela bufa, geme, apita, ronca.
Nada de texto.
Jamais.

Todo mundo sabe que temos informações pessoais guardadas em algum e muitos lugares. Nós guardamos fotos no Picasa; frases no Twitter; Emails com textos enormes e powerpoints no Hotmail e no Gmail; músicas retiradas da internet pelo SoulSeek; filmes pelo Emule. Quando precisamos de alguma dessas coisas, não precisamos entrar em pânico, elas sempre estão lá. Mas onde é Lá? Confesso que essa frase roubei de Tom Vanderbilt, escritor do New York Times, num encantador e espetacular artigo chamado Datatecture (algo como Dadostetura, ou os lugares que chamamos de Lá em nosso mundo de informações guardadas a distância). No dia em que alguém recebeu em sua caixa de entrada meia foto que eu mandei pelo Hotmail, fiquei algum tempo pensando em onde vão parar as coisas que temos, ou pior, aquelas que desaparecem entre o computador e a impressora, ou entre meu teclado e a caixa de entrada de outra pessoa, ou mesmo as que simplesmente salvamos clicando sobre um botão laranja (como este post). Quem já passou pela estranha experiência de perder virtualmente uma página de texto entre o computador e a impressora (ou milhares) sabe do que estou falando. Uma antiga amiga costumava dizer que o inferno deve ser um lugar onde a gente está sempre atrasado para entregar um relatório e passa o dia inteiro tentando imprimir em uma impressora conectada em rede. Descobrir onde é Lá passou a ser o meu desafio esses dias.

Meia foto.No nosso novo mundo de virtualidades, Dali seria infantil.

Aprendi num livro que Virtual é o que não está presente, assim, concluí que Lá é um lugar virtual. Lá também é um lugar desconhecido, infinitamente distante, mas paradoxalmente acessível de qualquer lugar. Longe de tudo e permanentemente próximo. Lá eu posso esconder tudo, mas corro o risco de que tudo se torne público, ou posso publicar tudo e jamais ter algo visto por todos. Posso ser conhecido por qualquer um que eu não conheça, ou uma celebridade anônima. Seja onde for Lá, Lá tem que existir, porque no final das contas sempre há uma outra realidade independente por detrás do mundo real, Platão já sabia disso, e por isso acreditava no Mundo das Idéias. Em uma análise superficial, talvez o problema esteja entre o Lá e o Cá, o caminho que liga esses mundos esteja ainda em construção, e tantas mensagens se percam nessa via esburacada, ou fiquem enredadas sem saída na Larga Rede Mundial (World Wide Web).
A Terra era redonda, nos ensinou Galileu. Thomas Friedman escreveu "O mundo é plano", sobre um mundo linear, globalizado e previsível, mas agora começo a suspeitar que "O mundo é Lá".
foto: New York Times

domingo, 9 de agosto de 2009

Highline Park - Manhattan

Em Manhattan as pessoas cultivam uma espécie de "ode ao ócio". Ficar sem ter o que fazer na cidade mais agitada do mundo é praticamente um luxo. Não ter o que fazer, uma dádiva. Poder ficar sentado olhando para o vazio ou para o céu, ler um livro ou simplesmente caminhar com um amigo na velocidade que se quer sem ser atropelado por indianos, chineses, brasileiros, portoriquenhos, judeus hassídicos, católicos ortodoxos, cubanos, sikhs, jamaicanos ou qualquer outra pessoa ou coisa, praticamente uma benção. Por outro lado, um dos desafios do governo da cidade é manter espaços públicos compatíveis com a necessidade dos cidadãos e ao mesmo tempo revitalizar a cidade para cada nova onda de turistas movimentarem a ainda maior economia do mundo. Pensando nisso, surgiu o Highline Park.

Highline significa "linha elevada", uma antiga linha de trem desativada situada aos arredores do Meatpacking District onde ficavam (e ficam) os armazéns de atacadistas de carne. O Meat vem sendo revitalizado, com a nova loja da Apple, muitos bares e restaurantes, e a fuga das empresas de moda do SoHo em busca de aluguéis mais baixos em prédios praticamente destruídos (que já começam a valer milhões de dólares). No Meatpacking acontece a cena final do longa Sex & The City de 2008.

O Highline é uma amostra espetacular de urbanismo contemporâneo de qualidade, recuperando áreas degradadas e reintegrando-as ao uso coletivo, uma aula. As linhas de ferro suspensas foram mantidas e a vegetação, embora tenha sido totalmente projetada para o espaço, dá a sensação de que estamos em meio a um mato crescido entre os trilhos. Em alguns espaços é como se a vegetação estivesse invadindo a área de piso, composta por peças prémoldadas em concreto. As peças do mobiliário urbano mantém a mesma linguagem de desconstrução das áreas de piso, como se o piso tivesse se elevado e criado bancos, bebedouros e luminárias. Nas curvas da Highline surgem espaços para descanso, contemplação, leitura ou simplesmente para visualizar. Uma arquibancada de madeira com uma tela de vidro emoldura a 10st avenue, e todos se sentam surpresos vivenciando a metrópole se movimentar, como se estivessemos em frente a uma tela de cinema, percebendo os movimentos cotidianos de uma perspectiva alternativa. Estonteante, simples e divertido. A antiga linha havia sido demolida em determinados locais dando lugar a edifícios, agora, os edifícios são demolidos e reestruturados para que a linha passe através deles, um exemplo magnífico da capacidade de abrir mão da propriedade individual em benefício do coletivo. O Highline Park é a mais nova atração novaiorquina, urbanismo e paisagismo em perfeita sintonia com a recuperação de áreas degradadas. A arquitetura é assim!












sábado, 8 de agosto de 2009

O Brasil é aqui!

