quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
2025, de corpo e alma
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
foto: Fala! Universidades
JOHNNY QUER MORRER AOS 27Johnny queria morrer jovem. Pelo menos era o que ele dizia para impressionar as meninas nas rodinhas da escola. Com 14 anos, declarava abertamente que morreria aos 27. Era assim que alguns dos maiores ícones culturais de gerações passadas haviam morrido, e para Johnny isso era “top”, palavras suas. Jimmy Hendrix, Kurt Cobain, Jim Morrison, Janes Joplin, Amy Winehouse tinham morrido aos 27.
— Quer melhor companhia que essa? — Ele dizia, mesmo sabendo
que Amy morreu com 28 anos, mas achando que um ano de diferença não desvalorizava
sua tese contanto que ninguém notasse a diferença.
Mas Johnny, que na verdade se chamava João Carlos e havia
adotado esse apelido porque achava João um nome sem glamour (Johnny não sabia o
que queria dizer glamour, mas tomei a liberdade de usar a palavra em detrimento
de um melhor entendimento de sua personalidade)... por essas e outras, posso afirmar que Johnny, aos 14, ainda não
tinha vivido quase nada. Nunca tinha desaparecido por três dias, não tinha
gastado mais do que ganhava, transado com duas pessoas ao mesmo tempo, batido o
carro, saído atrás de uma bateria de escola de samba, dormido dentro do carro
numa viagem improvisada, se perdido nas ruas sinuosas de um casco histórico em
um país onde se falava uma língua que parecia um sequencia de arrotos. Ainda não havia
frequentado a universidade e suas festinhas, fumado um baseado, dirigido um
carro que não era seu porque o dono estava muito bêbado, subornado um leão de
chácara para não pagar couvert num bordel, aliás, nem sequer tinha transado. Johnny
não sabia como é difícil passar uma camisa com colarinho, que a gente lava as
calças jeans com o zíper fechado, que o bife só pode ser virado uma vez para
não ficar duro, ou que Cervantes levou dez anos para escrever Dom Quixote e que
morreu um ano depois de publicar, em 1616.
— Nunca li um livro – dizia nas festinhas para impressionar.
E isso era verdade. Nunca tinha lido um livro até o final.
Ou achava as histórias entediantes, ou as palavras complicadas. Mas o que tinha
de ignorante em ler, tinha de rápido em abreviar palavras para trocar mensagens
de texto com os “parças”. Nunca ter lido um livro, apesar de impressionar a mim e a você por motivos óbvios, era valorizado no
grupo de amigos de Johnny.
Quando completou 25 anos, Johnny tinha feito muitas coisas
legais, e sua régua de longevidade se estendeu levemente.
— Não quero passar dos 40 – ele dizia agora. — Depois dos 40
a gente começa a perder o cabelo e ficar brocha. Vou morrer antes de ficar careca.
Agora ele fazia essa declaração nas rodas de bar sempre depois
que bebia. Os amigos, alguns ainda da época do “morrer aos 27”, como todos bons
amigos, haviam esquecido a promessa anterior, e passaram a admirar a ideia dele de morrer aos 40.
Afinal, aos 25, ficar brocha era praticamente estar morto. Mas aos 25, Johnny ainda não tinha se apaixonado de verdade. Eram amores passageiros, baseados em sexo
casual. Ele não sabia que as vezes não transar era tão legal quanto transar.
Desconhecia a emoção de comprar seu primeiro carro zero com o próprio salário,
como eram quentes os mares do Caribe, e como eram coloridas as ruas de
Cartagena. Ainda ignorava como fritar um bife, passar uma camisa com colarinho ou
lavar uma calça jeans. Desconhecia a maravilha de uma máquina de lavar louça.
Johnny vivia num mundo pequeno, cujas fronteiras se limitavam ao estacionamento do
aeroporto e as placas de “volte sempre” nas rodovias da saída da cidade.
