domingo, 11 de julho de 2010

¡Fúria!

Eso no ocurrió en una plaza de toros, tampoco estaba en las Ramblas con Gaudí, o cerca de los molinos de Don Quijote. No era el finestere, o en los caminos que conducen a Santiago. Fue en la cuna de la civilización que la fuerza del fútbol español insistió en proponerse a brillar en la galería de campeones del mundo. Brasil no ha ganado la Copa Mundial de Fútbol, pero nuestros hermanos españoles lo hizieran. ¡Fuerza Furia!, fue el mensaje que envié a todos mis amigos en España después de la derrota del primer partido. Bienvenidos a los campeones del mundo! es lo que los digo ahora. ¡Saludos!


Hoy, el mundo del fútbol es amarillo y rojo.
Nos encontraremos en 2014, bajo la sombra de los "morros" de Río de Janeiro.


¡OLÉ!

*Como dizem os norteamericanos, excuse my french.

Isto não aconteceu em uma Praça de Touros, tão pouco foi nas Ramblas de Gaudí, ou próximo aos moinhos de vento de Dom Quixote. Não foi no finestere, ou nos caminhos que levam a Santiago. Foi no berço da civilização que a força do futebol espanhol insistiu e propôs-se a brilhar na galeria dos campeões do mundo. O Brasil não venceu a Copa, porém nossos irmãos espanhõis o fizeram.  Força Furia!, foi a mensagem que enviei a todos meus amigos da Espanha depois da derrota na primeira partida. Bem vindos Campeões do Mundo! é o que lhes digo agora. Saudações!
Hoje, o mundo do futebol é amarelo e vermelho.
Nos encontraremos em 2014, sob a sombro dos morros no Rio de Janeiro.
OLÉ!

sábado, 3 de julho de 2010

Homo Invisibilis

No MSN tem uma opção onde a gente pode ficar Invisível. Pelas mãos de H.G.Wells ser invisível já rendeu muitas coisas boas na literatura quando um físico se tornou um vilão terrível numa pacata cidade do interior. No seriado de TV (lembra do loirinho com cabelo de Príncipe Valente?) o doutor Daniel Westin se mete em grandes aventuras ficando invisível ao retirar sua pele sintética e sumir no vazio. Depois foi a vez do cinema, um criminoso que aceita participar de uma experiência e implanta uma glândula artificial em seu corpo que o deixa invisível quando o nível de adrenalina sobe...lembram? O cara quase surta. Finalmente em Quarteto Fantástico Susan Storm também tem a habilidade da invisibilidade, pensando no corpaço da Jessica Alba fico imaginando que seria uma tragédia uma mulher dessas ficar invisível.

Na vida real também ficamos invisíveis. Qualquer um de nós experimentou a sensação desconfortável de não existir. Em minha opinião somos todos invisíveis em determinados lugares. As salas de espera de Emergências em hospitais são o principal agente da invisibilidade e em esperas de consultórios isso pode se agravar. Chegamos dez minutos antes do horário marcado de comum acordo entre médico e paciente (talvez por isso o nome seja paciente...), preenchemos a ficha, não pedimos desconto ou fiado. Nos sentamos e a invisibilidade chega. Como era de se esperar, pacientemente esperamos nosso estado de visibilidade voltar ao normal. O médico abre e fecha a porta, mas nunca é a nossa vez. E em determinado atmo de tempo (isso existe?) recuperamos nossa visibilidade e perguntamos quando será nossa vez - ou se vai demorar muito - e logo estamos invisíveis de novo, esperando pelo médico que se atrasou porque a menina gostosa com amostras grátis do laboratório entrou na nossa frente.

Também ficamos invisíveis em restaurantes. Mas aí não é uma habilidade só nossa, os garçons tem seus poderes extraordinários também. Com seu incrível olhar de raio-x eles ultrapassam nossas mãos erguidas, guardanapos agitados, seus ouvidos ignoram nossas palavras de "mestre", "parceiro", "sangue bom", e a invisibilidade toma conta de cada corpo na mesa. Na praça do garçom mau humorado somos nada. Ocupamos um espaço nas cadeiras, mas não podemos ser vistos. A conta não vem nunca, tocada por nós, transformou-se também em invisível. Como se fossemos uma espécie de Rei Midas da imaterialidade, nosso toque tudo faz desaparecer, não estamos mais ali para o garçom que vai e vem hábil entre as mesas com seu olhar selecionador.

Já fui invisível na noite vestido com minha melhor roupa, em bares, boates, no trabalho. Desapareci como todos no ponto de ônibus, na fila do banco, sendo ultrapassado por algum mal educado na fila de qualquer coisa. Me desmaterializei numa reunião onde ninguém me ouvia falar, ou na sala de aula com algum professor desinteressado na faculdade que ignorava nossa presença de alunos.

