quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

foto: Fala! Universidades

JOHNNY QUER MORRER AOS 27

Johnny queria morrer jovem. Pelo menos era o que ele dizia para impressionar as meninas nas rodinhas da escola. Com 14 anos, declarava abertamente que morreria aos 27. Era assim que alguns dos maiores ícones culturais de gerações passadas haviam morrido, e para Johnny isso era “top”, palavras suas. Jimmy Hendrix, Kurt Cobain, Jim Morrison, Janes Joplin, Amy Winehouse tinham morrido aos 27.

— Quer melhor companhia que essa? — Ele dizia, mesmo sabendo que Amy morreu com 28 anos, mas achando que um ano de diferença não desvalorizava sua tese contanto que ninguém notasse a diferença.

Mas Johnny, que na verdade se chamava João Carlos e havia adotado esse apelido porque achava João um nome sem glamour (Johnny não sabia o que queria dizer glamour, mas tomei a liberdade de usar a palavra em detrimento de um melhor entendimento de sua personalidade)... por essas e outras, posso afirmar que Johnny, aos 14, ainda não tinha vivido quase nada. Nunca tinha desaparecido por três dias, não tinha gastado mais do que ganhava, transado com duas pessoas ao mesmo tempo, batido o carro, saído atrás de uma bateria de escola de samba, dormido dentro do carro numa viagem improvisada, se perdido nas ruas sinuosas de um casco histórico em um país onde se falava uma língua que parecia um sequencia de arrotos. Ainda não havia frequentado a universidade e suas festinhas, fumado um baseado, dirigido um carro que não era seu porque o dono estava muito bêbado, subornado um leão de chácara para não pagar couvert num bordel, aliás, nem sequer tinha transado. Johnny não sabia como é difícil passar uma camisa com colarinho, que a gente lava as calças jeans com o zíper fechado, que o bife só pode ser virado uma vez para não ficar duro, ou que Cervantes levou dez anos para escrever Dom Quixote e que morreu um ano depois de publicar, em 1616.

— Nunca li um livro – dizia nas festinhas para impressionar.

E isso era verdade. Nunca tinha lido um livro até o final. Ou achava as histórias entediantes, ou as palavras complicadas. Mas o que tinha de ignorante em ler, tinha de rápido em abreviar palavras para trocar mensagens de texto com os “parças”. Nunca ter lido um livro, apesar de impressionar a mim e a você por motivos óbvios, era valorizado no grupo de amigos de Johnny.

Quando completou 25 anos, Johnny tinha feito muitas coisas legais, e sua régua de longevidade se estendeu levemente.

— Não quero passar dos 40 – ele dizia agora. — Depois dos 40 a gente começa a perder o cabelo e ficar brocha. Vou morrer antes de ficar careca.

Agora ele fazia essa declaração nas rodas de bar sempre depois que bebia. Os amigos, alguns ainda da época do “morrer aos 27”, como todos bons amigos,  haviam esquecido a promessa anterior, e passaram a admirar a ideia dele de morrer aos 40. Afinal, aos 25, ficar brocha era praticamente estar morto. Mas aos 25, Johnny ainda não tinha se apaixonado de verdade. Eram amores passageiros, baseados em sexo casual. Ele não sabia que as vezes não transar era tão legal quanto transar. Desconhecia a emoção de comprar seu primeiro carro zero com o próprio salário, como eram quentes os mares do Caribe, e como eram coloridas as ruas de Cartagena. Ainda ignorava como fritar um bife, passar uma camisa com colarinho ou lavar uma calça jeans. Desconhecia a maravilha de uma máquina de lavar louça. Johnny vivia num mundo pequeno, cujas fronteiras se limitavam ao estacionamento do aeroporto e as placas de “volte sempre” nas rodovias da saída da cidade.

Quando completou 38 anos, Johnny estava casado e com dois meninos, trabalhando numa estatal e ganhando o suficiente para uma vida sem sustos e sem progresso intelectual e sem cabelos em parte da cabeça. Havia descoberto que continuava viril, e seus fantasmas da impotência que assombravam a idade se dissipavam muito lentamente. Nos churrascos com outras famílias, depois de umas e outras, Johnny apresentava sua nova teoria de longevidade.

— Melhor mesmo é morrer aos 60 de acidente aéreo. Sua família ganha uma indenização e você não sente nada. Não quero ficar velho dependendo dos outros.

Johnny, que agora achava que o apelido não combinava mais com ele, pediu para os amigos para ser chamado de João Carlos. Imaginava que aos 60 anos uma pessoa perdia totalmente o controle sobre si mesma e dependia totalmente dos outros. Como ele ainda não lera nenhum livro até então (exceção de alguns livros ilustrados para as crianças dormirem), não sabia que Saramago teve seu sucesso reconhecido com Memorial de convento somente aos sessenta anos. Não sabia que Roberto Marinho fundou o império da Rede Globo aos sessenta e um, nem que Darwin teve seu trabalho difundido mundialmente aos 59. Ele não lia. Mas na medida em que o tempo passou, e João Carlos viu seus meninos crescerem, surgiu nele uma vontade de ver mais. Queria ver os filhos formados, namorando e casando, tendo bons empregos, receber fotos das viagens de lugares distantes que ele nunca conheceu. Assim, quando completou 59 anos, meio a contragosto, começou a aplicar um novo discurso.

— Viver além dos 75 não tem sentido. A gente só dá trabalho e gasta o dinheiro dos outros.

Parece que João Carlos não aprendia nunca. Depois que conseguiu se aposentar, passava mais tempo com os netos. No verão, saía de férias com os filhos, esposas e crianças, ensinava os meninos a jogar cartas, pegar onda como um jacaré, fazer castelo de areia, desentocar mariscos no refluxo das ondas do mar. Ainda tinha força nas pernas, comia de tudo, bebia moderadamente e quando queria, conseguia carregar os meninos nos braços. Para além de uma surpresa, mesmo aos 70, ainda se sentia viril. E aquela vontade de partir aos 75 foi se atenuando e transformando, e quando João Carlos pensava nisso, se sentia traído por si mesmo. Olhava para um e outro dos netos e imaginava aquele ou aquela se formando, apresentando o namorado, dançando no casamento, e os bisnetos. Não, repetia para si mesmo, bisnetos não, vou dar muito trabalho.

O tempo ignorou os planos de João Carlos e ele foi vivendo para além dos 90. Viu os netos terem relacionamentos afetivos e os bisnetos chegarem. Dava pouco trabalho, não perdeu a mobilidade, conseguia ler, se atrapalhava com os controles remotos da TV, tentava desatinadamente seguir as redes sociais, fazia café, tomava banho sozinho. Viveu bem e firme para além dos 90, sempre achando que tinha vivido demais e devia ter vivido menos, mas sempre acreditando que hora de morrer era outra.

Morreu no quarto de hóspedes que ocupava permanentemente na casa de sua bisneta preferida, que era casada com um arquiteto em ascensão. Johnny estava tranquilo, quando foi se deitar e ainda de mãos dadas na com ela na borda da cama, lembrou que havia algo que ela deveria saber.

— Vou morrer aos 94 — ele disse, e se foi.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

VOCÊ SABE COM QUEM VOCÊ TÁ FALANDO?