Mis "viejos" amigos Antonio y Manel, y mis "nuevos" amigos Angeles, Quique, Walter, Santiago y Santiago, Luigi, Antonia: el Brasil está ahí! Nos quedamos pronto!


No dia em que completei muitos anos de idade, tive uma festa hispano-brasileira. Meus bons amigos brasileiros Rafa e Lu; mais a Aline, o Antonio Amado e o Manel (de La Coruña) estavam comigo tomando umas caipirinhas na noite do dia 20 de junho. Amado e Manel trouxeram na bagagem outros sete novos amigos da Espanha, professores, arquitetos como eu, que me fazem acreditar ainda mais que a distância e as diferenças culturais são mero acaso, barreiras muito frágeis que podem ser vencidas com a facilidade de um sorriso cordial. Na festa com direito a "parabéns a você" bilíngue (uma rodada de cumpleaños felices num coral de espanhóis) nos conhecemos e entendemos como se fossemos antigos amigos, e tive mesmo a sensação de que um dia nossos territórios não estiveram separados pelo mar, assim como nossas crenças de uma arquitetura social, bela e justa compartilhavam o mesmo espaço. Nos dias seguintes passeamos por Brasília, nessa encantadora cidade planejada, vivenciando espaços e discutindo idéias de arquitetura e da vida, do modo como sempre achei que deveria ser a arquitetura: uma sifonia visual sobre uma pauta intencional, tocada pela vida cotidiana.
Visitamos as obras de Oscar, implantadas no enorme jardim urbano de Lúcio, e foi divertido ver arquitetos de uma formação cultural tão distinta da minha vivenciarem as mesmas sensações que sempre tenho diante das surpresas causadas pelo patrimônio brasileiro. A escala da catedral e sua luz; o espaço fluído do novo museu, com suas pequenas surpresas e as sombras da rampa externa projetadas na cúpula; a brancura da Praça dos Três Poderes; a escuridão do Memorial JK, com sua luz vermelha incandescente, a sombra aconchegante das superquadras, as visuais infinitas onde quase se percebe a geodésica onde chão e céu se encontram. Foi legal perceber o espanto nos artifícios arquitetônicos de Oscar, forçando as perspectivas mais bonitas, derretendo elementos rígidos em curvas sedutoras, trocando cores e aplicando tecidos brilhantes onde deveria haver mármore, granito ou concreto, como na Sala de Jantar do Palácio Itamaraty.

Da varanda do meu apartamento vi um urbanista incorporar o sentido da circulação planejada da cidade; em frente ao Congresso em busca do melhor enquadramento para a fotografia perfeita, um arquiteto deitado na grama. "Espalhados! espalhados!". Numa grande mesa redonda à beira do lago Paranoá, 11 arquitetos trocavam idéias, enquanto Antonio rabiscava imagens de todos nós nas toalhas de papel do bar, ouvimos Manel cantar bossa-nova num sotaque brasileiro inusitado, acompanhando o músico local. Compartilhamos a energia de Angeles, a suavidade de Antonia, a cordialidade de Luis, a instrospecção dos Santiagos. A felicidade é simples. Efêmera, mas simples. Como a arquitetura - que preenche os espaços em branco de minha vida -, os momentos entre amigos são o que preenche as lacunas do que chamamos de cotidiano, um papel infindável onde esboçamos imprecisamente o que desejamos ser. Rir, beber, cantar, dançar, compartilhar. Viver, trabalhar, habitar, recrear. Não há nada melhor do que isto, pena que seja tão difícil perceber o que está ao nosso redor o tempo todo, como a excelência da arquitetura de Brasília ou a espontaneidade e o poder de encantar do povo brasileiro. O Brasil é aqui, graças a Deus!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Bingo do Caminho das Índias

Para participar do Bingo da Novela das Oito - Caminho das Índias - basta você ter paciência suficiente para assistir (como eu) e seguir as instruções abaixo:

1. Reúna a família e imprima uma cartela para cada participante;
2. Marque com um círculo cinco expressões ou situações que você acha que podem ocorrer em um mesmo capítulo;
3. Distribua um punhado de feijão cru, para cada um dos participantes (não importa a cor do feijão);
4. Escolha uma superfície plana ou relativamente plana (para os feijões não rolarem);
5. Sintonize na novela das oito da Rede Globo, Caminho das Índias, e comece a marcar;
6. Ganha quem completar as cinco opções escolhidas primeiro;
7. Mãos à obra, e boa diversão!


