Mas de tudo, o que mais me assuta é a invisibilidade social. Caminhamos pelas ruas das grandes cidades olhando para o vazio. Passamos por esfomeados, desiludidos, desamparados, mas não vemos nada. A miséria humana se tornou invisível aos nossos olhos. Não temos mais coração frágil para crianças abandonadas, ou velhos sem teto, mendigos imundos, meninas perdidas. Os invisíveis sociais não demandam nada. São simplesmente olhos que nos seguem da sombra da transparência urbana, pedindo quase nada, equilibrados no fio da navalha entre a sociedade e o vazio do mundo material. Até quando vamos continuar fingindo que eles não existem não sei, mas tenho certeza que a luta pela erradicação da pobreza e miséria precisam continuar neste país. Avançamos bastante, mas ainda há muito a fazer. Nós brasileiros fomos invisíveis aos governos que se passaram e finalmente agora vamos recuperando nossa materialidade aos poucos.

Como H.G.Wells ou Susan Storm ou o Doutor Daniel Westin, talvez um dia a invisibilidade possa ser controlada. Melhor se juntos a tornarmos desnecessária. No final das contas, espero que eu não me torne invisível com esta postagem no mar infindável de textos da internet.

domingo, 27 de junho de 2010

Domingo

Domingo é sempre domingo. Todo domingo tem algumas coisas que nenhum outro dia tem ou pode ter. Mesmo quando tem feriado na segunda, o domingo é igual. Pior, a segunda fica com cara de domingo e a gente acha ruim. Não podia ser assim, domingo não se trabalha (pelo menos a maioria das pessoas), muita gente encontra a familia, tem futebol, passeio no parque. Mas todo mundo reclama. Ainda mais depois que a Rede Globo e sua programação inviolável batizaram o dia de Domingão. Aí sim, ficou pior.

Domingo tem Fórmula Um, almoço em família, briga em família, jogo as quatro da tarde. Tem também aquela depressão do final da noite, a sensação de que nada vai mudar, e a vontade de começar a segunda de uma vez para por em ordem as coisas que jogamos para o alto na sexta. Tem a enorme fila para o cinema no shopping, e o casal de recém namorados conversando sem parar na fila de trás. Sem contar o Fantástico, com o mesmo formato há dois mil anos, trocando as pessoas mas mantendo a falta de assunto, que mesmo assim será assunto na segunda no trabalho.

Domingo em Porto Alegre tem Brique da Redenção, com as mesmas banquinhas, sempre. Tem chimarrão na sombra do Monumento ao Expedicionário, ou debaixo do sol, dependendo da estação. No Rio tem praia lotada e avenida Atlântica fechada para veículos, meia pista. Em Brasília tem shopping desde de manhã ou correr no Parque da Cidade. Em BH tem Feira Hippie na Afonso Pena. Em Nova Iorque Central Park. Em Manaus tem cervejada com churrasco. Em São Paulo, Liberdade. 

Domingo é dia de brigar com os pais, com os irmãos, com os cunhados, com a mulher, com o marido. Dia de se olhar no espelho com vergonha do sábado, fazer planos de voltar para a academia. Domingo é dia de ir na missa, rezar para ser perdoado por faltas que cometemos sem maldade. Dia de voltar de viagem, com a fila enorme do congestionamento na subida da baixada santista, ou na descida da Serra no Rio. Dia de buscar o filho na casa da mãe para comer em um restaurante de shopping. Dia de ligar para a menina do sábado e conferir se foi mesmo tudo como a gente sentiu, dia de não atender ao telefone.

Domingo é dia de não fazer nada e reclamar por isso. Dia de não ler um bom livro, de não ouvir música. É dia de tédio, mais tédio e mais tédio. É dia de esperar. Dia de não pensar. É nesse dia que o ciclo da vida cotidiana fica mais claro, a cada sete enfrentamos ele de novo, com sua mensagem que nos diz que lá vem outra vez nossa vida do dia a dia com seus pequenos e patéticos problemas. Mas é ele quem nos diz também que lá vem de volta nossa boa e divertida vida, nossos amigos parceiros e engraçados, nossas novas oportunidades, nossas pequenas conquistas, nossas novas tentativas. Imagine um mundo sem domingos, um mundo chato, linear e contínuo, sem o ciclo óbvio e necessário dos dias e nunca mais reclame.

Domingo é hoje!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Casamento por amor

Casamento por amor é um negócio moderno. Até bem pouco tempo os caras casavam para parar de guerrear uns com os outros. Guerra era um negócio caro e que exigia uma enorme logística além de drenar mão de obra, daí que era mais barato bancar uma festa de casamento e acabar com a discussão juntando os reinos. Mas acontece que no século passado, do início para o meio (estou falando do século XX se você não entendeu a ironia) as pessoas resolveram casar por amor.

Eu também acho mais divertido, mas não posso dizer que seja mais prático. Num mundo com X bilhões de pessoas (deixei X porque não tenho certeza de quantas são e estou com preguiça de procurar no Google porque estou com um bolo no forno)... com X bilhões de pessoas no mundo é difícil acreditar que vamos acertar naquela que é a nossa. Eu tentei várias vezes, vocês sabem... Essa quantidade de gente aumenta a pressão, ainda mais para um cara como eu que acredita em um mundo único, solidário e plano. É como jogar a responsabilidade toda sobre nossas escolhas, enquanto vivíamos simplesmente as responsabilidades escolhidas por outros. Ora, um casamento por encomenda já pressupõe que nada vá dar certo, não precisa fazer força ou se dedicar, é só deixar o tempo passar e os problemas enfrentados serão todos atribuídos a isso. É como se alguém que você nunca viu na vida fosse comprar uma camisa para você, não teria obrigação nenhuma de acertar o tamanho. Mas se você for comprar a sua própria camisa, ah...daí você tem que acertar em cheio.