— Você sabe com quem você tá falando? — Perguntou o senhor gordo e grisalho, metido numa camiseta apertada daquelas que a gente usa pra dormir, calção folgado e tênis zero quilômetro.
— Não, senhor. Não sei — respondeu o policial calmamente.
— Pois eu sou desembargador!
— E eu sou policial. Como representante do poder público, eu fico feliz pelo senhor ter tido oportunidade e sucesso na vida, mas aqui na rua o senhor tem que usar a máscara. Tem um Decreto, por causa desse vírus que está aí, sabe?
— Decreto o caralho! Vou por porra de máscara nenhuma! Você não tem ideia de com quem você tá falando, seu analfabeto! — Gritava o idoso barrigudo na camiseta apertada, de vez em quando puxando o calção para cima já que a barriga insistia em meter ele para baixo.
— Eu não sei com quem estou falando porque o senhor ainda não me disse sua graça, mas o meu nome é Heitor, tá vendo aqui? Aqui ó... — apontando tranquilamente para o nome preso na farda com velcro. — Eu sou o soldado Heitor, prazer. E o cidadão? É quem?
— Cidadão porra nenhuma! Não sou cidadão porra nenhuma! Sou desembargador. Você sabe quem eu sou? Sabe?
O soldado Heitor se vira para dentro da viatura onde outro praça está consultando a internet no celular.
— Soldado Tavares! O cidadão aqui não sabe quem é. Você tem alguma ocorrência de idoso perdido aí?
— Negativo. Zero ocorrência de idoso perdido.
— Pois é cidadão — retoma o Heitor para o desembargador —, o senhor não lembra seu nome, mas aqui na rua precisa usar máscara, positivo? Mesmo o senhor estando com esse problema de memória, vou ter que lhe passar uma notificação que o senhor pode pagar na internet, banco ou lotérica.
— Vou pagar na puta que o pariu! Vou pagar porra nenhuma! Eu sou amigo do Secretário de Segurança, vou ligar pra ele e você vai se fuder, seu pobretão!
— Infelizmente cidadão, eu não tenho o número do Secretário de Segurança, mas deixa ver aqui — se vira de novo para a viatura. — Ô, Tavares! Você tem aí o número do Secretário de Segurança? O idoso diz que vai ligar para ele!
— Negativo.
— Pois é cidadão — volta o Heitor —, infelizmente não estamos tendo o número do Secretário. Mas se o senhor se lembrar do nome do seu cuidador podemos ajudar o cidadão a voltar pra casa.
— Cidadão o caralho! Já te falei que eu não sou cidadão porra nenhuma! Eu tenho greencard! Vou ligar aqui, você vai se fuder, seu praça de merda! — O velho está vermelho de raiva, pega o celular, aperta uns botões e põe no viva- voz, alguém atende do outro lado.
— Buarque, pois não?
— Opa, Buarque! — Começa o senhor idoso mudando o tom da voz, agora demonstrando alguma educação e sugerindo uma proximidade intimidadora com o Buarque do telefone, puxando o calção para cima e com o olhar vitorioso em direção ao soldado Heitor. O soldado continua com o ar entediado de quem já viu esse filme, escrevendo a multa no talão. — O Secretário está aí?
— Sim senhor, o secretário sou eu, o Buarque.
— Não, não... — corrige sorridente o desembargador — o de Segurança.
— Desculpa cidadão, mas o senhor deseja falar com o secretário ou com o segurança? O secretário sou eu mesmo, o Buarque, e o segurança que está no plantão hoje é o Roque.
Silêncio constrangedor, e o Heitor meneia a cabeça concordando com o Buarque porque a pergunta tinha mesmo ficado dúbia. O velho respira fundo pensando que esse aspone de merda só pode estar de sacanagem com ele.
— Quero falar com o Secretário de Segurança, por favor — tenta educadamente num esforço derradeiro, se contendo, afinal, ele não é cidadão porra nenhuma, é desembargador, cacete!
— E quem deseja falar?
— O desembargador, porra! Escuta rapaz, você sabe com quem você tá falando? Porra! Eu sou desembargador!
— Cidadão, aí fica difícil... primeiro, o senhor não sabe com quem quer falar; depois o senhor quer falar com o Secretário, mas nem sabe quem o senhor é. E falando “porra” não vai dar, não tem como passar para o Secretário falando palavra de baixo calão, compreende? Questão de protocolo. Deixa ver se posso ajudar o senhor. O senhor conseguiu ligar sozinho ou tem alguém aí que ajudou o senhor?
— Positivo operante! — Intervém o policial para desespero do desembargador. — Soldado Heitor, bom dia, doutor Buarque.
— Soldado Heitor? Sério? Ah... vai dizer que você é o Heitor goleiro lá da pelada do Tizinho?
— Esse mesmo, positivo. Você não seria o Buarque churrasqueiro, seria?
— Eu mesmo! Rapaz! Quanto tempo! — Explode de felicidade o Buarque churrasqueiro. — Você nunca mais apareceu? O que foi? Prendendo muito vagabundo?
— Positivo! E também machuquei a mão arrumando o telhado lá em casa, tou dando um tempo. Deixa te falar... tem aqui com um idoso que não sabe quem é. Ele insistiu em ligar aí.
— Idoso o cacete! — grita o desembargador, agora em francês, já que ele fala várias línguas, mas não usa máscara na rua. — Analphabète!
— Eita! — fala Buarque. — O velho tá doidão — e solta uma gargalhada ao telefone.
— Chama a porra do Secretário seu merde! Ele me conhece! Eu sou poliglota! La secrátaire me connaît! Diz que é o desembargador que foi no casamento da filha dele! Eu falo francês, porra!
— Ô, Heitor! Vou chamar o Secretário ali pra ver se livro você dessa mala, mas em troca você tem que prometer que vai voltar pra pelada no sábado.
— Combinado, volto sim. Abração!
Instantes de silêncio e o Heitor pisca um olho demonstrando cumplicidade para o baixinho gordinho grisalho de calção caindo.
— Na verdade, a patroa invocou com o futebol e estou dando um tempo...
Uma voz sorridente e política aparece do outro lado da ligação
— Alô, bom dia!
— Bom dia, Secretário! Secretário, aqui quem fala é o desembargador...
— Desembargador?  — O Secretário interrompe, aparentemente empolgado.
— Isso, o que foi no casamento da sua filha, Secretário.
— Desembargador? Ô meu amigo! Há quanto tempo! Em que posso lhe ser útil?
— Pois é, Secretário, eu estou aqui com um soldado da PM analfabeto querendo me dar uma multa porque eu estava dando uma caminhada na orla sem máscara. Só tem eu na praia, Secretário. Ele não está entendendo.
— Ah... que coisa, mas o senhor não morre tão cedo, outro dia minha esposa ainda falou no senhor. O desembargador Silveira faz tempo que não vem aqui em casa...
— Não, Secretário, não é o desembargador Silveira não, é o outro desembargador.
— Outro? Que outro? — O Secretário parece confuso.
— O outro, Secretário, o outro, porra! Então... o senhor lembrou? Você sabe com quem está falando, Secretário?
— Desculpa, mas não estou lhe entendendo. Deixa eu falar com o policial, por favor?
— Toma aqui — o velho entrega o celular que está no viva-voz para o policial —, você vai se fuder agora, fala aí — diz confiante de que o Secretário está com ele.
— Pois não? Soldado Heitor ao seu dispor. Em que posso ajudar?
—Soldado Heitor? Ué?! Eu conheço um soldado Heitor. Você não foi segurança no casamento da Ritinha?
— Eu mesmo Secretário. Que coincidência boa reencontrar com o doutor!
— Ah... não acredito. Quanto tempo Heitor... como que você tá rapaz?
— Tou bem, obrigado. E dona Ritinha, Secretário? Tá feliz de casamento novo? Aquela menina é um doce, Secretário, vale ouro.
— Vale ouro, sim... vale ouro — o Secretário parece orgulhoso da Ritinha. — Escuta, meu querido, estou vendo que você está com um problemão aí com esse cidadão que tá meio confuso, mas decreto é decreto, né? Faz o seguinte, passa a multa para esse sujeito e se ele resistir, fazer o que? Pode recolher, combinado? E vê se aparece outra hora para gente bater um samba!
— Pode deixar Secretário. O senhor por favor manda um abraço para dona Dulce, diz que o tal de “Bife Borbulhom” que ela ensinou pra Joana tá fazendo maior sucesso lá na comunidade, só que o pessoal chama de carne de panela de gringo! — O Secretário solta uma gargalhada, manda um abraço para ele e outro para a patroa e se despede. Heitor devolve o telefone última geração comprado em Miami para o desembargador que está corado.
— Alô? Alô? Secretário... filho da puta, desligou.
— E então cidadão? — Recomeça o santo Heitor. — Estou aqui finalizando sua multa...
O velho explode de novo.
— Cidadão o caralho! Pra você eu sou doutor, seu bosta!
— Eu sei que o senhor está meio confuso, mas tem que se decidir, ou é desembargador ou médico, os dois fica difícil, assim a gente não vai poder ajudar o senhor.
— Daqui a pouco vai dizer que é astronauta! — Grita de dentro da viatura o Tavares.
— Tavares, por favor, não sacaneia o velhinho... o cara tá com problema... — e recomeça. —Faz um esforço que o senhor lembra quem que cuida do senhor, enquanto isso toma aqui sua multa...
O desembargador pega a multa, rasga, amassa e joga em cima do PM. Bem nesse momento estaciona outra viatura que passava lentamente.
— Tudo certo aí, Heitor? — É o Tenente Rodrigues, manga curta dobrada mostrando o bíceps, braço para fora da viatura tatuado com faca e caveira, boina quebrada na testa, Ray-ban espelhado no bolso da camisa.
— Bom dia, Tenente. Tudo tranquilo? Estou aqui aplicando uma multa nesse idoso aqui, sem máscara... o covid, sabe?
O gordinho sente uma pontada de esperança de enquadrar o soldado.
— Tenente, por favor, eu gostaria que o senhor intervisse aqui?
O Tenente desce da viatura ajeitando a boina e com uma cara severa. Olha para os tênis novinhos do gordinho desembargador.
— Rasgou multa, é? Tá bem espertinho pra quem tá perdido, né?! História suspeita essa Heitor... E esse tênis, amigo? Conseguiu onde? — Caminha estufando o peito para cima do velho.
— Tênis? Que tênis? — O desembargador olha para os próprios pés com seu tênis novinho que custou um salário mínimo e ele está estreando hoje no calçadão da orla.
— Esse aí, cidadão — aponta para os tênis. — Tu não tá com cara de quem pode comprar um tênis desse. Me fala. Conseguiu onde esse tênis, parceiro? Fala aí que eu vou lá comprar um também. Tá barato? Fala aê — Tom ameaçador, se vira para o Heitor. — Esse tênis tá estranho nesse gordinho, Heitor, esse tênis aí tá com cara ser de gringo. Você identificou o cidadão?
— Negativo, Tenente. Ele diz que não sabe quem é e fica perguntando pra mim se eu sei.
— Não é isso, Tenente — o desembargador tenta explicar, agora todo suado —, o senhor não está entendendo, veja bem, olha pra mim. O senhor sabe com quem o senhor está falando?
O Tenente olha de cima a baixo o baixinho esportista de gel no cabelo grisalho, calção folgado e camiseta de dormir, com tênis zero bala.
— “Não tou entendendo?” — Altera a voz. — Não tou entendendo? Vou te falar o que eu não tou entendendo: é um sujeito molambento desses com um tênis desse daí? Pegou dum playboy, foi? Onde que tu arrumou esse tênis, fala aí senão a coisa pode dar ruim pro teu lado, parceiro! — Ameaça, já segurando no braço roliço do desembargador que agora está vermelho, suado e quase cagado.
— Calma, Tenente — intervém o Heitor pacificando. — Mexe com isso não, pode deixar a situação comigo que está sob controle — afirma. — Pode deixar que eu tou me entendendo com o “desembargador” (fala dando uma piscada de olho para o Tenente).
— Tá certo, Heitor. Tá certo, eu vou pegar leve porque tou indo atender um 11340... — o Tenente, sério.  — Mas se o governador aí der muito trabalho pode recolher lá no abrigo da Prefeitura. Tá cheio de gente importante lá, tem corregedor, presidente, vereador... ele vai se sentir em casa.
O Tenente dá uma última olhada nos tênis e volta para a viatura.
— Mas se eu fosse você apertava essa história do tênis, aí tem! Copiou?
A viatura vai embora. Heitor terminou o trabalho, e com a paciência que Deus lhe deu, finaliza a ocorrência.
— Bom, cidadão, eu vou liberar o senhor mesmo com o senhor tendo me chamado de analfabeto, pobretão, praça de merda, mandado me fuder, ir à merda e ofender minha mãe, Positivo?
O desembargador não diz nada, perdeu toda a coragem com a visão do braço tatuado do Tenente e está com cara de guri cagado.
— Mas, cidadão... — Heitor chama com ar irônico no rosto — se o cidadão precisar de ajuda pra ir pra casa, estamos aqui para servir. Tenha um ótimo dia e não esqueça da máscara, tem um vírus por aí matando até desembargador, sabe?
Heitor vira as costas e volta para a viatura.
— Achei que você ia enquadrar esse. Amoleceu? — Pergunta o Tavares.
— Nada — afirma o Heitor. No fim das contas, acho que era só outro doidão. Agora, veja você se um sujeito mal-educado e escroto daqueles pode algum dia ser desembargador... bem que o Tenente suspeitou, é capaz mesmo de ter treta naquele tênis.