Atenção: Esta atividade requer a assistência de adultos, já que a novela contém temas de:
- abandono de menor (Filhos de Maia e Duda)
- triângulos amorosos (Maia, Duda, Bahuã, Haj, Norminha, Ramiro)
- adolescente contraventor (filha da Sílvia e Zeca)
- esquizofrenia (Tarso)
- amor não correspondido (todos do triângulo amoroso)
- amores proibidos (todos do triângulo amoroso, mais um monte)
- traição marital (Ramiro, Raul, Norminha)
- falsidade ideológica (Raul e pai da Maia que rouba nos pesos da loja)
- psicopatia perigosa múltipla (Yvone)
- mal gosto para escolher roupas (Vera Fischer, por culpa do figurinista)
- estelionato (171) generalizado (advogado pai do Zeca e indiano falso que eu não sei o nome)
- exploração de menores (filha mais nova do Tony Ramos em Bolywood, triângulo amoroso entre crianças)
- violência entre jovens (Zeca)
- apostadores compulsivos (irmão da Maia)
- difamação e calúnia (professora da escola do Zeca)
- feminismo e maternidade (a outra que fez inseminação artificial e não quer o pai por perto)
- pais irresponsáveis (Pai e mãe do Zeca)
- perjúrio (a malvadinha que mora com a Maia, entre outros mentirosos de plantão)
- sequestro (Raul)
- racismo e segregação entre classes, o mais estúpido dos crimes.

Ou seja, uma novelinha leve, para você se distrair todo dia à noite, jogando seu bingozinho. A Índia é aqui!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Viagem à Lua

Ontem fez quarenta anos que o homem foi na Lua. Quer dizer, se é que foi. Não. Não é que eu seja uma dessas pessoas que acredita que isso não aconteceu, mas é um bom assunto para escrever a respeito. Quando eu visitei o Air and Space National Museum em Washington fiquei um pouco apreensivo. Lá está exposta a cápsula do Apollo 11 que voltou da Lua, e - para ser sincero - eu não iria nem até a padaria naquela lata velha, que dirá voltar do espaço entrando na atmosfera e pegando fogo. Me lembro muito bem desse inverno de 1969, um ano triste para o Brasil, mas feliz para mim que adorava desenhar. Fiz milhares de desenhos da Apollo 11 em diversas e complexas situações; decolando com fumaça, decolando inclinada com fumaça, fumaça ao decolar, decolando com fumaça e céu azul. Praticamente o que poderia ser chamado de uma série "Apollo" se eu tivesse ficado famoso, da mesma maneira como chamaram as séries de Picasso "Os touros" ou a fase dos girassóis de Van Gogh. Desenhar a Apollo 11 indo para a Lua era realmente um desafio gigantesco para meus 6 anos recém completados, exigia que eu soubesse o que era um foguete, como ele decolava e principal, e mais difícil, o que era a Lua e onde era a Lua. Não sei se vocês lembram da infância de vez em quando, mas eu tenho certeza que só descobri a Lua quando era adolescente. Minha fonte de inspiração deve ter sido mesmo os Thunderbirds (eu era o número 2) e se você não sabe o que é isso, procure no Google. Independente de minha ignorância artística, o foguete chegou mesmo lá. No museu aeroespacial de Washington também estão os protótipos do módulo lunar que aterrisou na Lua (o original, você sabe, ficou por lá), e mais uma vez, a impressão que tive era de que tinham reformado meu antigo Jeep 66 (meu primeiro carro, mesmo sem capota), colado fita adesiva e enrolado com papel laminado e metido fogo. Uma das coisas que mais me impressionou foi a quantidade de fita adesiva, cheguei a pensar que poderia mesmo ser um truque de marketing americano, e concordar com as centenas de milhares de teorias conspiratórias sobre o tema. Mas revendo os filmes do cinema da época, concluo que não havia tecnologia de propaganda suficiente para aquela superprodução. Depois, tem os cintos de segurança. Praticamente um daqueles cintos de exército que foram moda em certo momento nos anos 80, só que muito mais largo. A roupa do astronauta então...muito vagabunda. O fato é que esqueci de um detalhe importante quando visitei o museu, o equipamento não precisava ser bonito, tinha que ser leve, simples e eficiente, e parece que deu certo. Quarenta anos depois não temos a menor idéia do que fazer com a Lua, continua sendo um pedaço de pedra flutuando (nem tente me explicar como) e influenciando as marés, as colheitas, os lobisomens e outras criaturas das trevas, a sexualidade e os cortes de cabelo. Aliás, sobre os cortes de cabelo sou um pouco cético, sempre usei o método lunar do Capiloton, mas parece que não deu muito certo. A Terra é aqui!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Exame de trânsito

Você estaciona seu veículo em lugar proibido e é multado. Qual sua atitude em relação ao guarda que lhe aplica a multa?
a.Tenta suborná-lo, oferecendo dinheiro;
b.Tenta intimidá-lo, dizendo que ele não sabe com quem está falando;
c.Tenta se fazer de desentendido, alegando que não sabia que ali era um local de estacionamento proibido;
d.Mantém-se calmo, guarda o recibo da multa e retira seu veículo do local.
e.Não fala nada, rasgando o recibo da multa na frente do guarda de trânsito