E imagine agora que essa busca se resume a uns poucos quilômetros quadrados para a maioria das pessoas. Tire destes quilômetros todas aquelas improbabilidades (dependendo do caso, pessoas do mesmo sexo por exemplo) e vai sobrar menos da metade. Ou seja, se encontrar, vai ter sorte assim lá no raio que o parta! No final, para mais uma simplificação, chamamos isso de destino, porque é mais fácil jogar a responsabilidade em cima de um ente metafísico e simplificar o processo tirando a culpa de cima de nós(culpa? acho que essa palavra a igreja católica inventou na Idade Média). E ainda tem a casualidade, "...a sorte é um cupido aleatório, que muitas vezes me fez sentar ao lado de mulheres das quais eu jamais sonharia me aproximar. Fico imaginando qual delas é meu grande amor, e quantas vezes já a deixei escapar sem saber... (Walter Kirn)" .

Mais uma vez estou constatando - como tantas constatações que fiz por aqui nesses dois anos - como as coisas são complexas, imprevisíveis e aleatórias, e ainda assim podem ser mágicas, encatadoras e divertidas. Cada vez que alguma coisa dá certo, somos os escolhidos; quando dá errado, os infelizes. Isso não é verdade, talvez o destino sempre nos empurre para o melhor, mesmo que a gente não entenda como ele faz isso. Por isso que eu saio e conheço pessoas. Tenho certeza de que é o destino que está me empurrado para isto.

O destino é aqui!

imagem: http://sol.sapo.pt/

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saramago, Saramágico

Rio de Janeiro. Quatro cervejas no calçadão do Arpoador. Lapa. Rio Scenarium. Banda Farofa Carioca.
Samba.
Funk.
Samba-funk. Caipirinhas. Caminho mais longo. Caminhada no centro. Rua do Ouvidor. Bolinho de bacalhau, cerveja gelada, Chapéu Panamá. Feijoada.

Dormimos.

Barra. Cervantes. Capital Inicial.
O mundo vai acabar, e ela só quer dançar dançar dançar.
Diagonal.

Domingão. Aniversário, seleção. Leblon, Rota 66. Barulho ensurdecedor. Morena de olhos profundos. Pizzaria Guanabara. Jobi fechado. Dormir. Avião de novo.

Minha singela e estranha homenagem a Saramago - Saramágico que muitas vezes me levou nas jangadas de pedra de sua literatura contundente, sem nomes próprios, sem vírgulas, completa de imagens, sem sentido, com todo sentido do mundo.

Boa viagem !

domingo, 6 de junho de 2010

Deus e o processo decisório

Fiquei com pena de Deus. Deve ser mesmo difícil conviver com tantos pensamentos ao mesmo tempo. São tantas as variáveis que tenho certeza que Ele de vez em quando pensa que deveria ter feio o mundo mais simples, ou os homens menos estúpidos. Só na parte de processos decisórios então, deve ser uma loucura. Veríssimo uma vez escreveu sobre isso. Imagine como Deus escolhe as pessoas que vão morrer em cada dia, milhares. Deve ser uma logística muito complexa. Ainda mais em tempos de guerra, não dá prá errar nada, senão pode ir por engano um prêmio Nobel qualquer e uma cura nunca ser descoberta. Não deve ser fácil ser Deus.

E se tomar decisões não é fácil para Ele, imagine então para nós. Estou convencido de que não existe mesmo lógica em um processo decisório de âmbito pessoal. Não dá para dizer que os processos decisórios sejam cartesianos, organizados, regulamentares. Mas que estão muito mais relacionados com esse caldo primordial que nós nos tornamos durante nossa efêmera existência, isso se pode afirmar. Acho que foi o que Freud chamou de Ego, Alterego e Superego, essas pessoinhas com vontade própria que vivem dentro da gente dando palpite, uma espécie de trio de motoristas de táxi indicando como tomar decisões sem nosso conhecimento, mas que alteram permanentemente nosso sistema de crenças e nosso papel no cotidiano. 

Pior é que por conta de fatores nebulosos na avaliação, nem sempre somos honestos em nossas decisões. Tendemos a supervalorizar nossos medos, nos protegendo como primatas recém saídos da natureza hostil (que somos!), ao passo que subestimamos o inimigo interno, aqueles problemas complexos que minimizamos porque são oriundos de pessoas próximas ou amadas. Somos perigosamente perniciosos para nós mesmos quando tomamos decisões. Sempre refletindo com base em nossos demônios, mas ignorando os fantasmas históricos de nossa relação social. Assim vamos trilhando um caminho seguro na vida, "resta saber se seremos felizes, porque infelizes por certo que não seremos, pois nos protegemos contra o sofrimento probabilístico".