 [A1]

quinta-feira, 23 de abril de 2020

OTÁVIO E A TERRA PLANA


Otávio se considerava intelectualmente uma pessoa acima da média. Por isso, quando o primo porteiro — que era amante de uma senhora rica num condomínio do Lago Sul, em Brasília — morreu trocando um pneu de caminhão e deixou de herança para ele uma pequena fortuna, Otávio decidiu abandonar de vez o trabalho de balconista da loja de peças na Ceilândia Norte e colocar em prática um antigo projeto: provar que a Terra é plana.
Otávio não era dessas pessoas que aceitam qualquer mentira que lhe contam. Pelo contrário, era um estudioso. Desde que conseguira uma conexão de quinze Mega numa promoção de telefonia celular, se tornara um pesquisador — como ele mesmo gostava de se descrever. Foi através do grupo de Whatsapp da família que os temas fundamentais da existência humana começaram a povoar sua mente e despertar sua vontade de elucidar os menos capazes. Tia Hermínia, que era copeira no Ministério da Saúde, havia alertado no grupo para o risco das vacinas depois que recebeu uma mensagem de uma amiga costureira assinada por uma pessoa que tinha um primo que conhecia um médico que tinha tido problemas com vacinas. Foi o primeiro tema que fez Otávio decidir levar suas pesquisas a fundo. Mergulhou nos estudos dos malefícios das vacinas, pesquisando no Google e sites alternativos, fugindo da mídia tradicional e dos sites de publicações científicas, repletos de mentiras, e encampou uma ação sem precedentes no grupo. Sua meta era impedir que as crianças fossem imunizadas, porque descobrira num site patriota de um movimento de libertação do país, que as vacinas causam autismo*. Claro que Otávio foi esperto o suficiente para ignorar todas as demais matérias que explicavam que essa lenda havia surgido pelo médico britânico Andrew Wakefield, numa fraude sobre uma ação coletiva que pretendia extorquir bilhões de dólares dos laboratórios farmacêuticos usando uma falsa pesquisa, com dados falsos sobre pacientes. Ele nunca tocou nesse assunto no grupo, era secundário, uma conspiração da indústria farmacêutica contra o nome do bom doutor Wakefield. Também ignorou que o médico tenha perdido a licença para exercer a medicina e sido julgado e condenado por crime cometido contra a humanidade, tudo invenção de uma mídia fraudulenta e seguidora dos interesses corporativos. Afinal, Otávio era intelectualmente acima da média. Infelizmente, por motivos pessoais — quando já estava em sua viagem pela comprovação da Terra Plana —, Otávio não pode presenciar o que se passou nos anos seguintes quando duas crianças da família morreram de Sarampo e uma terceira teve poliomielite agora usando uma perna mecânica auxiliar, mas tudo sendo atribuído por Dona Francisca à ira divina por pecados cometidos pelos pais, à ausência de oração e um irmão homossexual de Dona Luzia.
Tinha pensado em provar a Terra Plana e suas teorias por outros métodos, Fernão de Magalhães era um terrabolista mentiroso. Que o sol mede realmente cinquenta e um quilômetros de diâmetro (mesma dimensão que a lua) e que funcionava como uma lanterna, iluminando uma parte do planeta a cada momento. Mas achou que isso não seria suficiente. Também pensou em subir acima dos cinco mil quilômetros (altura em que ele acreditava que o sol circula a Terra), mas achou difícil fazer isso sem um equipamento apropriado. Claro que ele ignorou o telescópio Hubble e as pesquisas da NASA, os voos espaciais, os oitenta quilômetros que delimitam o limite entre a Terra e o Espaço. Tudo bobagens e mentiras de pessoas que não conseguem ver a verdade frente a frente. Também pensou em contestar a ridícula Lei da Gravidade de Newton, mesmo sem saber que que ela já fora questionada por um judeu de nome Einstein. Para Otávio, era óbvio que a Terra Plana se elevava por uma força misteriosa a 9,8 metros por segundo ao quadrado, em sentido ascendente eternamente, como se fosse um elevador celestial que não para em nenhum andar.
Em outras oportunidades, em fóruns mais intelectualizados do que o grupo da família onde ele atuava como consultor, Otávio debateu temas mais complexos e menos públicos como o treinamento de Barack Obama pela KGB quando ainda adolescente no Havaí*, e sua eleição ao governo dos Estados Unidos numa ação (felizmente) malsucedida do empresariado milionário mundial imbuídos de patrocinar a ascensão comunista global*. Deliberou sobre outros importantes temas como o incentivo da pedofilia por Freud*, ou o fato de que nunca uma pessoa gay tenha feito qualquer contribuição importante na história da humanidade*. Enquanto planejava sua expedição para provar que a Terra é plana, também discutia temas secundários como a grande mentira do aquecimento global, afinal, como disse o principal filósofo de sua corrente de crenças — um astrólogo idoso que morava nos Estados Unidos e reacendia teorias que já eram piada há mais de vinte anos em países desenvolvidos — acreditar em aquecimento global e fumo passivo era como acreditar em fadas e duendes*. Seguiam-se outras crendices impostas pela mídia e que tomavam seu precioso tempo, mas que precisavam ser combatidas em nome da ciência, como mostrar que na realidade nunca existiu escravidão no Brasil* ou que as Universidades eram um grande antro que jamais fizeram sequer uma contribuição para a ciência ou para o país*.
Nas horas vagas, tendo tantas frentes de batalha para elucidar aqueles que considerava intelectualmente menos providos, pesquisava fontes primárias e confiáveis sobre a planicidade da Terra e a grande conspiração do consórcio mundial para fazer crer os incautos de sua forma bolática. Era tão óbvio! Claro que — em sua busca pela verdade — Otávio encontrou mentiras como a que afirmava que em 276 a.C. Eratóstenes teria feito as primeiras experiências que levariam ao entendimento do formato da Terra. Ignorou que Plutarco, quatro séculos depois, pudesse validar os modelos de Erastótenes, tudo bobagem. Também leu que Copérnico tinha insônia, e sentado na janela de seu quarto à noite, dia após dia, viu as estrelas se moverem e formulou a teoria do heliocentrismo. Imagine! Mas Galileu Galilei, a este sim dava crédito. Ele adorava Galileu e usava seu nome em debates na internet justamente pela mudança de posição de um dos mais famosos físicos-matemáticos da humanidade como comprovação inequívoca de que a Terra é plana. Galileu admitir um erro de interpretação somente quando diante de um tribunal da inquisição em 1616 — em troca de sua vida e excomunhão — era meramente um detalhe.  Otávio também leu — mas não lhe fizeram sentido — as célebres palavras do mesmo Galileu quando foi informado que seu livro fora incluído na lista de livros proibidos pela Igreja Católica “eppur si muove!”, o que nos dias de hoje significaria ironicamente  “a Terra se move!”, querendo a Igreja, Otávio ou qualquer outro terraplanista, quem quer que fosse, o contrário.
Passados dois anos, a proposta da expedição estava concluída. Os fundos estavam arrecadados, e com base em outros pesquisadores, intelectuais, elaboradores terraplanistas ele estava pronto. Assim, munido de sua bússola, um original de um livro escrito por aquele astrólogo idoso que morava nos EUA, uma mochila e um cartão de crédito, em 01 de abril, Otávio partiu na expedição. Estavam presentes seis membros da associação de terraplanistas que contava naquela época com quase dez milhões de membros numa Rede Social. O público que presenciou a história sendo escrita só não foi maior porque um menino de doze anos foi proibido pelo pai de participar sob pena de ficar sem videogame por uma semana, e outros dois membros estavam temporariamente em retiro intelectual numa clínica psiquiátrica.
Otávio imaginava poder navegar até as paredes de gelo de quarenta e cinco metros de altura que cercam a Terra Plana e fazem a contenção dos oceanos (para que a água não escorra para fora da Terra, claro). Depois, navegaria sempre costeando essas paredes até retornar ao ponto principal. Simples, mas perfeito.
Partiu na sua missão numa felicidade incontida. Viajou até a Patagônia, onde pegaria um barco pesqueiro alugado e navegaria até a parede de gelo que cerca a Terra Plana. Mas as coisas não andaram exatamente como ele previu. No caminho, encontrou geleiras com muito mais altura do que os 45 metros da parede da Terra, e imaginou que eram maquetes gigantescas construídas pelo consórcio mundial das grandes potências para defender a mentira da Terra bola e dissuadi-lo. Não se deu por entregue, seguiu em frente. Foram muitos dias de provação contra um mar rebelde. Tudo atribuído ao consórcio maligno que enviava ondas artificiais para naufragar seu pequeno e corajoso barco.
Finalmente depois de muito tempo, Otávio avistou algo à proa! Imaginava serem os paredões que margeiam a Terra Plana, mas na verdade era a costa da África. Refez os cálculos. Iniciou outra viagem, e quando viu estava na Austrália. Alguém boicotava sua jornada! Malditas conspirações! Mais uma tentativa e deparou-se com maravilhosas paredes de gelo, mas eram os Andes chilenos. Com os fundos muito reduzidos e quase sem comunicação com seus grupos de seguidores, decidiu tentar pelo outro lado, margeou o Chile e se lançou ao fim do mundo. Chegou no Havaí. Maldito consórcio! Zarpou do Havaí e atracou no Japão. Do Japão, foi parar na Nova Zelândia, e depois no Vietnã. Partiu furioso do Vietnã e se deparou com Madagascar. Muitos meses depois, nesse vai e vem em busca do fim do mundo, exausto e sem recursos, voltou derrotado para casa a bordo de um cargueiro que supostamente (para seu rancor profundo) fazia a mentirosa volta ao mundo-bola transportando mercadorias de porto em porto navegando sempre para oeste. Ao retornar, foi internado numa casa especializada em tratar pessoas com distúrbios mentais depois de diversos ataques de fúria em praça pública para denunciar o maldito consórcio de milionários comunistas que o impediram de chegar às bordas da Terra Plana. Morreu alguns anos depois, sozinho, jurando aos berros que o astrólogo idoso sempre teve razão, que a Terra era plana, agarrado a um pedaço de papel onde se lia: é verdade esse bilete.
ObservaçãoTodas as afirmações marcadas com * podem ser encontradas no livro “O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota”, de Olavo de Carvalho, mentor intelectual de vários ministros e do atual Presidente da República.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