Pergunta do simulado do Detran RS na página oficial na internet



Minha carteira de motorista venceu. Primeiro, não sei porque chamam de carteira de habilitação se todo mundo sabe que é uma carteira de motorista. Segundo, porque eu tenho que renovar se me deram a carteira na primeira vez? As leis de trânsito mudaram tanto assim? Se fosse cair algum conteúdo de internet ou sobre política internacional, como o fim do Comunismo ou a abertura da China, ainda vá. Mas vai me dizer que os sinais de trânsito mudaram? Claro que não.
Minha carteira venceu e eu estava em Nova Iorque, adoro usar isso como desculpa para o fato de estar sem uma habilitação válida, parece que não é relaxamento ou vagabundagem, mas dá um certo ar formal para a coisa.
"-...pois é, como que ele ia renovar a carteira se estava fora do país? bem razoável ficar com a carteira vencida."
Isso é o que eu imagino, mas difícil é explicar porque ela ficou vencida 13 meses, mesmo eu voltando dos EUA há 8 meses atrás. Bem, para tudo tem uma explicação. O fato é que hoje fui fazer o exame de renovação da habilitação no Detran DF. Escolhi fazer a prova, na verdade só conheço um cara que fez o curso, meu padrinho. Passei o dia estudando em uma apostila que comprei em um CHC aqui perto de casa. No final, na parte de primeiros socorros, comecei a me sentir meio apreensivo, era tanta parada cardíaca e hemorragia, estado de choque, atropelamento, queimadura, perfuração, caco de vidro e sangue, que achei que estava me preparando para ir para a guerra ou para ser plantonista da BR116 ou da Linha Amarela, e não para a prova de renovação de uma carteira de motorista que eu conquistei fazendo exames (depois de rodar duas vezes no exame de direção, é bem verdade). Mas não é só. Se você já fez a renovação deve ter percebido como tem dicas impressionantes na apostila, não posso dizer que não foi proveitoso, por exemplo:
- Não dirija com o freio de mão acionado (pág 12)...
- O carro deve ser abastecido sempre que estiver com pouco combustível;
- A água da bateria deve ser verificada uma vez por semana (! pág. 20)...
- "As tampinhas das válvulas de ar dos pneus não são simples enfeites" (pág. 19)(sic), uau!
- O motor de carro com ignição eletrônica não deve ser lavado, o que me ajudou a tolerar o fato de fazer 7 anos que não lavo o KA;

Lá fui eu para a prova, uma mistura de mecânico, ambientalista, motorista e paramédico, com minha caneta azul ou preta, capaz até de diagnosticar cistite em caso de acidente com vítimas. A prova era feita na mão mesmo, com folhas de papel, e a menina que aplicou a prova, muito simpática e bem preparada, desabafou que deveriam ser três examinadores, mas que os outros dois não haviam aparecido ainda. Fui aprovado com 26 de 30.

De qualquer modo, eu, paramédico, ambientalista, mecânico, motorista e cidadão, já estou preparado para o Vietnã do trânsito brasileiro. Posso voltar a dirigir legalmente meu Ka, quer dizer, assim que ele voltar a funcionar, se voltar.

foto: http://www.humorbabaca.com/

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A sala mágica

Existem lugares no mundo que são mágicos, mas precisam ser operados por pessoas mágicas também. Na casa da minha mãe, em Ipanema, está um desses. Um quartinho pequeno, de três por três, metido em um corredor com um tapete-passadeira, definitivamente uma peça de decoração de casa de vó. Nesse quartinho nasceram coisas espetaculares confeccionadas com tecido, lã e qualquer outro material que fosse preciso. É dessas salas mágicas - que se escondem aleatoriamente pelo mundo - que alguém mágico pode atender a pedidos tão bizarros quanto "vó, preciso de uma fantasia de pizza", ou "amanhã tenho que entregar um trabalho no colégio sobre os Incas". Ninguém deixa de entregar trabalho escolar sobre tema algum do mundo tendo uma sala dessas ao seu alcance, com uma avó capaz de manuseá-la. Dessa sala saíram enxovais completos para recém nascidos abandonados em maternidades ou com mães em extrema pobreza, peças para filhos de reis, que me ensinaram que todas as pessoas são iguais e devem ser respeitadas assim. Dali saíram vestidos de noiva, glamourosos, brilhantes, bordados á mão para noivas em incontida felicidade. Saíram pijamas, blusões, gorros, bandeiras do Inter, mantas, de cores e tamanhos diversos, mas carimbados com o carinho de sempre. Não sou habilidoso em lidar com uma sala dessas, mas vou me esforçando para aprender. Junto de minha mãe aprendi tantas coisas, mas a manusear a sala sempre tive dificuldades. A manusear a sala e a cozinha, confesso. É difícil concorrer com alguém que é capaz de preparar um refeição simples, com 8 pratos, em 40 minutos; encher uma casa de vida em segundos, acender uma lareira instantâneamente. Acho que isso vem pela energia, uma energia tão forte que as crianças a adoram, e com seu olhar firme é capaz de acabar com qualquer baldo. Talvez seja essa energia que a mantém firme, depois de tantas quedas - fisicamente falando - já que o jeito agitado não permite tempo para pensar duas vezes, e a gravidade se torna inimiga ferrenha no piso molhado da cozinha e nas escadas.

Nos dias de inverno, chuvosos e frios do sul, o som da máquina de costura naquela salinha mágica era interrompido por instantes, e surgiam na frente da TV bolinhos de chuva, chocolate, café. Um bolo saído de sabe-se-lá-onde, ou uma cuca de laranja. Também tivemos as fases da torta de maçã e do peteleco, doces de pessêgo em calda, de abóbora e laranja. Considerando a quantidade de comida que minha mãe fez nesses anos em que morei com ela, eu deveria pesar uns 300 quilos. Apesar da praticidade, sempre foi minha parceira para filmes, por um tempo fomos fãs de terror, encolhida no sofá ou esticada na poltrona, procurando os óculos nos cinco primeiros minutos do filme, coisa que sempre me irritou e que - por motivos de DNA - eu repito sem perceber.