Cada fase nova ou novo caminho exige esse esforço. E vamos pisando nas mesmas pedras que outros pisaram, de modo que se tornam tão lisas que não são mais verdadeiramente seguras. Mas somos bichos ainda, é parte de nossa herança natural, e não conseguimos mudar nossos medos e enfrentar caminhos alternativos. Erramos sempre do mesmo modo, não somos criativos no erro. Enquanto uma geração tem medo do futuro porque o passado passou, a outra tem medo do futuro porque ele pode não vir. Irônico e desnecessário, o futuro virá de qualquer forma. São tantas as possibilidades: posso não me aposentar se Serra for eleito e acabar com a Previdência, ainda tem o vulcão da Islândia e tantos outros escondidos, 2012, a bomba atômica que o Irã não tem. O mercado de trabalho para os formandos, o H1N1 ou outro vírus mutante nascido num mercado de animais na China. Nessas horas pensar que a vida é eterna pode ser um alívio, conversar com os mortos pode ser de grande valia, como fazia o Chico. Mas isso dá trabalho e revigora outros medos, traz responsabilidade, e a angústia de ter que acertar, afinal, é o mínimo que se espera de quem transitar em mais de um mundo. Além disso, como vamos ouvir os mortos se muitas vezes somos surdos aos pedidos de ajuda dos vivos que nos cercam, ou dos vivos que falam línguas que nem sequer sabemos o nome?

Resta seguir. Seguir com nossas decisões, nossos medos, escapando aqui e ali das pedras lisas e nos juntando em matilhas, como fazíamos quando éramos só uma criatura a mais no mundo natural, antes de decidirmos sem cerimônia que somos os escolhidos de Deus.

A vida é aqui!


* Esta postagem foi baseada em fragmentos de uma conversa por email de um texto escrito e enviado para mim pelo meu amigo Pedrinho Vieira. Ele me autorizou a usar as idéias centrais e desenvolver. Pode ser que não tenha nada a ver com o que ele quis dizer, mas a comunicação é assim. Valeu, Jovem!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Inspiração, Papai Noel e Rilke

Inspiração é um negócio complexo.

Sempre falei para os meus alunos que inspiração não é nada mágico. Você não tem que acender um charuto cubano, ou tomar uma dose de tequila, ou acender uma vela roxa para criar. Nada disso, sempre disse que inspiração é um conjunto tão profundo de conhecimento que em determinado momento transborda e se materializa numa obra. É como aquela última gota que transborda um copo, ou aquela mãozinha salvadora para empurrar o carro que faz com que os Newtons da inércia sejam finalmente vencidos por 01 Newton a mais. Inspiração é um conhecimento profundo que não consegue mais ficar calado.

Pois eu também nunca acreditei em crises de inspiração. Sempre achei que isso era frescura, bobagem, coisa de quem tem dinheiro e não tem talento, ou tem os dois em excesso. Como vocês sabem, sou um cara assim pragmático algumas vezes, cheio de opiniões. Deve ser de família. Acho que meu próximo emprego vai ser de taxista no Rio, daí vou poder exercitar ter opinião em tudo, e o que é melhor, sempre vou ter razão. Mas o ponto não é este. O ponto é que ando mesmo sem inspiração.

Quando a gente acredita demais numa coisa (e no meu caso essa coisa era que crise de inspiração não existe) e de repente ela parece não ser completamente verdadeira é um pouco estranho. Pensando assim começo a entender os problemas da humanidade, afinal, todos nós fomos enganados pelo Bom Velhinho (não, não é o cara que vendeu o carro para você, é o Papai Noel). Deve ser horrível você ter seis anos e de repente descobrir que todo mundo sabe uma coisa que só você não sabia. Tenho certeza que é isso que nos faz ciumentos, rancorosos, gananciosos, mentirosos no futuro. Nosso modelo é esse:
- Ei, pirralho babaca! Papai Noel não existe! Hahahahahahahahaha!
É um choque de realidade absurdo, dentro de um mundo de faz de conta, pessoas coloridas na Tv, animais que falam e a Xuxa, surge um cara que fala para você que tudo que te falaram era mentira. Como assim?

Comecei este texto só para ver se conseguia escrever sem um assunto, mas parece que estou andando em círculos, ou que bebi demais. Rainer Maria Rilke (que foi o secretário de Rodin por dois anos)  uma vez disse para um cara no livro "Cartas a um jovem poeta" que ele devia escrever sobre a sua própria vida. Não devia escrever sobre o amor porque o amor é muito complexo, e porque outras pessoas já escreveram melhor do que ele porque eram mais velhas (estranho?). E disse que ele deveria escrever sobre sua própria vida, porque depois quando lesse se achasse o que escreveu chato, devia mudar de vida. Sempre achei esta idéia espetacular, mas um pouco cruel. Bem ao estilo do Papai Noel, dá medo mas é bom.

Vou ler este post amanhã, daí decido se preciso mudar de vida. Mas para quem não tinha assunto no início, acho que eu fui bem longe.

Ideías Recicladas é aqui!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Coliseu? Essa não!

Me dói ter que dizer isso, mas estou convencido de que as cidades brasileiras não têm mais saída. A arquitetura está morta. A globalização atingiu a arquitetura da pior maneira possível, nos trouxe os exemplos falidos dos países mais ricos, mas não trouxe a idéia essencial da beleza e da adaptabilidade. Sempre viajei muito a trabalho ou por minha conta e constato que as cidades seguiram um curso que não pode ser mudado. Invariavelmente nossas cidades são feias. O amontoado de construções improvisadas, os vazios urbanos, a infraestrutura deficiente e aparente, o mau gosto na escolha de cores e revestimentos – representados pelo gosto mais barato – sempre, frutos de um repertório limitado. As cidades foram padronizadas no pior. Não há mais uma arquitetura significativa ou representativa encaixada no contexto, somente pequenas colagens reproduzidas nas classes mais pobres, e pior, nas classes mais altas, que teoricamente teriam mais acesso a diferentes fontes culturais, um descaso pela beleza ou uma incapacidade alarmante para distinguir o que tem qualidade do que é simplesmente lixo. Nossa arquitetura parece ter voltado ao estado primordial, construímos a essência do abrigo, pedra sobre pedra, não importa a beleza ou a qualidade, somente abrigar.