TOYS ARE US
Sempre gostei de brinquedos que falavam comigo. Não esses em que bastava apertar um botão para ouvir uma frase pronta, mas aqueles silenciosos que me deixavam usá-los e falar por eles. Havia os brinquedos em que tudo o que se tinha de fazer era apertar um botão, girar uma alavanca ou pressionar uma tecla para que brincassem sozinhos. Brinquedos egoístas, independentes, cuja alegria e o divertimento estava dentro deles mesmos. Nunca tive desses que achavam a presença de uma criança um fardo. Tenho a sensação de que um brinquedos assim devia suspirar em seu íntimo de plástico algo como “que chatice, lá vem aquele garoto me apertar outra vez", e depois disso, apertado o botão correto, o brinquedo saia brincando sozinho, como se o menino jamais existisse, e os olhos iam seguindo o objeto, muito mais na inércia do que na imaginação. Sempre preferi aqueles que dependiam de mim para serem felizes. No tempo em que matar índios era divertido e incentivado, minha cavalaria, comandada pelo invencível general Custer (que depois descobri que foi massacrado em Little Big Horn) caçava até o ultimo índio que rondasse o tapete oval da sala. Não satisfeita, a cavalaria chamava o exército, e os pobres índios nao tinham mais vez. Também havia os animais selvagens, que meus soldados caçavam pela selva, animais sempre rebeldes que queriam destruir o acampamento dos pobres soldados. E não havendo índios, cavalos de plástico, soldados ou pistoleiros, eram latas, tampas, potes, cones de lã. Tudo o que pudesse ser algo mais do que era, brinquedos com os quais eu imaginava, conversava e que me respondiam. Respondiam com aventura, com empolgação, com criatividade e ficção. Eram bons amigos. Hoje os brinquedos bastam em si, para a geração de pequenos gênios e espetaculares crianças prodígio, uma tela touch já é o suficiente. Basta alguns apertões na sequencia correta e muitas cores explodem na tela, aventuras, bonecos animados. Mas quem brinca é o brinquedo, não a criança. É como se alguém comesse o churrasco por vc: vc sente o cheiro, vê a textura, observa o corte perfeito, mas não mastiga nada. Espero que um dia essas crianças tenham imaginação suficiente para solucionar os problemas do mundo, pelo menos alguns, porque a minha geração, com toda nossa criatividade e expostos aos mais complexos problemas físicos e mecânicos do cotidiano, não fomos capazes. Se piorar, sempre haverá a chance de recomeçar a grande brincadeira da humanidade, basta pressionar um botão.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

RALOIN, TENQUESGUIVEN E BLÉQUE FRAIDEI


Não sei de onde vem esse desespero por importar datas significativas dos Estados Unidos. Só sei que, de uns tempos para cá, começamos a comemorar o Halloween...  tudo bem que a festa seja uma tradição milenar celta que celebrava o fim da colheita e o ano novo celta, mas daí para chegar ao Brasil como as ‘travessuras ou gostosuras’ dos EUA? Preferia que os marqueteiros tivessem adotado o Dia de los Muertos mexicano, pelo menos tem uma conotação mais humanista, homenagear aos nossos ancestrais que já se foram. Estou falando disso porque hoje é o Dia de Ação de Graças, e ainda que ele conste no calendário oficial brasileiro, acho que em alguns anos estaremos nos vestindo de Abraham Lincoln com barbas postiças, índios estilo americano e comendo peru no almoço como eles fazem por lá. Essas datas do mês de novembro estão chegando ao Brasil com uma força enorme, parece que temos uma população ansiosa por ser norte-americana, ser americana não basta! Depois, forçadamente, adotamos a Black Friday, o dia em que se vende tudo “pela metade do dobro”, como diz José Simão. Ora, se não comemoramos o Dia de Ação de Graças apropriadamente, não tem nenhum sentido existir uma Black Friday. Explico, a data foi criada nos Estados Unidos porque era ‘proibido’ – ou pelo menos não era de bom tom – fazer anúncios natalinos antes do Thanksgiving. Assim, no dia seguinte à Ação de Graças o pau comia, começavam as grandes ofertas para as compras de Natal, norte-americanos não perdem tempo quando se trata de vender. Mas por aqui, bem, você sabe como a gente é ansioso, passou o Dia das Crianças já é Natal, Bléque Fraidêi por quê? Para mim, seria legal se ao invés de adotar essas datas em novembro (que tem tão  pouca relação com nossa cultura), adotássemos coisas mais terrenas, representativas e universais como os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres que começa no mundo inteiro a partir de 25 de novembro, desde 1991. Mas ativismo está fora de moda na república, vai ser ‘exterminado’ – dizem, violência contra a mulher agora é mimimi, então só nos resta, como bons macaquitos, engolir as datas do Tio Sam.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A MENINA E O DJINN é meu romance de estreia. O livro conta a história de Beca, uma menina comum, mas que tem um Djinn todo seu, uma criatura mágica capaz de realizar qualquer desejo. A trama acompanha todo o crescimento de Beca desde antes de seu nascimento até a idade adulta. A menina recorre ao seu Djinn para as mais variadas tarefas, desde fazer o dever de casa de química até materializar uma boneca gigante ou decorar a casa para uma festa do pijama. Por sua vez, ele tenta ensinar para sua doce menina esperta como o mundo funciona, com muita paciência, uma sabedoria milenar e alguma mágica. Aos poucos, o Djinn vai sentindo em seu coração um grande amor maternal, fraternal e paternal pela menina Beca, e cada vez mais, compreendendo os humanos e sentindo compaixão por essas estranhas e frágeis criaturas. Mas o destino está determinado a colocar um  grande desafio nessa sólida amizade. Juntos, Beca e o Djinn terão que aprender que nem tudo na vida são flores, e para conseguir uma vida feliz e vencer os mais difíceis obstáculos, nada melhor do que ter seu melhor amigo ao seu lado. Não perca! Pedidos por mensagem na página Ideias Recicladas do Facebook.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A FAZENDA


George, desculpe. Ideia Reciclada de George Orwell.