Mas nem tudo são flores. Há também uma personalidade forte, a qual o DNA outra vez me delegou um igual, mas um coração enorme e uma bondade avassaladora, que as vezes me irrita, porque sei que nunca conseguirei ser assim (e então o DNA me traiu). Minha mãe é um cochilo na frente da TV assistindo Friends, seu pé-ante-pé a noite para ver se estamos dormindo, um bife Argentino, um pote de vidro cheio de chocolates durante o jogo de futebol e o dinheiro escondido dentro da Bíblia. A amabilidade com meus amigos, a adoração pelos netos, a parceria no restaurante com meu irmão, o amor por meu pai. Não pensava em escrever outra vez sobre minha família (já estou me sentindo invadido) mas não posso deixar passar em branco esse dia, 19 de julho, Dia Internacional do Futebol, por um desses mistérios da vida, aniversário de minha mãe. Dona Lygia, eu também te amo. Feliz aniversário.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Insetos comestíveis

"De todos os insetos alados, que caminham sobre quatro pés, vocês só poderão comer aqueles que, para saltar no chão, tem as patas traseiras maiores do que as dianteiras...Os outros insetos de quatro pés serão imundos."

Levítico, 11:22



Pode parecer loucura, mas na Bíblia aparece uma referência direta sobre quais insetos podem ser comidos. Está em Levítico (o Livro das Leis do Antigo Testamento, ou um dos cinco livros conhecidos como Torá), uma lei específica que indica quais insetos podem ser comidos. Eu sei que a gente já viu chineses comendo insetos durante as Olimpíadas em 2006, e que todo mundo ouviu falar disso, mas sempre me pareceu que era uma espécie de excentricidade individual dos orientais impulsionada pelos anos de fome em um país gigantesco como a China. Descobri isso lendo The year of living biblically (de A.J.Jacobs, O ano de viver biblicamente, o relato de um editor que resolveu seguir todas as regras da Bíblia durante um ano), e fui atrás para pesquisar mais. Segundo o Livro Sagrado, não era permitido comer nada que fosse inseto e voasse, mas grilos e gafanhotos eram benvindos. Inclusive tem uma passagem em que João Batista sobrevive um período comendo somente gafanhotos e mel...inacreditável.

Avançando na minha pesquisa descobri que insetos são uma grande fonte de proteínas concentrada, praticamente um composto multivitamínico, e são conhecidos no mercado de comedores de insetos (acredite, existe um mercado internacional disso) como "microlivestock", algo em torno de "micro depósitos de vida", num trocadilho com a palavra "livestock" que é usada para os animais criados em fazendas. Insetos também são conhecidos como "o verde alternativo", para aqueles super-vegetarianos ortodoxos que não podem comer carne de jeito nenhum e precisam de proteínas, comer insetos pode ser considerado um comportamento altamente ecoresponsável. Mais impressionante ainda é que se você acredita que comer insetos é estranho, considerando a população mundial e de acordo com a National Geographic, você faz parte de uma minoria cultural. Insetos são considerados por muitos entomofagistas (especialistas em insetos comestíveis) como a comida do futuro, existem mais de 1400 espécies comestíveis e. Comparando 100 gramas de grilos com um bife, os grilos têm metade das calorias e o dobro das proteínas.

Na internet você pode encontrar cardápios completos de insetos, basta digitar "eat bugs", "edible bugs" ou "Fluker´s Farm" (preste atenção no Fluker´s porque além de vender insetos para comida humana eles vendem insetos para alimentar insetos que você pode criar em casa para comer mais tarde, vendo o futebol domingo à tarde com cerveja), sites especializados que entregam no mundo todo formigas com queijo Chedar, grilos e gafanhotos cobertos com chocolate, aranhas levemente fritas com páprica, vermes na manteiga. Não parece delicioso? Mal posso esperar para fazer meu pedido...

Mas a coisa não para por aí. O site especializado do departamento norteamericano de administração de alimentos calcula que comemos insetos cotidianamente sem saber. Numa pizza tradicional, considerando os alimentos que são utilizados, para cada 100 gramas estima-se que existam 30 ovos de insetos não eliminados na lavagem e cocção. Existem 20 larvas não detectadas em cada 100 gramas de cogumelos Shytake e para cada 10 gramas de orégano podem existir até 1250 fragmentos de insetos triturados. Isso sem contar os pepinos em conserva, em cujas embalagens está escrito "eventualmente você poderá encontrar pepinos com broca, descarte-os e consuma os demais normalmente". Broca, no caso, é um inseto nojento. Se você não acredita, verifique em qualquer rótulo de pepinos.