Nas periferias a tipologia construtiva das favelas predomina. Não só nas favelas, mas em todo o contexto urbano. Amontoados de casebres de tijolos subindo ou descendo morros, ou espalhando-se pelas áreas planas, ao redor e margeando as rodovias, acinzentados pela fuligem do progresso. Como disse Chico Buarque em Budapeste, cidades que vão se espalhando como uma doença, sem serem contidas por nada (ou coisa assim).

Cada vez que viajo fico em mais dúvida se a arquitetura como disciplina deve continuar existindo. Subtraímos de nós mesmos, pouco a pouco, o direito de ver uma cidade bela. A arquitetura deveria nos lembrar o que poderíamos ser, como me ensinou Botton, a arquitetura harmoniosa deveria representar o que perseguimos, harmonia em essência, beleza como acessório, mas tranqüilidade, equilíbrio e perfeição como finalidade. Cidades são feitas essencialmente de edificações e artérias de circulação. Como arquitetos, nossa parte deixamos para trás, a qualidade das edificações é paupérrima.

Esse descaso dos arquitetos que fazem a arquitetura média brasileira matou nossas cidades. Deveríamos ser indiciados por homicídio do belo, e a avalanche de mau gosto cria um novo ambiente urbano pior do que o espaço original, isto é inaceitável. Nas camadas mais pobres a pressão pela posse ignora o direito coletivo e vulgariza as relações sociais, e o Estado, nas esferas locais, ignorando o crescimento cancerígeno, nada faz. Estou de saco cheio, a arquitetura que estudei e impregna meu espírito é muito mais do que isto.

Não bastasse, o Tizi (meu talentoso ex aluno preocupado com os rumos da arquitetura brasileira) me conta que uma empresa chamada Indiana Mistery entrega uma idéia patética para um prefeito do interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Farroupilha: Um parque temático com uma réplica do Coliseu. Itália é igual a Coliseu: Arquitetura para analfabetos culturais. Quarenta milhões de Reais transformados em um erro estético. E não me falem que na Disney tem réplicas também, porque lá também há espaços de qualidade superior misturados com réplicas intencionais representativas adaptadas a um contexto específico. E ainda tem mais, a entrada principal será uma réplica do Arco de Constantino, coitado.

Meus olhos estão fartos do lixo urbano, e aí vem mais um. Ser arquiteto exige paciência, temo que minha paciência tenha acabado.

* Pela qualidade da computação gráfica feita no Sketchup com os recursos básicos (veja as palmeiras) dá prá imaginar qual será a qualidade do produto final. Repare também no muro da lateral direita do Arco de sei-lá-quem, porque de Constantino esse arco aí não é. Isso sem falar nas faixas de segurança que não levam prá nada. De fato, isso pode parecer bobagem, mas uma ilustração vale por mil palavras, qualquer arquiteto sabe que ela mostra até onde o projeto não foi estudado.
fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2933165.xml&template=3916.dwt&edition=14866§ion=1008

terça-feira, 6 de abril de 2010

Miojo

"A paz está garantida quando não se está com fome"
Momofuku Ando - criador do Miojo

Não sei o que acontece comigo, mas toda vez que vou fazer Miojo tenho que ler as instruções. Acho que tem a ver com alguma esperança sórdida dentro de mim de que a maneira de fazer macarrão instantâneo tenha mudado, e a fórmula seja mais simples ainda. Uma espécie de ultimate way to cook pasta, algo assim como uma idéia impressionante que revolucionaria o mundo da alimentação. Mas não. Meu Miojo desde os quinze anos de idade continua sendo cozinhado por 3 minutos em 450 ml de água fervendo.


Hoje, diante do desafio de mais um Miojo, fui para o Google para saber o que queria dizer Lamen (como disse Nelson Motta, imagine o que Flaubert escreveria se pudesse acessar o Google). Lamen é um macarrão japonês, e o Miojo nasceu em Taiwan, apesar de haverem registros de macarrões instantâneos desde o século XVI na China. Momofuku Ando, criador do lendário macarrão, teve a idéia após a guerra ao presenciar uma fila de pessoas famintas em frente a uma vitrine de fios de macarrão.

De fato, o que temos é que Miojo deveria ser tombado como patrimônio nacional. Por intermédio dele milhões de estudantes em repúblicas e longe da casa dos pais puderam se alimentar depois da aula, e não foram raros os casos onde um saquinho desses salvou um feriado inesperado de 7 de setembro com tudo fechado e nada para comer em casa. Unanimidade entre estudantes, solteirões, recém casados e descasados, inabilidosos cozinheiros e maconheiros, o bom e velho Nissin é praticamente uma instituição da larica provocada pelo uso de uma erva que a rapaziada fuma pelas praias do Brasil afora. 