Era uma vez uma fazenda que ia muito bem.
Um dia o dono da fazenda se ausentou, e dois porcos iniciaram uma revolução.
Os porcos assumiram o comando da fazenda e criaram novas leis:

1. Qualquer coisa que ande sobre duas patas é inimigo;
2.  Qualquer coisa que ande sobre quatro patas é amigo;
3.  Nenhum animal dormirá em cama;
4.  Nenhum animal beberá álcool;
5. Nenhum animal matará outro animal;
6. Todos os animais são iguais.

Mas um dos porcos queria seguir os sonhos de liberdade, igualdade e justiça pelo qual fizeram a revolução, e foi traído pelo outro porco. 
Todos os animais se revoltaram contra o porco que foi traído, mas não contra o traidor.
O porco traído foi expulso, e o porco traidor continuou inventando mentiras e calúnias sobre o porco traído e mentindo sobre seu projeto de igualdade e justiça.
O porco que restou assumiu o comando da fazenda, juntou-se com outros porcos aproveitadores e cachorros violentos, e logo começou a subjugar os demais animais para aumentar a produção e ter privilégios junto aos humanos da região.
O porco se mudou para a casa da fazenda, dormia em camas, bebia álcool e fazia negócios com os humanos de duas patas. 
Sorrateiramente, sem consultar os outros animais, reformou as leis:

1. Qualquer coisa que ande sobre duas patas é amigo;
2. Quatro patas é bom, duas patas melhor;
3. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis;
4. Nenhum animal beberá álcool em excesso
5. Nenhum animal matará outro animal sem motivos;
6. Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.

Os donos de outras fazendas tomaram o porco como exemplo, porque o porco administravam a fazenda com mais rigor.
O porco alimentavam os animais com parcas sobras, aumentava os turnos de trabalho e rotineiramente surrupiava sua dignidade alegando defeitos em suas raças, gêneros e cor.
Os animais não se lembravam se antes do porco assumir a fazenda eles comiam mais ou menos, se eram mais dignos, se trabalhavam menos ou mais, se a vida era melhor ou pior.
Mas apoiado por alto-falantes, o porco repetiu seguidas vezes uma mentira que dizia aos animais que sob o domínio do homem eles eram mais infelizes, viviam pior e comiam menos.
Exaustos, famintos e sem dignidade, os animais se conformaram.
Um dia, quando o porco e alguns humanos se reuniram na casa para fazer negócios, os animais olharam  pela janela e já não se distinguia mais quem era homem e quem era porco.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

TODA QUINTA-FEIRA


TODA QUINTA-FEIRA                                                                                                (conto)

Celso acordou animado. Era quinta-feira.

Toda quinta-feira ele acordava assim. Era como se os demais dias da semana fossem um simples pedágio que ele precisava pagar para poder desfrutar das quintas. Recém-desperto, sentou-se na cama por uns instantes, e com olhos embaçados calçou os chinelos. Foi até a porta de entrada e recolheu o jornal do dia sobre o capacho. Com setenta e dois anos era difícil se acostumar às novas tecnologias, por isso preferia o jornal em modelo tradicional. Um jornal feito de papel e tinta, sem curtidas e comentários de terceiros que ele nem conhecia, com letras e fotos que não mudavam de lugar, um jornal tradicional era sempre sua opção mais segura. Ele preferia tudo dessa forma.

Seguindo o ritual de todo dia, voltou para a cozinha e preparou o café da manhã. Qualquer vida é sempre um conjunto de ações mais ou menos previsíveis e sequenciais. Ajustar o filtro de papel, colocar o pó, ferver a água, despejar a água sobre o pó, aquecer as xícaras. Para Celso a vida era sempre previsível. Ele não conseguiria viver uma vida de imprevistos, de improvisos. Preferia manter-se assim, na rotina do dia a dia onde se sentia seguro e confortável. Era esse conforto que lhe trazia felicidade. Passadas as intemperanças da juventude, vivia desse modo já há 72 anos, e não via motivo para mudar.

Depois do café sentou-se à mesa na varanda envidraçada que mantinha as alterações do clima no lado de fora e folheou o jornal. Foi direto até a página da agenda do dia. Lá estava a chamada. O formato era diferente, mas em essência era quase a mesma de 50 anos atrás anunciando o show musical naquela noite. Desde que o Marquês do Pombal havia tornado o ensino da língua portuguesa obrigatório em 1759, muitas mudanças ocorreram na forma de escrever. Mudanças de qualquer tipo não eram o forte de Celso. Para sua tristeza, os últimos 50 anos haviam sido repletos de mudanças: ontem já não tinha h quando ele nasceu, e hoje não havia mais dois e em têm, super-homem conservara seu hífen, a supermulher o perdera. Ele, o piloto, a moça e o governo perderam o circunflexo, e a linguiça perdeu a trema.

Sorriu internamente. Celso não era dado a sorrisos. Ele leu certa vez que sorrir era um erro do cérebro, e não havia qualquer teoria que explicasse aquela manifestação involuntária. Nunca mais riu. Preferia conter-se, a contenção trazia o padrão, e o padrão era seu mantra de vida. Mas aquele pequeno texto de quatro linhas em Times New Roman grafado no jornal o fazia sorrir por dentro. Era hoje, quinta-feira, mais uma delas, um dia abençoado, e se Celso acreditasse em alguma divindade (ele não podia acreditar porque divindades costumavam improvisar demais na elaboração dos resultados), certamente a quinta-feira seria seu dia santo.

Passou a manhã e a tarde envolvido em seus rituais. Foi ao barbeiro logo no início da manhã, não antes de tomar um banho de exatos oito minutos, tempo suficiente para lavar todas as partes de seu corpo numa dinâmica bem ordenada e estabelecida, uma espécie de balé russo de movimentos coordenados. E depois mais quatro minutos para secar-se. Sempre iniciando pela cabeça e descendo até os pés, pois obviamente a gravidade havia de auxiliá-lo fazendo a água escorrer também de cima para baixo.

Vestiu uma roupa sóbria como lhe parecia adequado para ir ao barbeiro. Hoje em dia muitos homens iam ao salão de bermudas ou chinelos, como se fazer a barba ou cortar o cabelo fosse o mesmo que tomar sol em Copacabana ou surfar no Arpoador. Achava aquilo um desrespeito ao profissional, por isso sempre se vestia com esmero para uma sessão de barba e bigode. Ao chegar ao salão ninguém estranhou. Em circunstâncias normais nenhum barbeiro entenderia porque aquele senhor de cabelos brancos meticulosamente cortados e penteados estaria ali. Mas era quinta, e seria estranho para o barbeiro que o atendia há 40 anos se Celso não aparecesse exatamente às dez horas e quarenta minutos da quinta.

Ao sair parou na padaria e tomou um café expresso acompanhado por um pão de queijo. A padaria havia passado por diversas reformas, tinha novos balcões que chegaram com os novos donos há uns dez anos atrás, um novo letreiro de letras douradas, mas o que importava neste caso era o referencial geográfico, não os detalhes. Celso sentava sempre na mesma mesa voltado para a avenida e nem sequer via os carros passarem. Seu olhar buscava lembranças da juventude distante, e assim, entre o aroma do café e o sabor do pão de queijo, ia puxando da memória até se lembrar da primeira vez em que a vira.

Tinha vinte anos quando os amigos o convidaram para ir até um bar onde havia música ao vivo e diziam se apresentar uma excelente cantora. Nesta época Celso ainda não havia descoberto que o improviso era perigoso, e aceitou. Era um bar pequeno, pouca luz. Casais distribuídos pelas mesas com quatro lugares e cadeiras de madeira, um pequeno palco onde somente três músicos muito pequenos caberiam e ainda conseguiriam tocar. Garçons circulavam tranquilamente, e uma atmosfera agradável tomava o lugar encoberto por uma leve névoa esfumaçada no tempo em que se podia fumar nos bares. Pediram cervejas e conversaram sobre os assuntos do dia. A música também iniciou, primeiro os músicos ensaiaram alguns solos e então ela entrou.

A primeira vez que Celso a viu achou que não suportaria o turbilhão que sentiu em seu peito. Foi como se tudo o que ele ouvira falar sobre o amor houvesse se materializado de um instante para o outro. O amor não era cruel, não era efêmero, não era sofrido. O amor era doce, esperançoso e inebriante. O amor era aquela mulher.

Ela usava um longo vestido bordô colado ao corpo com um decote que permitia ver os seios na medida perfeita, deixando que a imaginação completasse o desenho, e a imaginação de Celso completou-o com exatidão. A cintura afunilada e os quadris proporcionais, sandálias tão altas em saltos tão finos que ela mais parecia flutuar do que andar. Levantou-se de uma mesa que ficava ao fundo do bar e desfilou pelo salão até o pequeno palco. Os músicos pareceram diminuir quando sua grandeza se fez presente diante do microfone. Palmas e assovios foram ouvidos, mas Celso não conseguiu mover sequer um músculo, que dirá assoviar ou bater uma palma.

E ela cantou.