Para mim, que não comia estrogonofe quando era criança porque parecia vômito de cachorro, acho foie gras assustador e não como coração de galinha até hoje porque faz parte da abominável família dos miúdos, comer insetos parece mais do que uma excentricidade, parece uma aberração, mas nunca poderia imaginar que grande parte da população mundial fazia isso há 4000 anos atrás e continua fazendo. No final, fiquei me imaginando rico e poderoso dono de uma fazenda de insetos, mas deixei a idéia de lado, acho que eu não ia conseguir dormir sabendo que minha casa estava cheia desses bichos nojentos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A revolução começou

Demócrito foi um dos últimos filósofos naturalistas da Grécia antiga (filósofos que pensavam sobre o mundo natural). Foi ele quem chegou á conclusão de que as coisas eram formadas por outras partículas muito pequenininhas para as quais deu o nome de átomos, que na época (e em grego) queria dizer “indivisível”. Daí que o mundo atual continua sendo assim, exatamente igualzinho ao que era na Grécia antiga, mas muito mais complicado e incluindo aceleradores de partículas, blue-ray e equipamentos de TV que podem ser programados para gravar. Fora do mundo material, o mundo das idéias também é assim. Basta entrar na internet para confirmar. Se a matéria ainda é formada por partículas, também são as ações e idéias muito pequenas que comandam o cotidiano. Hoje vi um carro bater na traseira de outro no eixão, uma via de seis pistas, 15 quilômetros de extensão ligando as duas extremidades do Plano Piloto em Brasília. Um acidente estúpido e sem grandes novidades que causou um congestionamento de 6 quilômetros durante uma hora. Três travestis entraram no carro e foram para um motel com o Ronaldo Fenômeno há um tempo atrás, um morreu ontem e a internet só fala nisso. Quer coisa menor do que isso? O Twitter (no qual estou inscrito... http://www.twitter.com/arqmarcelo) tem centenas de mensagens sobre isso (na página do Twitter acesse #forçaronaldo). Quando o Michael Jackson morreu, o Google ficou fora do ar duas vezes, coisa raríssima. É que todo mundo estava acessando o Twitter e outros sites ou redes sociais para saber notícias, causou um congestionamento enorme nas comunicações, inclusive dizem que o Pentágono entrou em contato com o Google para saber o que estava acontecendo (quando o Google sai do ar, o Pentágono acha que é um ataque terrorista e liga pra lá...!). Isso quer dizer que foram milhões de ações independentes e únicas, uma pessoa de cada vez, sem ligação com as demais, que se somaram numa mesma ação ao mesmo tempo (estimaram que 1 bilhão de pessoas estava assistindo ao funeral em diversos canais de mídia). Praticamente um tecido internético atômico.
Um cara chamado Pierre Lévy, que escreveu o livro que deu a idéia para o filme Matrix (O que é o virtual?), previu isso nos anos 90: que o mundo seria uma rede de unidades autônomas e interdependentes, e que cada ação individual iria se somar às demais criando um novo produto. Não é uma loucura? Complexo, mas é o que está acontecendo. Cada um dá sua contribuição, e um novo conjunto se forma. Acho que estou muito impressionado porque nas minhas férias passo o dia em frente ao computador, conectado na internet. De uma certa forma isso causa um estresse grande também, somente em 2006, estimam que a quantidade de informação produzida na internet poderia fazer uma pilha de livros da Terra ao Sol...doze vezes! Difícil é acompanhar isso tudo, mas não dá mesmo é para desistir, tem que insistir. Twitte-se e me encontre lá. Este texto é um dos átomos da internet, e você acessando, outro, juntos, vamos revolucionar o mundo. A revolução é aqui!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Tiradentes II - Igrejas

A região do ouro em Minas Gerais tem um quê de arquitetura. Tiradentes, São João del Rei e Ouro Preto, acompanhadas de Mariana, Sabará e muitas (e menos conhecidas) outras, representam uma parcela do criativo Barroco mineiro do Ciclo do Ouro. Aqui o Barroco originado da Europa se misturou com a precariedade colonial e a liberdade tropical para criar uma arquitetura expressiva e única, somente encontrada no Brasil. Os traços da corrente original são identificáveis, mas também é fácil ver a inventividade e a disparidade ao modelo da Metrópole em cada detalhe, seja numa fruta. Para quem curte arquitetura do passado, e acredita que aprendemos a fazer melhor com isso, vão algumas dessas que encontrei em Tiradentes, 6000 mil habitantes, 307 anos e muita história.
Iniciada em 1710 (e finalizada 42 anos depois), A Igreja da Matriz de Santo Antônio é a segunda do país em quantidade de ouro na ornamentação interna, quase meia tonelada. Com projeto da portada de Aleijadinho (em 1810, sobre o projeto original), o interior rico e decorado impressiona quando consideramos a rusticidade do restante da vila e nos reportamos ao passado. Um enorme órgão de origem portuguesa pende sobre a cabeça dos fiéis. Não são permitidas fotos no interior da igreja (por isso as fotos do interior estão um pouco desfocadas), e no exterior a posição estratégica da implantação lembra bem o urbanismo colonial português com a localização no topo da colina mais alta.




Tradicionalmente as igrejas consagradas a Nossa Senhora do Rosário são chamadas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, hoje fora do contexto, o título se refere ao fato de que quem construía essas igrejas eram os escravos convertidos, normalmente trabalhando à noite, depois de um dia inteiro em outras atividades. A igreja dos escravos de Tiradentes é de 1708, aparentemente com uma torre sineira agregada posteriormente, tem uma simplicidade aconchegante, em um recuo urbano muito acolhedor. Tem o traçado básico da Igreja colonial primordial brasileira, onde as diagonais da fachada marcam o posicionamento das quinas das janelas e a altura da porta, teoria da arquitetura na prática e ao vivo. Muito branco e beleza rustica, simplicidade que me lembra um Deus mais humano. É minha preferida.