Miojo não tem classe social, cor, raça, credo ou religião, serve sempre e para todos. Incrementado com creme de leite ou molho de latinha, ketchup, com requeijão ou ovo frito, coberto daquele corante com gosto de galinha caipira, bacon, carne (e recentemente picanha), nunca perde a essência. Basta ter um fogão, uma panelinha, água e um fósforo, e voilá! está pronta a refeição. Conheço pessoas que se tornaram psicologicamente dependentes de Miojo, e quando ele trocou de nome para Nissin tiveram que procurar ajuda especializada. Era como uma referência que desaparecia, seria como comer com um estranho toda noite depois da balada.

Se você leu todo este post, sabe do que estou falando. Se não sabe, benvindo* à Terra, estranho.

Miojo é Nissin!

*O vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra duas grafias para a saudação: "bem-vindo" e "benvindo".

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Parabéns pra você!

Em 1907 Picasso pintou Les demoiselles d'Avignon, o que seria um de seus mais famosos trabalhos em óleo sobre tela. Recém saído da Fase Azul e ainda no que os especialistas (como a Lili) chamam de protocubismo, o quadro hoje está exposto no MoMA em Nova Iorque. Fora isso, além do nascimento do arquiteto Osvaldo Bratke (pai do Carlos) que nos deixou em 1997, também nasceu Katherine Hepburn com seus inesquecíveis Uma rua chamada pecado (Um bonde chamado desejo, no original) e Adivinhe quem vem para jantar, com Sidney Poitier. Infelizmente outra maravilha feminina chamada Audrey Hepburn não era sua filha, mas seria um feito memorável se fosse verdade. Tirando isto, 1907 foi um ano chato.
Em 1907 o cinema era uma criança nascida em 1895 e proliferada em feiras e circos. Os automóveis da Ford eram do tipo calhambeque, aqueles de revista do Pato Donald, e Henry Ford somente popularizaria a linha de produção para seu famoso Ford T no ano seguinte. O presidente do Brasil (confesso que nessa tive que apelar para o Google) era Afonso Pena. Ou seja, 1907 foi um ano sem graça.
Quantos gênios seria necessário que nascessem em cada ano para que a gente pudesse dizer que foi um ano especial? Ontem não tive tempo de escrever sobre o dia de hoje (terça-feira, 15 de dezembro de 2009) e como ele é especial para nós arquitetos brasileiros, aniversário de Oscar Niemeyer, nascido em 15 de dezembro de 1907, cento e dois anos! Quando a gente coloca o nome dele no Google, lá vou eu de novo, tem mais de um milhão de citações. Quando coloco meu nome, Marcelo Seferin Pontes, são 96 citações...Acho que isso deve ter algum motivo. Quando dou palestras de arquitetura, costumo dizer que os arquitetos nunca se aposentam, em geral trabalham a vida inteira e morrem trabalhando, neste caso, trabalham a vida inteira e continuam vivendo e trabalhando e produzindo e deslumbrando. Casualmente no dia de hoje tive a oportunidade de conhecer sua mais recente construção no Brasil, a Cidade Administrativa do Governo do Estado de Minas Gerais, em Belo Horizonte, ainda em obras e com previsão de inauguração da primeira etapa para 15 de janeiro. Impressionante.
O bloco do Palácio do Governo da Cidade Administrativa tem o maior vão livre do mundo. Se você não é arquiteto ou se é e não sabe o que é vão livre, é o espaço coberto sem pilares. O prédio é uma caixa de vidro toda suspensa por tirantes. A obra, calculada por Sussekind, é de arrepiar. Estava com o Bruno, um amigo arquiteto, e ficamos pensando no desafio de Brasília, centenas de vezes maior do que este. Como avaliar as milhares de sensações que Oscar teve durante a construção de suas centenas de prédios? Como avaliar a vida de um homem que nasceu antes do comunismo se tornar um regime de governo, quando existiam no Brasil cerca de 5 times de futebol, que viu duas guerras mundiais. É difícil entender como alguém consegue varar um século e ainda entender o mundo. Pense assim: quando Oscar nasceu não havia nem idéia do refrigerador doméstico, o rádio estava engatinhando, cruzar o oceano era uma aventura, Santos Dumont havia feito um único vôo em Paris no ano anterior, a arquitetura copiava os estilos do Renascimento e da Idade Média. Hoje nós temos televisões que gravam programas e com as quais você pode interagir para escolher os programas, computadores estão ligados por todo o mundo, cruzar o oceano é cotidiano, e a arquitetura de Oscar varreu o mundo, transformando-o num dos mais importantes arquitetos da história mundial.