Celso entendeu o dilema de Ulisses amarrado ao mastro ouvindo o canto das sereias, ainda que inebriado, sentiu-se insatisfeito. Queria mais, queria estar perto dela, e tal qual Ulisses, tentou se soltar das amarras, mas não conseguiu. A voz era linda, rouca, melodiosa e afinada. Movia-se com sutileza e sensualidade no minúsculo espaço do palco enquanto acompanhava os compassos com a simplicidade de quem conversa, fazendo com que no salão do bar não se ouvisse nada que não fosse o bater ritmado dos instrumentos e aquela voz de divindade preenchendo o espaço vazio. Assim foi por uma hora inteira. Ao final Celso aplaudiu, saindo do transe em que se colocara. Levantou-se juntamente com todos e efusivamente manifestou seu apreço por aquela moça de vestido bordô colado ao corpo, com cintura fina, de seios e quadris fartos, equilibrada sobre o maior salto que ele já vira em uma sandália cheia de brilhos. Estava apaixonado.

Ao final do show pediu ao garçom informações sobre a mulher. O garçom respondeu com a displicência de quem já fora interrogado inúmeras vezes da mesma maneira, mas garantiu que todas as quintas ela fazia shows naquele bar. Deste dia em diante, por cinquenta anos, Celso jamais mudou sua rotina de quinta-feira.

Esta era mais uma. Passou a tarde envolvido em atividades triviais, escrevendo uma nota aqui outra ali, afinando alguma coisa, organizando suas pautas. Quando se aproximou o horário do show, já à noite, preferiu ir de ônibus. Ela sempre ia de carro, ele sabia, mas ele preferia tomar o ônibus. Vestiu seu terno cinza escuro, a camisa branca de um branco inimaginável, abotoou o colarinho e optou por uma gravata azul escura. Tentou o nó duas vezes, mas insistiu em fazer sozinho, até que na terceira ficou perfeito. Conferiu os trocados na carteira e saiu.

O ônibus passava sempre no mesmo horário às quintas-feiras. Às vezes havia um atraso de alguns minutos, e uma única vez por mais de meia hora, o que obrigou Celso a ir de táxi. Mas fora uma única vez. Antigamente o motorista era sempre o mesmo e conhecia Celso, tanto que certo dia chegou até a esperá-lo parado no ponto, pois Celso sofrera um acidente e estava com uma perna engessada, demorou mais do que o normal manquitolando agarrado às muletas. Mas ultimamente os motoristas trocavam como notas numa música, e Celso nunca sabia quem seria seu condutor na próxima quinta.

Sentou-se no lugar mais próximo possível da saída, como era sua regra, e desceu no ponto onde precisaria caminhar apenas cento e cinquenta metros até o bar. Ao passar pela rua viu o carro dela estacionado no pátio e permitiu-se um sorriso interior, um sorriso carregado de lembranças.

Dentro do bar as coisas haviam mudado. Depois de tantos anos ela havia se apresentado em muitos locais diferentes, e agora nos últimos cinco ou seis anos cantava naquele estabelecimento todas as quintas. Era um público mais ou menos cativo. Pessoas que conheciam sua performance e a seguiam onde fosse, ou pessoas indicadas por outras pessoas que um dia a ouviram cantar. Mas parte do público também era de amigos, colegas e conhecidos, e sempre havia Celso. Ele entrava sem falar com ninguém e sentava em sua mesa previamente reservada com uma vista direta do palco, mas nunca na frente. O garçom nem precisava perguntar para saber o que ele pediria para beber, um uísque duplo em copo alto com gelo à parte. Algumas pessoas acenavam levemente para ele, que respondia silencioso e em movimentos quase imperceptíveis da cabeça.

E em determinado momento as luzes diminuíram e Mariana levantou de sua mesa ao fundo, como sempre fizera, e caminhou até o palco sob aplausos, gritos e assovios. Celso constatou que ela havia mudado. Não tinha mais a cintura mínima, e os seios perderam o vigor daquela primeira vez em que ele a viu. Continuava linda. O vestido era azul escuro, como a gravata de Celso, e os saltos eram mais baixos, mas ainda altos. Ela não perdera a grandeza, a beleza nem a elegância. O tempo cobrara de Mariana o preço da existência, e ela pagava com altivez. Deslizou até o palco. Celso sentiu o coração disparar. Sempre era como se fosse a primeira vez. Seus olhos quase se encheram d´água quando trocaram um breve olhar, ela já sobre o palco. Cinquenta anos. Todas as quintas-feiras e ele sempre esteve lá, onde quer que ela estivesse.

Em todos esses anos sempre pensou em subir ao palco e beijá-la. Arrebatá-la em seus braços e mostrar a todos que eles haviam sido feitos um para o outro, que ela lhe pertencia. Muitas vezes quis dar-lhe um enorme buquê de flores após uma apresentação, sair de mãos dadas pela porta do bar, beijar sua boca como se fosse o primeiro beijo. Abrir publicamente um champanhe e fazer amor no camarim. Mas não hoje. Tudo não passava de desejos.

Celso sabia que passaria a próxima hora embevecido pela beleza cativante daquela mulher de voz rouca e harmoniosa. Sabia que não teria coragem de expor seus sentimentos eternos diante de tanta gente. Sabia que não queria seu imenso amor publicamente declarado. Contentava-se em estar ali, e em saber que ela estava destinada a ser dele. E ao final do show, sairiam por portas diferentes, sem mãos dadas, sem beijos efervescentes, sem rosas champanhe ou sexo no camarim.

Quando o show terminou ela agradeceu e se recolheu por uma porta por detrás do pequeno palco. Celso não saiu imediatamente. Olhou para o relógio. Sairia somente doze minutos depois que ela desaparecesse pela porta do camarim. Ele sabia que este era o tempo necessário para que ela trocasse os sapatos, colocasse o casaco, bebesse um copo d´água e saísse para pegar o carro no estacionamento onde acenderia um cigarro e fumaria com tragadas longas aproveitando o frescor da noite. Fora assim que ela fizera na noite em que ele a viu pela primeira vez.

Doze minutos depois de ela desaparecer do palco ele saiu, e como era de se esperar, lá estava ela fumando encostada no carro. Sobre o vestido azul escuro trajava um leve casaco de frio, trocara as sandálias de salto por sapatilhas confortáveis. Celso caminhou hesitante em sua direção, e quando estava a apenas alguns metros ela sorriu:

“E então?”, ela perguntou. “Perfeita, como sempre”, ele respondeu também com um largo sorriso. Beijou-a na boca de uma maneira trivial, mas lenta e apaixonada, ela lhe entregou as chaves do carro, tomaram assento ela no acompanhante e ele na direção. “Vamos comer alguma coisa?” Celso perguntou enquanto manobrava para sair do pátio. “Não, deixei um sopa pronta antes de sairmos”, ela respondeu.

No dia em que Celso viu Mariana pela primeira vez saiu doze minutos depois dela desaparecer no camarim e a encontrou do lado de fora do bar fumando. Conversaram por alguns minutos e saíram para jantar. Em três meses estavam morando juntos. Em dois anos se casaram. No quarto ano nasceu Camila, e no Sexto, Daniel. Ela seguira a carreira de produtora musical, nunca abrindo mão de cantar pelo menos uma vez por semana no bar da família, antes de seu pai e hoje comandado pelo caçula Mariano, que nasceu no sétimo ano de casamento. Celso seguira sua vocação de maestro e regia a filarmônica local. Era ele quem fazia os arranjos para Mariana cantar toda semana. Depois de cinquenta e dois anos de dedicação, respeito e amor, não era possível saber quem amava mais ao outro, se Celso ou Mariana. Certo era para eles que tudo começara numa quinta-feira num bar onde Celso fora levado pelo improviso de alguns amigos, e certo era também que para todo o sempre toda quinta-feira seria um dia especial dedicado ao amor.

Em se tratando de amar, Celso era totalmente avesso às mudanças.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Aviso: Este texto é um conto de aproximadamente 10 páginas, mas vai por mim, vale a pena ler...


A GREVE DOS GARÇONS

Os eventos que você vai conhecer agora ocorreram em 2018.

Eram dezenove e vinte e seis quando Aílson entrou no bar. Seus amigos já estavam lá desde as dezoito, então ele estava atrasado mais ou menos três rodadas de chope. Mesmo sendo uma terça-feira, ele e os colegas de trabalho achavam que o dia havia sido muito intenso, e que mereciam uma bebida antes de voltar para casa.  Aílson levantou o braço e com o indicador e o polegar em forma de pinça, levemente afastados, fez sinal para o Pereira, o antigo garçom de nariz proeminente, referenciando um código conhecido entre garçons e clientes que significava dois dedos de colarinho!

Instantes depois, Pereira veio deslizando entre as mesas, equilibrando a bandeja carregada com seis copos de chope de colarinhos perfeitos. Fez um gingado com a cintura para desviar de uma bolsa dependurada na cadeira, com um giro rápido dos quadris posicionou-se paralelamente à mesa e ao lado esquerdo do cliente. Sacou da bandeja um copo com a mão direita e pousou-o com maestria sobre a bolacha na frente de Aílson. Com a mesma destreza retirou uma comanda do bolso, e como um antigo escriba egípcio, marcou um sinal sobre a comanda que indicava que aquele sujeito, a partir de agora devia onze reais ao bar. Da mesma maneira graciosa e acrobática que apareceu, girou sobre os calcanhares e deslizou para as próximas mesas, sempre com um sorriso no rosto.