Quando completou 38 anos, Johnny estava casado e com dois
meninos, trabalhando numa estatal e ganhando o suficiente para uma vida sem
sustos e sem progresso intelectual e sem cabelos em parte da cabeça. Havia descoberto que continuava viril, e seus
fantasmas da impotência que assombravam a idade se dissipavam muito lentamente. Nos
churrascos com outras famílias, depois de umas e outras, Johnny apresentava sua
nova teoria de longevidade.
— Melhor mesmo é morrer aos 60 de acidente aéreo. Sua
família ganha uma indenização e você não sente nada. Não quero ficar velho
dependendo dos outros.
Johnny, que agora achava que o apelido não combinava mais
com ele, pediu para os amigos para ser chamado de João Carlos. Imaginava que
aos 60 anos uma pessoa perdia totalmente o controle sobre si mesma e dependia totalmente dos
outros. Como ele ainda não lera nenhum livro até então (exceção de alguns
livros ilustrados para as crianças dormirem), não sabia que Saramago teve seu
sucesso reconhecido com Memorial de convento somente aos sessenta anos. Não
sabia que Roberto Marinho fundou o império da Rede Globo aos sessenta e um, nem
que Darwin teve seu trabalho difundido mundialmente aos 59. Ele não lia. Mas na
medida em que o tempo passou, e João Carlos viu seus meninos crescerem, surgiu
nele uma vontade de ver mais. Queria ver os filhos formados, namorando e
casando, tendo bons empregos, receber fotos das viagens de lugares distantes
que ele nunca conheceu. Assim, quando completou 59 anos, meio a contragosto, começou a aplicar um novo discurso.
— Viver além dos 75 não tem sentido. A gente só dá trabalho
e gasta o dinheiro dos outros.
Parece que João Carlos não aprendia nunca. Depois que conseguiu se aposentar, passava mais tempo com os netos. No verão, saía de férias com os filhos, esposas e crianças, ensinava os meninos a jogar cartas, pegar onda como um jacaré, fazer castelo de areia, desentocar mariscos no refluxo das ondas do mar. Ainda tinha força nas pernas, comia de tudo, bebia moderadamente e quando queria, conseguia carregar os meninos nos braços. Para além de uma surpresa, mesmo aos 70, ainda se sentia viril. E aquela vontade de partir aos 75 foi se atenuando e transformando, e quando João Carlos pensava nisso, se sentia traído por si mesmo. Olhava para um e outro dos netos e imaginava aquele ou aquela se formando, apresentando o namorado, dançando no casamento, e os bisnetos. Não, repetia para si mesmo, bisnetos não, vou dar muito trabalho.
O tempo ignorou os planos de João Carlos e ele foi vivendo para além dos 90. Viu os netos terem relacionamentos afetivos e os bisnetos chegarem. Dava pouco trabalho, não perdeu a mobilidade, conseguia ler, se atrapalhava com os controles remotos da TV, tentava desatinadamente seguir as redes sociais, fazia café, tomava banho sozinho. Viveu bem e firme para além dos 90, sempre achando que tinha vivido demais e devia ter vivido menos, mas sempre acreditando que hora de morrer era outra.
Morreu no quarto de hóspedes que ocupava
permanentemente na casa de sua bisneta preferida, que era casada com um
arquiteto em ascensão. Johnny estava tranquilo, quando foi se deitar e ainda de
mãos dadas na com ela na borda da cama, lembrou que havia algo que ela deveria
saber.
— Vou morrer aos 94 — ele disse, e se foi.
segunda-feira, 27 de julho de 2020
VOCÊ SABE COM QUEM VOCÊ TÁ FALANDO?