Acho que parte de minha imensa consideração por Oscar venha dessa inacreditável capacidade de se adaptar sem perder sua genética criativa, cada traço é uma expressão completa de sua assinatura arquitetônica, um DNA reconhecível, mas diferente. Uma numerosa família com semelhanças, mas diferente. É como se cada prédio fosse uma surpresa de alguma coisa conhecida, um velho amigo que retorna modificado, ou um antigo amor redescoberto em uma festa. A arquitetura de Oscar me faz ficar calmo, abate minhas frustrações e tranquiliza minha inquieta alma de arquiteto que mora em um coração atribulado pela ameaça da mediocridade do dia a dia, da preguiça cultural e das pessoas sem talento ou desejo. Além de parabéns pra você, queria também dizer obrigado. Oscar é dez, ou melhor, é 102!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Resolução de Ano Novo

Eu nunca tomei resoluções de Ano Novo. Sempre me senti meio mal com isso, porque tinha a sensação que deveria mudar alguma coisa, afinal, o mundo estava mudando também. Será? Você já parou para se perguntar por que setembro (sete...) é o mês nove? Foram os romanos que alteraram o nosso calendário original, baseado em ciclos lunares. Um cara chamado Imperador Pompílio resolveu dividir o ano em 12, mesmo com o ano de 365 dias! O ano começava em março (deus Marte), abril (aprilis, de abrir as colheitas), maio (da deusa Maia, mãe de Hermes, o cara que corria para caramba), junho (da deusa Juno, com um temperamento terrível, casada com Júpiter, ciumenta como uma deusa deve ser). Depois começava a simplificação, quintillis, sextillis, setembro, outubro, novembro e dezembro. No final vinham janeiro e fevereiro. Como Pompílio errou nos cálculos, a cada dois anos precisavam colocar um mês extra de 22 ou 23 dias. Vamos combinar! Que negócio mais complicado! Imagine o cálculo de férias e décimo terceiro, recolhimento de impostos e ano escolar?

- Pai, esse ano tem quantos meses?

- Não sei filho, me perdi faz uns quatro.

Julio César resolveu a parada e no ano 46 a.C. criou o novo calendário. Esse ano ficou conhecido como "o ano da confusão" porque tinha um erro de 432 dias. Como o erro acumulado era enorme, os meses se sobrepuseram e o Ano Novo passou para Janeiro. Daí que setembro em diante saíram do lugar. Ei! Ninguém pensou em mudar os nomes? Passar setembro para novembro? Pensou. O Senado alterou o nome do mês quintillis (que agora não era o quinto, mas o sétimo) para Julius, em homenagem a Julio César, 31 dias. Quando Augusto César teve que fazer nova reforma no calendário em 8 a.C. aproveitou para colocar seu nome no mês sextillis e o chamou de Augustus (Agosto). Mas como tinha 30 dias, puxou um diazinho de fevereiro para ficar igual ao de Júlio César, fevereiro ficou com 28. E você meu amigo, que achava que empregar parente era uma sacanagem...o cara roubou um dia do calendário. Esse era profissional.

No Renascimento o Papa Gregório alterou tudo outra vez. Reduziu o ano para 365 dias e criou o ano bissexto, pois a cada quatro anos perdemos um dia (o ano tem 365 dias, 5 h 49 minutos e 12 segundos). Esse é o calendário que usamos hoje. Mesmo que 4 vezes o tempo perdido seja menos do que 24 horas...vai entender.

Agora, pense comigo. Einstein disse que o tempo não existe, é somente a maneira que tentamos explicar a vida (ou coisa parecida). A cada quatro anos recuperamos um pedaço do tempo, mas não comemoramos o Ano Novo 5 horas mais cedo no primeiro ano seguinte ao bissexto! Como disse Veríssimo (ou foi o Quintana?) contamos em anos porque é menos chato do que contar em dias. Além disso ainda teve um Calendário Positivista, do Auguste Comte (os meses tinham nomes de grandes homens da história, e cada dia tinha um homenageado. Ainda bem que não pegou: Eu nasci em Sócrates, no dia de Plutarco...), e ainda temos o Ano Judeu, o Ano Chinês, os Anos Muçulmanos. Daí que concluí que não preciso mesmo ter resoluções de Ano Novo. Vou ter resoluções pela minha própria lei, nos dias que quiser, se quiser, e contar os dias do jeito que eu achar divertido. Essa semana comecei a fazer academia. Meu Ano Novo já começou. E o seu?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Crepúsculo II