No casarão que abriga o Museu Padre Toledo (figura importante na Inconfidência) mobiliário e peças da época nos arrastam para o país adolescente, ávido por se libertar da mãe opressora, mas ainda não preparado para os desafios da maioridade. Confesso que senti algo de nacionalismo naquela casa, onde o Padre se reuniu pela primeira vez com o grupo que mais tarde se denominaria Inconfidentes Mineiros, durante um batizado. Sei que os motivos foram econômicos, como em todas as revoluções - o alto custo dos impostos, a cobrança radical dos débitos atrasados (a Derrama) motivou sobremaneira ao levante que não teve o êxito almejado, justamente no mesmo ano da Revolução Francesa (1789).












Ainda há muitas outras atrações, casarões muito antigos, capelinhas que se abrem na Semana Santa com os passos da via crucis, uma Casa de Câmara totalmente independente da Cadeia, um avanço no Brasil desta época. Pombas de barro nos telhados (lembrando o Divino Espírito Santo) e pombas de verdade mostrando de onde vem a idéia. Passeios de charrete (nosso cavalo se chamava Cazuza), e o segundo maior pólo gastronômico de Minas, 5 restaurantes estrelados da Quatro Rodas, oferecendo comida mineira e contemporânea. Comi um bacalhau espetacular no Santo Ofício com vinho português, um filé de primeira no estrelado Tragaluz com vinho chileno, e comida tradicional no Confidências Mineiras com canelinha (cachaça com canela). Tudo num clima de passado, em casarões muito bem adaptados, com a melhor companhia do mundo, à luz de velas e cercado de prováveis fantasmas que por sorte não vi, mas que certamente habitam as ruas silenciosas de Tiradentes. O Brasil foi aqui!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Eu Google. Tu Googles. Ele Google. Nós Googlamos. Eles Googlam.

Se você reparou, no final das postagens, lá no rodapé da página tem uma caixinha azul e branca escrita StatCounter. Ali é onde faço o controle do blog. Posso saber quantas pessoas estão acessando diariamente, por quanto tempo, por intermédio de qual mecanismo de busca chegaram até aqui, qual o sistema operacional que estão usando, qual a resolução da tela, de qual cidade estão chamando. Posso saber também quais as palavras que procuraram no Google, Yahoo, Bing! e Altavista para saber porque chegaram ao meu blog. Aí é que está. Se considerarmos que o número de internautas é superior a um bilhão e meio, tenho poucos acessos, cerca de 530 pessoas visitam o blog semanalmente, sendo que muitas são pessoas que retornaram (talvez como você). Mas se considerarmos que uma pessoa normal conhece em média cerca de 2000 pessoas em toda sua vida, bem, aí estou com uma média razoável. Dessas pessoas que entram e saem no blog pela primeira vez direcionadas por mecanismos de busca, a estatística é divertida.
Trinta por cento buscaram assuntos relacionados com arquitetura e caíram aqui, dessas 30%, dois terços buscavam algum tema relacionado com o arquiteto americano Frank Lloyd Wright que aparece em diversos posts e empresta seu nome ao meu cachorro, bom resultado para mim porque sou bom em escrever sobre arquitetura e tenho muitas fotos da obra dele que não se pode encontrar em livros. Em segundo lugar, disparado da concorrência, vêm os termos de busca que se referem a amígdalas inflamadas. É inacreditável como as pessoas procuram sobre este assunto. São quase 18% das buscas que levaram ao meu blog, tudo graças a uma postagem sobre a inflamação de amígdalas quando morava temporariamente em Nova Iorque. Pois bem, em resumo, amígdalas são filtros de bactérias e vírus, lave mais suas mãos, os furinhos são normais, há controvérsia sobre retirá-las, podem ficar inflamadas por vírus ou bactéria, não, ninguém é hospitalizado por isto. Para vírus use Diclofenaco, para bactéria use Amoxilina. Morra por sua conta e risco, eu não sou médico!

Na sequência, em terceiro lugar, os mais procurados são temas relacionados á reciclagem (12%). Infelizmente as pessoas que chegam até aqui devem ficar frustradas porque não é o que estavam procurando. Aliás, o que estavam procurando geralmente se refere a roupas recicladas e outros artefatos, até o extremo de "casal de noivos de material reciclado para bolos de casamento" (!). O quarto termo de pesquisa mais buscado é "Ducha Higiênica"... E as perguntas feitas ao Google são tão bizarras quanto "usar ducha higiência faz mal?", ou "ducha higiênica tira a virgindade?"...mais uma vez, a frustração deve ser grande ao constatar que a ducha higiência está neste blog somente graças à vizinha do 301 que tem medo de baratas e inundou meu apartamento deixando a ducha dela ligada por cinco dias. Mas se você caiu aqui por conta disso, acho que ducha higiênica não tira a virgindade se você mantiver ela a uma distância segura, quer dizer, se você sentir a água pelo lado de dentro de você, pode ser que dê problema, mas não estou seguro a respeito, como você sabe, não sou médico. Temas de viagens ocupam o quarto e honroso lugar, com 8%, seguidos de perto pelo meu próprio nome (obrigado, obrigado) com 7,32%. Ou seja, estou sendo menos procuradodo que Frank Lloyd Wright, amígdalas e viagens, acho que deve ser natural, mas perder para ducha higiência confesso que dá um certo desânimo. Pelo menos ganhei do Bailinho (cujo post deve atender às expectativas dos leitores porque explica direitinho o que é a festa e ainda dá o endereço do blog específico) com 4,86%. Logo depois de mim, os termos mais procurado são assuntos relacionados com o dia dos namorados, "como escrever um bilhete de amor" ou "coisas quentes para o dia dos namorados" ou ainda "sutiã Hope para o dia dos namorados", essa para mim, a melhor de todas (4,05%). Bem perto disso, de maneira impressionante, estão as pesquisas relacionadas a super heróis, "como fazer uma capa de super herói", convenhamos, se a pessoa precisa do Google para fazer uma capa de super herói, vai precisar do quê para fazer um bolo de casamento com peças recicladas? Por fim, em último lugar, assuntos diversos como o significado da palavra lagartixa, o nome do Paulo Ricardo Bregatto (que lá no início do meu blog estava liderando as pesquisas por palavras), que tamanho de pijama JK usava ou quem é o autor de determinado livro.