Aílson se entreteve com a conversa dos amigos e tomou seu chope tranquilamente, acelerando um pouco o passo do meio para o final do copo para tentar alcançar a rapaziada. E quando terminou o último gole, imediatamente ao largar a tulipa sobre a mesa levantou o braço, fazendo um breve movimento com a cabeça em busca do Pereira. Mas ele não estava lá. Do outro lado do bar uma loira também procurava um garçom. E por alguns instantes Aílson continuou procurando qualquer outro garçom, fosse o Amaral, o Carlinhos ou mesmo o Miguel, este muito lento e sem aptidões para a profissão. Mas não havia nenhum deles por ali. Uma suposição percorreu sua mente, dessas que passam pela cabeça da gente em bares, imaginou que talvez eles estivessem lá na cozinha em um briefing preparando-se para o movimento da noite, e lembrando-se ele mesmo do briefing da tarde de hoje na sua seção do trabalho teve ainda mais vontade de beber.

Impaciente, Aílson levantou-se. Girou ao redor do próprio corpo, os amigos perguntaram o que era, imaginando que a gostosa de vermelho tinha passado outra vez para ir ao banheiro. Mas não era isso. Então ele voltou a sentar e reclamou que não havia porcaria de garçom nenhum no bar. Ninguém deu muita importância para a declaração, até que o Costa resolveu tomar mais um.

Foi a vez de o Costa levantar o braço e girar a cabeça pelo salão percebendo o que Aílson percebera há alguns instantes atrás, que não havia porcaria de garçom nenhum. Ele queixou-se. Alberto também reclamou. Aílson se sentiu fortalecido e decidiu representar o grupo indo até o balcão para reclamar. No caminho entre as mesas percebeu muitas mãos levantadas, alguns acenos para ele, que vestido com uma camisa branca e calças pretas ficara parecido com o Pereira.

Ao chegar ao balcão do bar perguntou para o barman onde estavam os garçons. O barman estava ocupado lavando copos e conversando no whatsapp e respondeu que era sempre assim, quando a gente mais precisava deles, eles desapareciam. Aílson não se incomodou. Pediu quatro chopes e entregou a comanda ao barman que o serviu e marcou ele mesmo os quatro pauzinhos no papel. Somados ao primeiro, significava que agora o cliente devia cinquenta e cinco reais ao bar.

Aílson retornou à mesa e distribuiu os chopes. Já que não havia garçom, revezaram-se algumas vezes até o balcão, e ao final da noite pagaram as comandas diretamente no caixa, sem qualquer cerimônia. Ele voltou para casa de Uber, ainda pensativo no que havia acontecido no bar naquela noite e o que havia acontecido com os garçons. Como qualquer bêbado, teve muitas ideias incríveis e fez uma ótima teoria da conspiração, pena estar sozinho, pois estava na medida certa da bebedeira para fazer uma daquelas combinações de viagem que jamais vão acontecer, como conhecer o Himalaia, ir à próxima Copa do Mundo, ou mergulhar numa ilha incrível que alguém postou no Pinterest.

No dia seguinte o mundo seguiu seu curso. Já eram onze e quinze da manhã e ninguém na repartição tinha tomado um café. Qualquer um que trabalha no governo ou num banco sabe que o gerente geral, o coordenador, os assessores e os analistas podem morrer, mas se o tio do café não aparece, o caos está formado. O Secretário de Administração mandou chamar a coordenadora geral de serviços para perguntar onde diabos estavam os garçons que ele ainda não havia tomado nenhum café naquele dia. Ela também não sabia. Mandou um subordinado até a copa, onde as copeiras, vigilantes e o pessoal da limpeza reuniam-se ao redor de uma tela de televisão. O subordinado perguntou o que estava acontecendo, e os terceirizados informaram que não se falava em outra coisa na TV que não fosse a greve dos garçons. Um frio percorreu a espinha do subordinado. Ele sabia que o mensageiro sempre morria quando levava más notícias.

E foi assim que começou. Todos foram apanhados de surpresa com a greve dos garçons, inclusive o governo. Naquele mesmo dia a imprensa começou a falar na greve e em suas consequências, no desabastecimento, no aumento da gorjeta, nos garçons piratas, na falta de chope e na queda da produção de aves para o frango a passarinho. Na falta de informações, ouviu especialistas que preenchiam as lacunas falando qualquer bobagem, julgar o que ouve nos telejornais não era exatamente o forte da população.

No terceiro dia da greve os supermercados começaram a perceber um movimento atípico. Uma grande afluência de consumidores da classe média começou uma migração às compras. Carrinhos lotados e grandes filas nos caixas.  Os primeiros produtos que despareceram das prateleiras foram água engarrafada sem gás, papel higiênico, sabão para máquina lava-louça e salmão congelado. A mídia adorou a novidade. Preencheu suas colunas com fotos de prateleiras vazias sob títulos catastróficos como “Greve dos garçons pode vir a causar desabastecimento”, ou “Queda no PIB pode se dever à greve dos garçons” e “Fritas podem estar com os dias contados”. Tudo no tempo verbal que na língua portuguesa chamamos de Futuro do Presente Composto, ou de uma maneira mais coloquial, palpitando sobre o que pode acontecer sem ideia nenhuma do que realmente pode acontecer. Mas o importante era gerar notícia. Isso aumentou o medo da população com a possível falta de alimentos e incrementou a venda nos supermercados. Em menos de uma semana de greve o preço de uma bandeja de inox já havia subido setecentos por cento. No Mercado Livre, uma gravata borboleta antes anunciada por três e quarenta e nove agora já valia duzentos e cinquenta reais. Os analistas nos canais de notícias e na internet continuaram incentivando o caos, mas ninguém parou para analisar qual seria a provável relação entre garçons e falta de alimentos nos supermercados.

Alguns bares e restaurantes permaneceram atendendo, mesmo diante da enorme crise que tomava conta do país. No início, as filas para almoçar começavam por volta das seis da manhã. As pessoas deixaram de ir trabalhar para esperar a hora do almoço nas filas. Algumas pediram férias para poder ficar na fila e cumprir seu  horário. Mães levavam crianças de colo e exigiam o direito preferencial, e desvendou-se um curioso mercado de uso de idosos como marcadores de local na fila. Ainda que muitos insistissem, alguns dos estabelecimentos fixavam cartazes dizendo que somente serviam marmitas para levar se a marmita tivesse o selo do Inmetro.

Isso ocasionou um enorme problema para o Inmetro, pois não havia uma norma para marmitas. Uma emenda parlamentar foi votada às pressas no Congresso e instituída uma comissão para executar a norma em tempo recorde. Cada partido indicou dois parlamentares, e o orçamento da União foi alterado para comportar este novo custo. À noite, um dos idealizadores da comissão apareceu num jornal nacional de grande abrangência territorial exibindo um sorriso triunfante no rosto afirmando que a ideia era sua. A norma ficou pronta em menos de setenta e duas horas, e custou cerca de nove milhões aos cofres públicos, mas isso não era relevante, segundo informava o governo em seu bom e velho gerúndio, o importante era que a questão das marmitas estaria sendo resolvida.

Ninguém teve paciência de ler as duzentas e trinta e três páginas da Norma das Marmitas, na verdade, ninguém conseguiu passar das vinte e cinco primeiras páginas onde somente eram “definidos os conceitos utilizados nesta Norma”.

Não estando a questão das marmitas bem resolvida, a população apelou para a criatividade, e criatividade neste país significava pirataria. Em alguns dias as marmitas alternativas já circulavam ostentando um selo do Inmetro em holograma, mas que na verdade eram fabricadas no acesso três do Morro do Alemão no Rio de Janeiro. A Polícia Federal iniciou uma investigação para apurar os envolvidos, mas nunca conseguiu vencer uma hipótese de que teria sido um ex-presidente comunista quem havia desenhado o selo para as marmitas. A tese foi criada por uma revista de grande circulação nacional sem prova nenhuma, e suportada por procuradores e um juiz federal do sul do Brasil, mas depois de algum tempo, quando foi provado e comprovado que nada disso era verdade, ninguém mais lembrava como o assunto começou e a revista se calou.

Quando a crise parecia não ter fim, os comissários e comissárias de bordo, avaliando a similaridade entre o seu trabalho e o de garçons, optaram por declarar apoio irrestrito à greve e decretar também eles sua greve por tempo indeterminado. Assim, ao final da primeira quinzena a sociedade já enfrentava um de seus maiores desafios desde a superação da goleada de sete a um sofrida da Alemanha.

Com os aeroportos fechados o governo entrou em colapso. Como era junho, os parlamentares não poderiam ir até suas bases participar das festas juninas e nem seus netos podiam ir para a Disney. Sessões de emergência foram convocadas, e uma dispensa de licitação foi aprovada por quase unanimidade do parlamento autorizando a contratação de jatinhos particulares diante da iminente crise institucional do país justamente em pleno mês de junho e véspera da Copa do Mundo. Falta de comida nos supermercados, ninguém tomando caipirinha numa mesa de bar, zero pastéis de carne e queijo, nenhum kibe, tudo isso era suportável, mas deixar de participar das festas juninas era muito sacrifício para os nobres representantes do povo.