Se você caiu neste blog procurando algo sobre Crepúsuclo, a saga, vá para http://www.intrinseca.com.br/crepusculo/serie/serie.php . Senão, fique por aqui e leia.
Vou voltar para o Kafka. Quando ele era vivo, vendeu pouquíssimos livros. Chegou ao cúmulo de ter uma edição completa de seus contos vendida como papel para reciclagem. Por sorte, o cara que comprou resolveu guardar três livros, e um deles veio parar no Brasil e está exposto no Rio. Não são poucos os exemplos deste tipo. Depois do evento da livraria (leia o post Crepúsculo, abaixo deste) fiquei pensando em todos esses escritores que escreveram obras que se tornaram lendárias, e se eles teriam a mesma oportunidade nos dias de hoje. Não que eu não concorde que Stephenie Meyer tem talento. Tem. Assim como Sidney Sheldon, Ken Follet, Marion Zimmer Bradley, J.J.Benítez, Nora Roberts e muito antes Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Ian Fleming. O problema é que esses escritores basearam suas carreiras em uma única história contada de diferentes maneiras. Não é bem o caso da saga Crepúsculo (qualquer semelhança com Romeu e Julieta...), mas não dá para dizer que não é o caso dos demais. Sidney Sheldon tem uma mulher sofrida que enriquece e se vinga de um homem, vingando todas as mulheres do mundo em todos os homens. Ou o contrário. Agatha Christie tem um suspeito preferido que não é o culpado. E por aí vai. Em um mercado editorial de alta copetitividade, J.K.Roling que criou Harry Potter teve seus originais devolvidos sem edição 15 vezes. Fico pensando em quantas devoluções Truman Capote teria com A Sangue Frio, ou Bonequinha de Luxo (aliás, escreva Bonequinha de Luxo no Google e você vai encontrar 122 mil resultados, a maioria falando sobre o filme, como se o livro nem existisse). Pense em Goethe e Fausto, quem ia querer comprar um livro de um cara que achou um cachorro negro na rua e levou para casa? bem...este talvez funcionasse, se tivesse um labrador preto na capa, correndo na chuva com as orelhas para trás. E Tólstoi? "Todas as pessoas felizes se parecem. As infelizes, cada uma é infeliz à sua maneira". Se bem que as histórias em si já existam, cansa ler tudo de novo em outra ordem, mesmo que Madame Bovary, de Flaubert, pudesse ter sido escrito por Sidney Sheldon (perdoem-me, eu não sei o que digo), ou A mulher de trinta anos pudesse ter sido escrito por Marta Medeiros (perdoem-me muito mais), ainda asism é demais. Quando eu tinha uma locadora de video com meu irmão, as crianças adoravam alugar sempre o mesmo filme. Os adultos achavam isto estranho, mas se você parar para pensar, vai ver que as séries literárias são exatamente assim. No fundo temos medo do desconhecido. Medo de tentar e errar em uma sociedade da informação baseada na chance única e no acerto a qualquer custo, que não consegue entender que errar é uma das maneiras de descobrir como fazer certo. Assim fica mais fácil sofrer com a mocinha de Ken Follet, ou com um self-made man de Sheldon, é como ter certeza de que no fim tudo dá certo. Difícil é encarar Holly Golightly tendo uma overdose, Gregory Sansa virando inseto, Gatsby morrer de tristeza sem nada mais para conquistar ou Fausto tentar recomprar sua alma por amor à sua amada. Faz a gente pensar. Pobre Heminghway, pobre Kafka, pobre Balzac, nos dias de hoje teriam que escrever "O que aprendi com a câmara de gás", "Metamorfose - seu caminho para o sucesso", "Sou mulher! - Porque ter trinta anos não é crime". Salve a literatura universal!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Crepúsculo

Se você caiu neste blog procurando algo sobre Crepúsuclo, a saga, vá para http://www.intrinseca.com.br/crepusculo/serie/serie.php . Senão, fique por aqui e leia.

No final de semana fui numa dessas megalivrarias comprar um livro. Isso mesmo, podia ter ido na livraria comprar um computador, um mouse, uma TV de LCD, um som, um GPS, jogos para PC ou mesmo um livro. Fui pelo livro. Não tenho nada contra super-hiper-ultra livrarias, desde que elas não percam a noção do que são em essência. Perguntei para a menina que me atendia sorridente se ela podia procurar no sistema um livro sobre a vida do Kafka, não lembrava o nome, nem o autor, nem a editora, mas sabia que tinha Kafka em uma das palavras do nome. Ela me olhou apreensiva e hesitante tentou teclar no computador.

CA...

- Não, interrompi. É Kafka com K.

Mais uma tentativa. KAC...

Achei que não estávamos indo bem. Algumas pessoas em Brasília costumam não entender meu sotaque, por isso até parei de falar três e dez e agora digo trêis e déis. Tentei ser mais claro, carregando no sotaque fabricado.

- Kafka, como o escritor, com dois Kas.

Achei que assim, numa livraria daquele tamanho, vendendo livros, seria mais fácil ela entender. Kafka, o escritor.Sabe?
KAFIC...

- Não, não! eu ficando impaciente. Com K e depois K de novo, escritor da Metamorfose, O Processo, sabe?

A menina, coitadinha, nervosa diante do teclado, com medo de errar mais uma vez e até com medo de mim, contratada para as festas de final de ano, sem a menor idéia de quem era o tal de K-sei-lá ou do que escrever, me olhando de lado, arrisca outra vez. KKAFI... Eu desisiti.

- Olha, deixa que eu digito prá você... de saco cheio e louco para ler o livro, mas sem nenhuma esperança. Enter.
- Não tem.
- Hum...eu, ironicamente...Mas Crepúsculo tem né?
Ela abriu o sorrisão...
- Tem!Todos!
Crepúsculo, da saga Crepúsculo (Twilight) de Stephenie Meyer ela conhecia bem e tinha. Uma pilha na entrada da loja, com bonequinhos de plástico do Edward e da Bella. Me ofereceu os outros também, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer e com uma alegria contagiante de quem ia vender todos para aquele cara que tinha um sotaque estranho e procurava um livro que ninguém conhecia.
- Obrigado, não vou querer, não.
- Mas são ótimos.
- Sei...ouvi falar.

*** Esta postagem continua em Crepúsculo II, aí em cima. Antes disso, não pense que eu não gosto da série, não tenho nada contra, não me xingue. Nem quero ser intelectual ou intelectualóide, é só uma constatação. Ah, e eu também leio livros de grande popularidade, uma vez só, é verdade, mas leio. ***