Depois dessa análise, fiquei pensando em como as pessoas respondiam essas perguntas quando não havia internet. Será que havia espaço para diálogo com alguém mais experiente, ou será que essa pergunta ficava na cabeça da pessoa para sempre? Será que alguém tem dúvida de que é mais fácil saber das coisas hoje em dia? Será que alguém realmente precisa saber qual o tamanho do pijama de JK que não seja a Dona Sara, ou será que buscar um remédio para amígdalas sem consultar um médico é tão inocente quanto copiar e colar um texto da internet sobre um arquiteto famoso? As respostas não sei, talvez coloque tudo no Google e tente responder mais tarde, afinal, ele sabe tudo e está em todos os lugares. O Google é deus!

Pombas

Pombas sujam, transmitem doenças e são agressivas, mas ainda assim são bem tratadas na maior parte dos locais que emporcalham. Pelo menos cinco doenças transmitidas pelas fezes secas de pombos contaminados são registradas nos grandes centros urbanos brasileiros. Elas se multiplicam rapidamente, como ratos com asas (ainda que algumas pessoas achem isto um exagero), cagam por tudo e não têm nenhum escrúpulo em tentar se aproximar da comida dos outros. Não consigo entender como ainda tem gente que dá comida para elas nos parques, achando bonitinho aquele mundaréu de bichos fedidos soltando piolho pelo ar. É muita falta do que fazer. Até o Oscar Niemeyer projetou um pombal para a praça dos Três Poderes que está lá até hoje! Pior ainda, nos fast-food de Brasília as pessoas dão restos de pão para as pombas, e o que elas deixam escapar alimenta os ratos à noite, uma maravilha ecológica de preservação das zoonoses. Não bastasse, parece que elas se especalizaram em fazer cocô em calhas e entupir tubulações de escoamento de chuvas, em algum lugar do mundo deve ter uma academia que ensina as pombas como fazer o maior estrago possível, acredite, é lá que elas vão estar. Em Paris os monumentos têm tela por tudo, em Roma a mesma coisa, em algumas cidades da Europa as autoridades dão anticoncepcional misturado com milho para os pombos comerem. Em Brasília, Maslow se orgulharia das pombas.
Maslow foi um cara que criou uma estrutura em forma de pirâmide para categorizar as necessidades humanas. Na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas, entre elas comer e fazer sexo (entre outras), coisas que as pombas conhecem muito bem. Aliás, como todos os animais no mundo, pombas só pensam em duas coisas: comer e sexo. Ainda que nós humanos também pensemos em carros, dinheiro e posição social, no final, tudo isso são maneiras de conseguir mais sexo. Não consigo entender porque as pombas têm um forte apelo romântico, chamam um casal de noivos de pombinhos (acho que porque os pombos são monogâmicos) no fundo penso que é tudo por culpa do Velho Testamento, já que Noé soltou uma delas para procurar terra firme depois que choveu quarenta dias e quarenta noites no Dilúvio. Uma pomba é capaz de morrer do que desistir de roubar um pedaço de pão. Convenhamos, se fosse verdade a história da pomba e Noé, conhecendo as pombas como eu conheço, ela teria se mandado para procurar comida e outra pomba para transar, não ia voltar nunca mais, e Noé ia estar até hoje perdido navegando pelo meio do Atlântico ou ia ter encalhado e naufragado na costa da Antártida e catequizado os pinguins. A sensação que eu tenho é que se Noé tivesse soltado um rato nadando, talvez tivéssemos ratos circulando livremente pela cidade nos dias de hoje (hoje eles circulam igual, mas escondidos).
Uma pomba pode reproduzir de 12 a 18 outras criaturas por ano, já que são sexualmente ativas a partir dos seis meses. Além disso não possuem predadores naturais, e vi num documentário que se a humanidade abandonasse a Terra, dos animais urbanos que conhecemos hoje, só iam restar gatos, cachorros vira-lata e pombos . Até os ratos iam desaparecer capturados por predadores vindos das áreas selvagens! Matar pombas não adianta nada, como diz uma veterinária na TV, é como vaga de hotel, sai um, entra outro. O importante é criar condições desinteressantes, pouca água, pouca comida, pouco abrigo. Só assim os pombos vão migrar para regiões distantes dos centros urbanos e assumirem de vez seu papel na natureza comendo pragas e espalhando pólem para fecundação. O pombal é aqui!