quinta-feira, 23 de abril de 2020
OTÁVIO E A TERRA PLANA
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
TOYS ARE USSempre gostei de brinquedos que falavam comigo. Não esses em que bastava apertar um botão para ouvir uma frase pronta, mas aqueles silenciosos que me deixavam usá-los e falar por eles. Havia os brinquedos em que tudo o que se tinha de fazer era apertar um botão, girar uma alavanca ou pressionar uma tecla para que brincassem sozinhos. Brinquedos egoístas, independentes, cuja alegria e o divertimento estava dentro deles mesmos. Nunca tive desses que achavam a presença de uma criança um fardo. Tenho a sensação de que um brinquedos assim devia suspirar em seu íntimo de plástico algo como “que chatice, lá vem aquele garoto me apertar outra vez", e depois disso, apertado o botão correto, o brinquedo saia brincando sozinho, como se o menino jamais existisse, e os olhos iam seguindo o objeto, muito mais na inércia do que na imaginação. Sempre preferi aqueles que dependiam de mim para serem felizes. No tempo em que matar índios era divertido e incentivado, minha cavalaria, comandada pelo invencível general Custer (que depois descobri que foi massacrado em Little Big Horn) caçava até o ultimo índio que rondasse o tapete oval da sala. Não satisfeita, a cavalaria chamava o exército, e os pobres índios nao tinham mais vez. Também havia os animais selvagens, que meus soldados caçavam pela selva, animais sempre rebeldes que queriam destruir o acampamento dos pobres soldados. E não havendo índios, cavalos de plástico, soldados ou pistoleiros, eram latas, tampas, potes, cones de lã. Tudo o que pudesse ser algo mais do que era, brinquedos com os quais eu imaginava, conversava e que me respondiam. Respondiam com aventura, com empolgação, com criatividade e ficção. Eram bons amigos. Hoje os brinquedos bastam em si, para a geração de pequenos gênios e espetaculares crianças prodígio, uma tela touch já é o suficiente. Basta alguns apertões na sequencia correta e muitas cores explodem na tela, aventuras, bonecos animados. Mas quem brinca é o brinquedo, não a criança. É como se alguém comesse o churrasco por vc: vc sente o cheiro, vê a textura, observa o corte perfeito, mas não mastiga nada. Espero que um dia essas crianças tenham imaginação suficiente para solucionar os problemas do mundo, pelo menos alguns, porque a minha geração, com toda nossa criatividade e expostos aos mais complexos problemas físicos e mecânicos do cotidiano, não fomos capazes. Se piorar, sempre haverá a chance de recomeçar a grande brincadeira da humanidade, basta pressionar um botão.
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
RALOIN, TENQUESGUIVEN E BLÉQUE FRAIDEI
segunda-feira, 19 de novembro de 2018
A MENINA E O DJINN é meu romance de estreia. O livro conta a história de Beca, uma menina comum, mas que tem um Djinn todo seu, uma criatura mágica capaz de realizar qualquer desejo. A trama acompanha todo o crescimento de Beca desde antes de seu nascimento até a idade adulta. A menina recorre ao seu Djinn para as mais variadas tarefas, desde fazer o dever de casa de química até materializar uma boneca gigante ou decorar a casa para uma festa do pijama. Por sua vez, ele tenta ensinar para sua doce menina esperta como o mundo funciona, com muita paciência, uma sabedoria milenar e alguma mágica. Aos poucos, o Djinn vai sentindo em seu coração um grande amor maternal, fraternal e paternal pela menina Beca, e cada vez mais, compreendendo os humanos e sentindo compaixão por essas estranhas e frágeis criaturas. Mas o destino está determinado a colocar um grande desafio nessa sólida amizade. Juntos, Beca e o Djinn terão que aprender que nem tudo na vida são flores, e para conseguir uma vida feliz e vencer os mais difíceis obstáculos, nada melhor do que ter seu melhor amigo ao seu lado. Não perca! Pedidos por mensagem na página Ideias Recicladas do Facebook.quarta-feira, 15 de agosto de 2018
A FAZENDA
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas é amigo;
3. Nenhum animal dormirá em cama;
4. Nenhum animal beberá álcool;
5. Nenhum animal matará outro animal;
6. Todos os animais são iguais.
1. Qualquer coisa que ande sobre duas patas é amigo;
2. Quatro patas é bom, duas patas melhor;
3. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis;
4. Nenhum animal beberá álcool em excesso;
5. Nenhum animal matará outro animal sem motivos;
6. Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.