Na terceira semana diminuiu a oferta de estabelecimentos que podiam atender sem garçons. Mesmo as lanchonetes tipo pé-sujo, que nunca tiveram garçons, agora aumentavam o preço do ovo em conserva em trezentos por cento por culpa da crise. Naqueles locais que ainda atendiam, formavam-se filas quilométricas que duravam dias e dias. Mas com o aumento da tensão e o insuflamento do pânico pela mídia especializada (sim, agora havia uma mídia especializada em greves de garçons) os ânimos foram se acirrando, e a Força Nacional teve de ser convocada para conter a onda de violência que se alastrava nos bufês de quilo. Pessoas agredidas com vinagrete nos olhos, colher de pau na orelha e queimaduras de costeletas ao molho barbecue chegavam constantemente aos hospitais da rede pública. Muitos estabelecimentos fixaram cartazes onde se lia “O estabelecimento reserva-se o direito de cobrar a comida desperdiçada em brigas pessoais”.

Para ajudar a conter a onda de violência uma nova norma foi baixada pela vigilância sanitária proibindo nos bufês cenouras inteiras, comida quente e o uso de facas em bares e restaurantes. A população, em especial a classe média, correu para os supermercados e atacadões para comprar as últimas facas antes da proibição, e mesmo que a proibição fosse somente em bares e restaurantes, uma colher que antes custava dois reais passou a ser vendida no mercado informal por até duzentos reais.

Nas ruas a violência aumentava. Muitas lojas começaram a ser saqueadas e o exército foi convocado a patrulhar as ruas centrais de algumas capitais. Os analistas de internet e os especialistas de coisa nenhuma das redes sociais se calaram diante do fato, porque ninguém, nem mesmo o escritor mais criativo, era capaz de conseguir inventar qualquer ligação entre um chope que demora para ser servido e o roubo de uma smartv de 65 polegadas na véspera da Copa do Mundo.

Quem não se deu por vencida foi a classe média. Afinal, ela havia se acostumado com seus privilégios e não queria abrir mão disso de jeito nenhum. Não seria meia dúzia de garçons que só tinham ensino médio que iriam acabar com todas as conquistas que ela tivera com o próprio esforço, sem ajuda de ninguém e sem depender de esmola nenhuma do governo. Garçons piratas começaram a inflacionar  o mercado de festinhas de aniversário de crianças e jantares do Rotary. Um garçom mediano podia ser contratado a mil reais por quatro horas. Enquanto um garçom com luvas brancas e vestimenta completa valia cerca de três mil,  o mesmo garçom se tivesse cabelo grisalho podia cobrar até cinco mil. Em pouco tempo sites especializados em eventos publicavam dicas de como contratar o melhor garçom no mercado alternativo, ou como saber se sua festa bombou considerando o desempenho dos garçons. No Facebook, socialites se exibiam em selfies abraçadas em garçons, as vezes mais de um, quanto mais garçons na foto, maior a popularidade. Na análise política sempre qualificada da classe média ascendente, todo o problema estava nesse mimimi de direitos trabalhistas, nessa bolsa esmola que fazia as pessoas pobres deixarem de trabalhar e naquele ex-presidente comunista que, graças a Deus, e em nome da família, estava preso. Melhor mesmo só se os militares interviessem para acabar de uma vez por todas com esta pouca vergonha. Bom mesmo foi sessenta e oito.

Na mídia a discussão se ampliava. Agora outros especialistas em coisa nenhuma começavam a debater a formação do preço da gorjeta. As correntes principais consideravam se o governo devia intervir ou não no preço da gorjeta, e se valia a pena privatizar os bares e restaurantes. E quando alguém parou para pensar e argumentou que bares e restaurantes já eram privatizados, levou uma grande vaia cibernética seguida de uma série de comentários que sugeriam sua ida para Cuba.

O debate ressoou nas redes sociais, e em algum momento houve uma forte polarização entre quem era a favor da gorjeta e quem era contra. Os grupos tornaram-se antagônicos, e grandes bolhas de ideias se formaram. Os diferentes não conviviam mais uns com os outros tornando impossível o diálogo, e a sensação de qualquer um dos lados era de que o outro lado não existia ou representava uma minoria mentalmente incapaz. As fazendas de postagens eletrônicas da Rússia e Coreia viram o Brasil como um grande cliente e os trolls se multiplicaram. Pequenos movimentos reacionários aproveitaram o cenário de confusão e ignorância coletiva para se autopromoverem. O Movimento Garçons Livres – MGL, surgiu do nada trazendo um menino mal desmamado como representante oficial do povo, autodesignado por ele mesmo (sic). Organizaram-se passeatas contra o governo e um balão gigante de borracha imitando um chope foi inflado em plena Avenida Paulista em São Paulo.

E então o governo decidiu que bastava! Preparou uma grande negociação e fez uma oferta irresistível aos garçons. Os garçons aceitaram a proposta e a mídia comemorou. Fim da greve! Só que não. No seu afã de resolver o problema o governo conversou com pessoas que não representavam os garçons em greve. Uma nova crise institucional se instalou. As filas em restaurantes eram cada vez maiores. Alguns prefeitos decretaram estado de calamidade pública, um instrumento constitucional que permite não pagar o salário a professores, médicos e ao pessoal da saúde, além de considerar justo o calote das prefeituras nas dívidas federais.

Com o fracasso das negociações do governo os pré-candidatos à presidência começaram a se manifestar em apoio à greve. Um senador mimado filho de uma tradicional família brasileira também pensou em se manifestar, mas suas ideias viraram pó. Surgiram grupos de whatsapp em apoio e em repúdio à greve, e num domingo de manhã, entre famílias, ciclistas e crianças que passeavam em Ipanema, uma moça apareceu totalmente nua, com o corpo pintado com as cores da bandeira do país, sambando em sandálias de salto alto e pedindo a volta da  moralidade.

O governo voltou à carga. Decidiu conversar com os manifestantes outra vez e agora resolveu ir até o reduto da manifestação. Mas na hora de entrar para a reunião só havia dez lugares e haviam muitos líderes do movimento, então o governo decidiu que só entrariam sete. Na reunião, além de todo o estafe do presidente estavam também as pessoas selecionadas pelos assessores: cinco sindicalistas representantes dos grevistas, um vendedor de algodão doce que tinha vendido quase nada, e dona Célia, que estava por ali de passagem e segurava um cartaz pedindo a intervenção militar conforme lhe pediu um rapaz muito simpático que queria uma foto de impacto para o jornal.

Ao final da reunião o governo divulgou os três pontos da discussão: aumento de 50% no valor da gorjeta (que ele prometia que em hipótese alguma seria repassado aos consumidores) e aumento de 10% no preço do algodão doce. O terceiro ponto da discussão era proibir o vizinho da dona Célia de tocar funk ostentação até altas horas da noite, assunto que chamava muito a atenção dela ultimamente.

Como era de se esperar, a negociação não triunfou, e passados cinquenta e cinco dias de greve o presidente finalmente ficou sabendo que havia uma paralisação. Foi no mesmo dia em que descobriu que tinha o maior índice de rejeição da história da política. Os assessores sugeriram que o exército fosse chamado para acabar com a greve. Aborrecido, o presidente determinou que a greve fosse encerrada pelo exército imediatamente, mas levou mais dois dias para ele entender que a greve não era do exército, mas que o exército seria chamado para acabar com a greve. O assunto foi parar no supremo tribunal federal, que pelo currículo de seus integrantes estava mais para diminuto tribunal federal. Mas os sujeitos vestidos de Batman não conseguiram chegar a um consenso. Uma hora estavam de um lado, outra hora estavam do outro. E o supremo foi apelidado de musgo, porque sempre ficava em cima do muro.

Passados três meses do início da greve dos garçons o país estava metido em uma guerra civil sem precedentes. Mas um dia, numa declaração emocionada no youtube, o Pereira, aquele garçom de origem humilde, pediu o retorno de todos os colegas ao trabalho. Ele estava com saudade de deslizar graciosamente entre as mesas com sua bandeja de chopes, de ser chamado de parceiro, amigo, companheiro, sangue bom, camarada, capitão. Queria estar de novo entre as risadas altas, as discussões de futebol, os bêbados chatos e as gostosas de vermelho. Não aguentava mais ficar em casa olhando o Facebook e assistindo um jornal nacional numa rede de televisão de grande abrangência territorial. A internet foi solidária com o Pereira, e milhares de vídeos de apoio chegavam a cada minuto. A expressão "Somos todos Pereira" viralizou na internet, e uma rede de rádio fez um programa especial de reportagem sobre esse sujeito originado do povo. Carros apareceram na rua com pintura nos vidros dizendo "Pereira Vive". Nos camelôs de todo o país camisas com a foto de Pereira eram vendidas por vinte reais. Pereira foi cotado como possível candidato à presidência para unir o país e foi capa de uma revista. Todos estavam emocionados. A gorjeta agora era de 50% e obviamente quem pagava a conta era o povo, mas o povo estava feliz outra vez! E assim, com a massa dominada, tal qual começou sem motivo, a greve, sem motivo, terminou.

Os eventos narrados aqui ocorreram em 2018.